
No fim de semana passado, um dos meus últimos enquanto morador de Buenos Aires, decidi aproveitar a falta do que fazer e o calor portenho para descer alguns quilômetros mais ao sul. 640 quilômetros, para ser mais preciso, rumo a Bahía Blanca. E o que em ônibus é uma breve viagem de 7 horas, por trem – meu meio de transporte favorito, devo acrescentar – ela dobra em duração.
Ainda assim, lá fui eu no fim de tarde de sexta para a estação de Constitución, uma das principais da cidade, mais ou menos na mesma altura da mais conhecida Retiro, mas do outro lado da Av. de Mayo. Pra quem conhece bem Buenos Aires, essa informação faz diferença. O “lado de lá” da Av. de Mayo é o lado que contém os bairros de La Boca e San Telmo – o primeiro, conhecido pelo Caminito e pelos assaltos a turistas desavisados; o segundo, pela feirinha de artesanato aos domingos, e pela bateção de carteira na mesma feirinha. Ainda assim, meu trem viajaria uma distância maior que os ramais mais cheios do circuito ferroviário argentino. Alguns subúrbios, como Avellaneda e Temperley estavam no caminho, mas eram estações onde o trem nem parava. Assim que começa a noite, é só roça.
Cheio de confiança apesar do desanimador aviso de falta de manutenção no site da companhia ferroviária cheguei em Constitución com a passagem em mãos, mas a imponente estação de trens se revelou uma experiência bem mais brasileira que europeia. Ou, simplesmente, latinoamericana. Desde gente aplicando o golpe do “me dá 10 pesos pra completar a passagem e eu voltar pra casa” até baderna na plataforma, Constitución é para os turistas mais escolados. Nada de papai, mamãe e titia passeando pela Argentina como se estivesse indo da Suíça para a Alemanha, essa é a galera que se assusta na hora que o trem começa a se preparar para sair e sofre a primeira tentativa de invasão de não-pagantes.

Sim, rolam algumas tentativas de invasão de gente que não quer pagar pra viajar, considerando que comparado aos trens de distância mais curta, esse ramal de Bahía Blanca sai bem mais caro. São três classes de passagem: turista, primeira e Pullman. A Pullman é superior à primeira, mas não pude ver como é porque quando tentei comprar a passagem – na véspera – já estava esgotada. Supostamente é igual a primeira, mas com ar condicionado que, chuto eu, não funciona. Na primeira classe, onde eu viajei (por 55 pesos), rolam bancos estofados reclináveis, mas muito velhos. Provavelmente os mesmos desde os anos 70, no mínimo. Ventiladores de teto que também não foram ligados em momento algum. Mas rolam uns janelões sensacionais, que garantem o frescor da viagem, especialmente quando chega a madrugada. A classe turista tem bancos como os de ônibus municipal, o que é péssimo em uma viagem de 14 horas. Mas, aparentemente, fica mais vazia que todas as outras, permitindo que cada um ocupe um banco inteiro. Pelo menos quando pude dar um passeio pelos vagões turísticos, pela manhã, a galera toda dormia estirada e ainda sobravam vários bancos vazios.

O lance, não importando em que classe você está, é saber lidar com a invasão de galera. Pra isso, é preciso chegar pelo menos meia hora antes do horário de saída do trem, embarcar assim que o embarque for liberado, assumir o seu lugar e esperar. Porque, chuto eu, pelo menos metade dos passageiros que vão viajar com você invadiram o trem em algum momento. A técnica principal é comprar a passagem mais barata para o trem na plataforma ao lado, e quando ninguém estiver olhando, atravessar a linha entre uma plataforma e outra. Quanto mais perto do horário de saída do trem, mais fiscalização aparece nas plataformas. Ainda assim, muito pouca pra hora que o trem apita e uma avalanche de gente desaba de um trem ao outro. Ficam uns três fiscais no meio da linha, tentando impedir a galera de cruzar, mas pra cada pessoa que um deles segura, passam outras dez ou vinte.
E aí o trem sai, em clima de festa. Todo mundo entrou, amigos comemoram, velhos conhecidos habitués do mesmo rolé de toda sexta à noite se reencontram, e o trem segue nesse ritmo até as 2h30 da manhã. Até 2h30 da manhã porque às 3h o fiscal começa a passar pelos vagões picotando as passagens com um furador manual daqueles de escritório nos anos 90 (quando ainda se usava papel). Então mais ou menos nesse horário o último e principal grupo de invasores desce, na estação de Olavarría, que tem uma pracinha ao lado da mesma casinha de tijolinhos vermelhos e bancos de madeira que são padrão ao longo de toda a viagem. Aí que todo mundo finalmente consegue dormir.
Mas também não é um lance Brasil a ponto de ficar todo mundo acordado por paranoia de ser assaltado ou do trem sofrer um arrastão. É uma galera que tá só pegando esse trem assim porque mora em Buenos Aires, longe da família, pagando caro e ganhando pouco, e quer voltar pro interior no fim de semana e não acha justo o preço que cobram por isso. Claro que eu preferia que o trem fosse mais barato ou que todos pudessem pagá-lo, mas dadas as condições, cada um faz o melhor que pode em qualquer lugar do mundo. Então, apesar de ter passado algumas boas horas abraçado à mochila, pelo menos entendo.
O foda é que não é um lance tipo, “invadimos, mas finge que não tá vendo que a gente fica quietinho aqui”. Não, o argentino é orgulhoso, a vibe é “invadimos mesmo, vamos comemorar nosso feito mostrando pra todo mundo que a gente tá aqui e que o governo não nos representa”. Então o que eu tava falando sobre festa e celebração acima é pra ser levado ao pé da letra. Rola DJ de celular, galera indo e voltando pra comprar bebida no vagão-restaurante, muito fernet com coca-cola, e muito cigarro e maconha no espaço entre os vagões.
O trem é desenhado de forma que cada vagão tenha duas áreas de banheiro, cada um com um hallzinho e lavatório adjacente, em cada extremidade do vagão. Os banheiros são separados da parte de passageiros por uma divisória, e há também uma porta que permite passar de um vagão ao outro. Fechando a porta entre os passageiros e o hall do banheiro e abrindo a porta entre os vagões, cria-se uma salinha de confraternização, com banheiro privê, pia usada como assento e lixeira, e área de fumantes com vista para a paisagem natural da Argentina. Não sei se deu pra visualizar direito, então segue um esqueminha desenhado às pressas abaixo:

Toda essa área da festinha, em todos os vagões, ficava ocupada por gente conversando alto, molecada bebendo… O cheiro de maconha invadia o vagão a cada vez que alguém abria a porta para passar. Foi ali que eu dividi uns cigarros com um casal de surdos-mudos que conseguiam ler meus lábios, e se comunicavam naquele esforço de transformar grandes ideias em meias palavras e muitos gestos além do já elevado grau de gesticulação típico do argentino. Fomos bem-sucedidos, dentro do possível, e saí orgulhoso do fato de que meu espanhol já é compreensível até no mute.
A classe e elegância perdidas, da época em que os trens costuravam boa parte do território argentino, ainda surge em lampejos de outras eras ao longo da viagem. Algumas vezes durante a noite e manhã dois garçons passam de vagão em vagão, vestindo terno e gravata borboleta e vendendo bebidas e sanduíches. Aí você pede uma água e ele te responde que só tem refrigerante ou cerveja, e você lembra exatamente de onde está. Ou você morde um pedaço do sanduíche e tem imediata certeza que aquela ausência de recheio e o tamanho gigantesco do massudo pão (tipo pebete) vão te impedir de chegar a terceira mordida (a segunda é pra ter certeza).
A graça da viagem mora toda na janela – mais um motivo para chegar com antecedência pro embarque. É de onde vem o vento, e por onde passam todas as paisagens bucólicas do interior da gigantesca província de Buenos Aires. Muito campo, muito pasto, e depois que amanhece, muito verde, amarelo e azul. Dormir no trem também sempre me foi mais fácil que dormir em ônibus. Tenho certeza que tem algo a ver com o balanço e o barulho repetitivo dos trilhos e das engrenagens. Mas chegar em Bahía Blanca as dez da manhã do dia seguinte também foi um alívio, e confesso que, sob a desculpa da pressa, apelei pro ônibus na volta (menos horas de viagem, mas também dormi menos e pior).
O fim de semana foi sensacional, reencontrei amigos, conheci uma praia de argentino (na cidade vizinha Monte Hermoso), comi feijão e farofa em casa de brasileiros, e finalmente saí de Buenos Aires pra dar um passeio pelo país que me abrigou ao longo de 2011. Mas a parte mais interessante e curiosa da viagem foi, sem dúvida alguma, o trem.
No vídeo abaixo, um trechinho do visual pra vocês.

