Totoma! e a Batalha do Passinho

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Há duas semanas fui com a minha namorada no Sesc Tijuca ver a exposição Totoma! da fotógrafa Daniela Dacorso sobre o universo do funk (“toma to-toma to-toma to-ma toma!”). A mostra era bem pequena, tinha cerca de 30 imagens que mostravam dez anos (1998 – 2008) de bailes nos morros e na periferia da cidade, os personagens, a montagem dos soundsystems, o glamour e a farra. Achei que faltou um histórico sobre a fotógrafa e como surgiu seu interesse pelo pancadão carioca (só fui descobrir isso nesse texto do Globo: ”o marco zero dos registros foi uma reportagem para uma revista alemã no final dos anos 1990, acompanhando Mr. Catra num baile na Rocinha”). Dei por falta também de mais informações sobre as imagens, que só revelavam a localidade que foram tiradas e nome de seus personagens. Algumas dessas informações estão bem explícitas só no texto publicado no Overmundo sobre uma exposição da Dacorso realizada em 2009 na Urca:

As festas no Chapéu Mangueira, na época da “dança da bundinha”, Tati Quebra Barraco no início de carreira, o MC Mr. Catra em família, Deize Tigrona posando para a Revista Vogue durante festa na Cidade de Deus, as duplas Serginho e Lacraia, Gorila e Preto, os bailes da Vila Mimosa e a montagem dos “soundsystems” são alguns dos flagrantes da exposição.

Foi montada também uma pequena homenagem à Lacraia, que morreu em maio deste ano – e foi meio bolante ver nego se agarrando com ela no palco. Sei que parte da farra do show dela era quando o povo subia no palco pra tascar-lhe um beijo (em troca de uma grana), mas achei que o povo na favela era mais machista. Ou talvez sejam machistas, mas sabiam que aquilo ali no palco era só farra mesmo (ou talvez não sejam machistas pois parece que a maioria das famílias ali é comandada por mulheres, já que muito homem não assume a paternidade ou só saem de casa mesmo).

A imagem que mais gostei foi da M.I.A. tirando um auto-retrato com a Deise Tigrona (ela parece meio feliz, meio cansada e meio surpreendida por estar tirando foto com uma artista inglesa). Logo ao lado tinha uma foto da mesma Deise toda arrumada, com um vestido vermelho em uma praia da cidade (e foi uma das fotos que a minha namorada mais gostou, porque espanta pelo glamour).  Foi bacana ver o Mr. Catra deitado no chão com os moleques dele e uma galera que eu nem sabia que existia (tipo o Menor do Chapa). A foto que a minha namorada achou mais divertida foi a Mulher Melão e a Fome Mundial, que mostrava a dançarina no palco se exibindo e os moleques todos se aglomerando babando por ela (e as meninas fazendo pouco caso). A imagem é pura sordidez e farra.

Como tava nas poucas palavras do texto introdutório da mostra, a impressão que tive com a exposição foi que o “funk não é motivo, é uma necessidade / É pra calar os gemidos que existem nessa cidade“. Eu tinha ido recentemente numa exposição sobre a estética punk (I am a Cliché, tava no CCBB) e por isso meio que associei o funk com o punk, por causa do sentimento de urgência e porque, como os dois estilos musicais  surgiram das camadas mais pobres da população, parece que sem a música nego não tinha muita perspectiva pra própria vida. Talvez em tempo de baile funk sendo proibido em comunidades pacificadas, a mostra tenha sido necessária para mostrar que os bailes são a voz e a válvula de escape de uma galera. Ao mesmo tempo, o próprio governo do Estado que proíbe os bailes (por causa dos proibidões) incentivou a mostra e mais outros eventos relacionados a ela, como a final da Batalha do Passinho, que, por sorte, ocorreu no mesmo dia que fui ver a Totoma!.

O passinho tá pro funk assim como o break dance tá pro hip hop. Passinho não é dança. Passinho não é coreografia. Passinho é passinho (saca quando tu tá na pista de dança e manda uns “passinhos”? Então, é isso mas só que muito mais frenético). Parece que a origem dele surgiu com neguinho postando no youtube vídeos deles dançando (saiba mais nessa matéria da Época). Alguém via e tentava fazer melhor e aí botava no youtube também. O troço ganhou força, apareceu na mídia e organizaram campeonato pelos morros da cidade. A grande final foi no Sesc.

Chegamos com a Batalha já começada. Era na quadra de futsal do local e até que tava cheio. O Sany Pitbull era o responsável pelo som e tinha uns jurados na arquibancada. Os Ousados e mais uma galerinha tava lá. Os moleques mandavam bem pacas, uns pareciam que não tinham joelho e outros eram puro ritmo (principalmente os mais novos). Um carinha lá mandou um moonwalk de lado, outro quase dançou como os cossacos russos. Nego mandava uns saltos e às vezes quando mandavam um passinho atrás do outro parecia que os pés não tocavam o chão (“parece que os moleques tavam flutuando”, disse meu pai quando viu a matéria sobre a Batalha no Fantástico). O bacana é que tinha gente de todas as idades, desde moleque novo até rapaz com 20 e poucos anos.

Não ficamos até o final porque uns congelados que havia comprado estavam descongelando. Mesmo assim, saimos com a sensação que valeu a pena o pouco que vimo. E segue abaixo alguns vídeos que fiz (um deles já tá com quase mil visitas!):

* mais fotos da fotógrafa Daniela Dacorso aqui;

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