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Futebol de verdade

Ugo Giorgetti é de longe o melhor cronista esportivo em atividade. O texto de ontem publicado no Estadão é um chute na cara desse povo que acha que futebol é entretenimento, marketing e todas essas baboseiras que a imprensa esportiva reproduz sem o mínimo de discussão crítica. Vamos ao texto:

Ecos do passado

A antiga Boca do Lixo, em São Paulo, geograficamente ficava entre a rua dos Andradas e avenida São João, limitada dos dois lados pelas avenidas Duque de Caxias e Ipiranga. Claro que esses limites são aproximados. Nessa região se abrigavam os marginais da época: rufiões, traficantes, exploradores de várias modalidades de jogos de azar, vigaristas, malandros e vagabundos de todas as espécies.

Numa cidade repleta de times de várzea a Boca também tinha um time de futebol, naturalmente composto pelos elementos que a frequentavam. Jogava num campo nos fundos da Barra Funda, perto de onde hoje está a Marginal. Apesar das extensas folhas corridas, ou talvez por causa delas, o time da Boca fazia questão de não criar confusões. Vinha só pra jogar bola.

Perseguição. Além disso o time era muito bom. O único problema é que frequentemente, às vésperas de algum jogo, se via desfalcado de um ou vários jogadores recolhidos ao cárcere do 3.º Distrito Policial, situado na época na Alameda Glete. Policiais insensíveis muitas vezes não concordavam em fazer prisões só depois dos jogos.

Houve uma partida, porém, em que o time da Boca teve que enfrentar tamanhos obstáculos, que desafiaram seu bom comportamento habitual. O episódio me foi contado pelo lendário Quinzinho, na época chamado de Rei da Boca, ele mesmo jogador do time.

O time da Boca, depois de desafiado várias vezes, teve de aceitar enfrentar o Sereno, a mais temível equipe do centro da cidade. Esse time tinha por característica utilizar-se de jogadores profissionais, que por alguma razão não estavam jogando. Ou estavam em fim de carreira ou negociando contratos, enfim, nos intervalos jogavam pelo Sereno.

No dia do jogo, quando o time da Boca já estava no vestiário, recebeu um duplo golpe. Primeiro um de seus melhores jogadores tinha sido subitamente convidado a comparecer à Alameda Glete, segundo, o grande Jair Rosa Pinto, astro do Palmeiras e da seleção brasileira, ia entrar em campo pelo Sereno, junto com outros craques habituais.

Jair estava negociando sua transferência do Palmeiras para o Santos e, para variar, tinha sido convidado pelo Sereno. Jair Rosa Pinto era demais para o espírito esportivo do pessoal da Boca. Decidiram tomar medidas, antevendo derrota histórica. Como entre os objetos pessoais dos atletas havia vários revólveres, um deles foi descarregado contra uma parede do vestiário. Quinzinho, depois dos disparos, saiu calmamente á porta e, diante dos apavorados jogadores do Sereno que tinham ouvido tudo, tranquilizou: “Não é nada não. Eles estão atirando entre eles. Não é nada com vocês”". Resultado do jogo: time da Boca 1, Sereno 0.

Origens. Não sei por que essa história me voltou à lembrança depois da briga que vi do Fluminense, na Argentina. Às vezes o futebol ainda recua às suas origens e como que nos lembra de onde veio. O futebol cresceu na várzea, e desde o princípio incorporou em seus costumes malandragem e brigas. Hoje tenta-se a todo custo domá-lo e torná-lo socialmente aceitável e comportado.

Mas de vez em quando, mesmo em competições “sérias”", a várzea reaparece em todo seu esplendor. Fazia tempo que não via uma briga completar, à maneira varzeana, uma disputa com argentinos: ganhando na bola e enfrentando a briga. Nos últimos tempos tudo estava comportado demais entre nós e os argentinos. Ainda bem que o Fluminense deu um jeito nisso. Que bela briga!

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