“Assalto ao trem pagador: filme como veículo de denúncia social e identificação popular”
É sabido que grande parte do sucesso do filme “Assalto ao trem pagador” (1962, dir. Roberto Farias) se deu, em grande parte, a um acontecimento extraordinário de bastante visibilidade em todos os meios da imprensa, sobretudo a carioca. Some-se isso a um roteiro bem realizado, interpretações e encenações extremamente realistas (grande parte das cenas externas foram filmadas em Japeri e em favelas como a da Mangueira), e teremos um sucesso de bilheteria (400.000 espectadores em 3 semanas de exibição, apenas no Rio de Janeiro, e com apenas 18 cópias), sendo rivalizado (no contexto de “acontecimento cinematográfico”, deve-se ressaltar) apenas pelo outro grande filme de 1962, “O pagador de promessas” (dir. Anselmo Duarte).
Porém, o grande êxito de “Assalto” também se escuda na estruturação, paralela à trama policial, de dramas sociais (desigualdade morro X asfalto, racismo) juntamente com uma forte participação afetiva, levando o espectador a se identificar com muitos de seus personagens. E são exatemente esses fatores identificatórios sobre três dos mais carismáticos personagens, a saber: Tião Medonho (Eliezer Gomes, em seu primeiro papel de interpretação como ator), Cachaça (Grande Otelo) e Grilo Peru (Reginaldo Faria), que serão expostos nos parágrafos seguintes.
Tomemos primeiro Tião Medonho, que nos é apresentado no início da trama como um bandido implacável, violento e que não hesitaria um instante em eliminar quem não cumprisse o combinado no seu pacto de “não estourar dinheiro por aí”. A princípio enxergamos Tião como um verdadeiro vilão dos filmes hollywoodianos, mas ao primeiro momento de sua chegada à favela, o vemos fazer o sinal da cruz, demonstrando algum respeito e devoção religiosa. Mais adiante, em sua casa, Tião trata sua família com carinho, da mesma forma que todo marido dedicado e trabalhador; e ainda nos revela que aquele dinheiro roubado faz parte da garantia do futuro de seus filhos, para que eles não precisem passar por tudo que ele passou (é interessante notar também, no meio do filme, ele recriminando seu filho mais velho, que curioso, demonstra desejo para beber a cerveja do pai). No decorrer do filme, vemos a ascendência de Tião sobre os comparsas (primeiro no episódio da discórdia da partilha com Tonho-Átila Iório; na surra que dá em Edgar-Miguel Rosenberg, por culpa de sua dominadora mulher, a ótima Dirce Migliaccio; na lição que dá no malandro-capitalista-alcagüete Miguel-Miguel Ângelo, dentre vários exemplos).
Percebemos então que Tião Medonho está muito mais para o benfeitor daquela comunidade (a cena dele distribuindo água representa bem essa característica) tão desassistida, que só percebe a presença do Estado, na aparição repressiva dos policiais. Benfeitor e preocupado com a família, não só a oficial, mas com a não-oficial, um fator que o aproxima ainda mais do imaginário machista provedor do espectador (é sintomático a discussão das duas mulheres, no leito de morte de Tião, no que são jocosamente repreendidas por ele – “Vocês agora vão ter que se entender”).
O fator sincrético religioso do brasileiro também está presente, na cena que Tião, prestes a morrer, clama por um padre e também por um pai-de-santo. Curiosamente, o ator Eliezer Gomes, no ano de então, era evengélico, o que rendeu alguns problemas por parte do pastor de sua Igreja, por ocasião das filmagens de “Assalto”.
Já com Grilo (Reginaldo Faria), a identificação se dá num sentido inverso. A princípio o vemos como um galã (e ele realmente se comporta como tal, na surreal trama paralela chanchadesca encenada junto com a atriz Helena Ignez) e representando o mentor intelectual, o suposto “Engenheiro”. Entretanto, logo adiante, toda mesquinharia e egoísmo vai aflorando, seja para comprar o sapato mais caro, seja para ostentar a dondoca (a citada Helena Ignez), o carro de playboy, seja para humilhar de forma racista Tião e os companheiros do bando. Enquanto Tião e seus companheiros , prosseguem na rotina sofrida de favelados, e ajudando seus parentes e amigos (registra-se a iniciativa louvável de Edgar ao comprar carteiras escolares para meninos da favela), Grilo se preocupa com a aparência e em desfilar com seu conversível acompanhado da fútil dondoca, pela orla da Zona Sul, descumprindo ele mesmo o pacto firmado de não exceder em um ano os 10% da parte do roubo.
O racismo de Grilo se mostra de forma velada num diálogo travado com Tião (“você sabe melhor que eu, porque eu posso usar o dinheiro”), e é extravasado no seu último e desesperado momento, ao saber da morte certa, numa das cenas mais fortes do filme (juntamente com a da morte da criança na favela), onde mesmo prestes a morrer, ainda continua a humilhar Tião, chamando atenção para os olhos azuis e para a cor de sua pele; imediatamente Tião reage, matando-o, e ironicamente ordena para que o corpo de Grilo seja jogado ao mar, para que seus olhos azuis alimentem os peixes.
E por fim, Grande Otelo. Tido por muitos críticos da época como um talento desperdiçado, por participar de chanchadas (aliás, o desprezo com que alguns críticos dedicavam à chanchada mereceria um estudo à parte), chanchadas essas também estreladas por Jorge Dória e por Wilson Grey, atores de “Assalto” e produzidas por Herber Richers, produtor de “Assalto”. Otelo se “redime” e faz uma interpretação antológica de Cachaça, personagem que no assalto real era secundário e apagado. Porém ele imprimiu uma característica “bagunçada-embriagada” e alheia, mas com vários lampejos de lucidez, ironia e sarcasmo (é muito interessante notar a “inversão” que acontece logo no início do filme, onde Otelo, mocinho nas chanchadas e bandido agora, ridiculariza, Wilson Grey, bandido nas chanchadas, mocinho agora). Foi noticiado na época, que para imprimir mais realismo e verossimilhança, Otelo chegou a se mudar para a Mangueira, para conviver mais diretamente com a comunidade e assim alimentar sua inspiração.
No início ele surge como uma figura assustada e ingênua (“e quanto é meus 10% ?”), demonstrando não afeição a cálculos mas sim às coisas boas da vida, como a cachaça e o samba, representados quase de forma mântrica pelos versos do samba de Monsueto Menezes “Eu quero essa mulher assim mesmo” (regravada posteriormente por Caetano Veloso, em “Araçá Azul”, de 1973). Ele presencia a tragédia não consumada do início do filme, entre Tião e Tonho, e apenas com olhares e gestos, confere grande dramaticidade e realismo na apreensão e no alívio, ao saber que tudo terminara bem.
Em outro dado momento, se mistura à ingenuidade e à alegria das crianças do morro para cantar e brincar de polícia e ladrão, no que é prontamente admoestado pelo sempre atento Tião. Otelo representava bem grande parcela da população carente, que por muitas vezes optava por se manter alheia (e muitas vezes embriagada) aos problemas, de forma a conseguir forças para seguir em frente, mas que em algumas vezes é forçada pela dureza da realidade a refletir, muitas vezes de forma amarga. Tal fato acontece de forma intensa na forte cena do simples funeral de uma criança, embalada em trilha por um surdo de escola de samba em ritmo fúnebre. Nessa cena, Edgar alerta o cantarolante Cachaça (“eu quero essa mulheeeeeeeeeer…”) sobre o enterro. Após um rápido silêncio, Cachaça dispara: “Quando morre uma criança na favela, todo mundo devia de cantar, é menos um pra se criar nessa miséria”.
Independente do ato criminoso cometido pelos três personagens acima, suas outras características, como zelar pela família, ajudar os outros, no caso de Tião, se preocupar com status e aparência individual, no caso de Grilo, e se entorpecer (de cachaça ou de música) pra suportar as agruras do cotidiano, estão presentes (e de naturalmente convivendo de maneira conflituante) no imaginário brasileiro, e de certa forma contribuem para estabelecer uma identificação com o espectador e para explicar uma parcela do enorme sucesso dessa grande obra de Roberto Farias, que inclusive estará sendo exibida dia 21/07/2007 na Cinemateca do MAM.