Sunset Boulevard
June 29th, 2008
Memórias Póstumas (e sórdidas) de Joe Gillis, poderia ser muito bem o “resumo de uma linha só”, desse filme de Wilder, se levarmos em conta que ele já começa no desfecho da narrativa, ou seja, com seu corpo sem vida estendido na piscina. Para completar, um toque de ironia de Wilder ao fazer do morto o próprio narrador de sua aventura oportunista pelo mundo cruel de Hollywood.
Joe Gillis (William Holden) vive um roteirista de filmes de segunda categoria, às voltas com aluguéis e prestações de carro atrasados, e sem nenhum trabalho. Ao sair de sua visita desesperada aos estúdios da Paramount _onde conhece Betty Schaefer (Nancy Olson) pela primeira vez, de uma maneira desagradável_, se depara com os cobradores do seu carro, desencadeando uma perseguição pelas ruas de Beverly Hills e logo após, um pneu furado, obrigando-o a estacionar numa garagem vazia de uma mansão pretensamente abandonada. Esse é um começo de uma teia de eventos que irá culminar com seu final trágico.
A única pessoa disposta a emprestar dinheiro para Joe é justamente aquele que dispõe de menos posses para salvá-lo, Artie Green (Jack Webb). Em função desse desespero e de seu cárater duvidoso, Gillis se aproveita do mal-entendido ocorrido na mansão que julgava abandonada, para jogar seu anzol e fisgar a atriz de filmes mudos Norma Desmond (Gloria Swanson, ela própria uma atriz das décadas de 20 e 30, esquecida até então). Ele se oferece de forma engenhosa para ajudá-la a reescrever o roteiro de seu épico “Salomé”, e aceita fazê-lo no quarto acima da garagem, enquanto seu carro não fica pronto. Ao perguntar pra Gillis, se este era solteiro, ouvimos uma música romântica em fade-in, explicitando o interesse de Norma sobre ele. A teia de Norma é jogada em Joe. Max (o cineasta Erich Von Stroheim), o sorumbático mordomo, ciente das artimanhas da patroa, já prepara de antemão o quarto que seria o escritório de Joe nos próximos dias. Max se revela, como todo mordomo, extremamente fiel e atencioso à sua patroa, mas seu jeito de falar e de agir transparece algum mistério.
Agora vemos, com o olhar de Joe, uma piscina vazia, abandonada e cheia de ratos. Ela acaba funcionando como um termômetro da relação entre ele e Norma, pois posteriormente esse cenário sofrerá uma transformação. Transformação essa que começa a ter início quando ele é acordado sob um som de órgão e se depara com todos os seus pertences no quarto da garagem, o que o deixa assustado e de certa forma furioso, pois o fiapo da teia que começara a envolvê-lo, é por ele percebido.
Norma Desmond parece congelada no tempo: o seu próprio jeito de falar, andar e se expressar parece extraído dos filmes mudos em que atuava. Sempre com gestuais e olhares marcantes, dramáticos, uma voz de sotaque carregado e afetado: “passar despercebida” não constava de seu vocabulário. Norma Desmond chamava a atenção, mesmo que fosse para uma platéia reduzida, incluindo alguns amigos, cinicamente chamados por Gillis de bonecos de cera. Wilder chegou ao requinte de usar atores que também fizeram sucesso nas priscas eras do Cinema, como Buster Keaton, Anna Q. Nilsson, H.B. Warner, compondo o cenário perfeito da decadência daqueles que não tiveram vez no cinema sonoro.
A perda do seu carro para os cobradores sinaliza que as chances de Joe Gillis de fugir da mansão de Sunset Boulevard se mostram mínimas, e isso se evidencia no momento em que as chuvas daquele Dezembro se encarregam de transferir o nosso ghost writer de madames do quarto da garagem para o quarto que era destinado aos ex-maridos. Dali para a cartada final de Norma Desmond é questão de dias e de um Reveillon. Decidida a conquistar Joe de vez, ela prepara uma festa particular, e no melhor estilo gestual-dramático, conduz um tango naquele piso que já testemunhara os pés de Valentino. Joe, querendo fugir do destino (curiosamente e ironicamente, a corrente do seu smoking fica presa na maçaneta do portão, como se a mansão expressasse o desejo de sua dona de que ele não saísse dali), que a essa altura parecia imponderável, ruma para uma festa (cuja letra de música citava algo como “Hollywood não nos deu uma piscina) na casa do seu amigo de plantão, Artie Green, onde descobrimos que Betty Schaefer, sua crítica feroz, é namorada do assistente de direção. Uma pequena fagulha inocente é solta entre os olhares de Betty e Joe, só interrompida pela liberação do telefone da pista. Através dele, Joe descobre que Norma, numa crise histérica após ter sido abandonada por ele, tenta se matar. Corroído de remorso, com alguns escrúpulos a menos e com a “Valsa de Despedida” ao fundo, Joe Gillis aceita a farsa do romance com Norma Desmond.
E aí, tudo se transforma. Max larga os sombrios uniformes pretos, para ostentar uma casaca branca, e principalmente, a piscina está limpa e cheia para deleite de Joe. Tudo parece bem, até nosso anti-herói reencontrar com Artie (preocupado com o sumiço dele na festa de Ano Novo) e Betty no ponto de encontro deles, a drogaria Schwab. A partir dali a visão começa a se tornar mais constante.
Um outro fato ocorre, gerando agora não uma falsa expectativa amorosa, mas sim uma expectativa profissional. Uma ligação da Paramount para a mansão de Sunset Boulevard gera mais um mal-entendido, levando Max (sempre atencioso e atento à maquiagem da diva), Joe (que reencontra-se com Betty, marcando encontros noturnos para a feitura de um antigo roteiro seu) e Norma ao encontro de Cecil B. de Mille (ele mesmo), que não tinha sucumbido ao cinema sonoro, tornando-se ainda mais famoso e poderoso. É dele uma das frase mais pungentes do filme (“Trinta milhões de fãs já se livraram dela, não é o bastante?”), revelando todo sua reverência e respeito pela estrela do cinema mudo. Nessa seqüência, um acontecimento acaba se tornando emblemático do que foi a carreira de Norma: um microfone passeia pela sua cabeça até esbarrar no chapéu, provocando uma reação de incômodo diante de tal acontecimento, como se o microfone, o agente captador do cinema sonoro estivesse no caminho atravancando a carreira de Norma.
Diante de um Cecil impotente em revelar a verdade, Norma entra num processo obsessivo de preparação para o grande papel da sua vida, o da princesa Salomé. Paralelo a isso, Joe e Betty se encontram regularmente nas madrugadas da Paramount, suscitando uma paixão que já estava incubada. Num desses encontros furtivos, Max aguarda Gillis na garagem e se revela mais que um protetor; ele próprio é um admirador de Norma, e no passado tinha sido seu descobridor e primeiro marido, que incapaz de conviver com sua ausência, aceitou a humilhação de trabalhar para ela como seu mordomo. Percebemos então que a teia de Norma é poderosa. Insegura e carente, Norma Desmond recebe o golpe fatal, desencadeando incontrolável ciúme: a descoberta do roteiro escrito em dupla, de uma “História de Amor sem título”). Nesse momento, apaixonado por Betty, o próprio narrador se vê desesperado para se livrar de Norma, pois percebe o mal que está causando a si e a todos em sua volta. E seu desejo é catalisado ao presenciar nossa atriz ligando para Betty tentando alertá-la para o perigo de se envolver com Joe.
A partir daí temos um clímax final se construindo, com Betty rumando para a mansão de Sunset Boulevard, onde numa tentativa desesperada de afastá-la dele, Joe a humilha (além de humilhar a própria Norma), para logo após tentar desmascarar (atitude que não foi acompanhada nem aprovada por Max) toda a farsa para Norma, que desesperada (“Ninguém abandona uma estrela”) alveja Gillis com três tiros.
Corta para a seqüência inicial, onde os carros da televisão chegam prontos e ávidos para filmar o escândalo, e vemos uma Norma Desmond delirante descer as escadas, e dirigida por Max (aquele que sempre esteve do seu lado, e realmente se preocupava com ela), realizar o último close de “Salomé”. Diferente do seu roteiro original, Salomé não recebeu a cabeça do sacerdote numa bandeja, e sim seu corpo todo, e dessa vez boiando numa piscina do Palácio de Sunset Boulevard.