Entrevista: Supercordas

Algumas semanas atrás, logo antes do show de lançamento de ‘A Mágica Deriva dos Elefantes’, entrevistei o Bonifrate para uma matéria com o Supercordas no Divirta-se. Como o espaço lá é pequeno, estou colocando ela na íntegra aqui, aproveitando que eles tocam hoje no Studio SP Vila Madalena junto com os queridos Dead Lover’s Twisted Heart.

Relendo a entrevista achei ela meio utilitária – talvez porque precisava esclarecer questões “menores” para a matéria no Estadão – e faltou ousadia. Após essa auto-crítica inútil, cá estão as perguntas e respostas, com a devida edição para evitar constrangimentos.

Quando exatamente vocês começaram a fazer esse disco?

Acho que quando o ‘Seres Verdes’ foi lançado, talvez até um pouco antes, eu já tinha algumas canções compostas. Mas os primeiros trabalhos de gravação, ou pré-produção, começaram no final de 2007.

‘A mágica deriva dos elefantes’ é o que vocês imaginavam na época ou o que queriam agora?

As duas coisas misturadas, mas da nossa parte existe um sentimento de “defasagem”, pelo fato de serem canções de 4 a 6 anos de idade, e de o processo ter durado tanto tempo. O que salva isso e dá frescor ao disco é a recepção que ele vem tendo nesses primeiros dias. Parece que ele não soa como algo que foi composto há anos atrás, afinal. Ainda parece soar contemporâneo.

Mesmo para vocês, que já tocavam algumas músicas nos shows?

Pra nós é claro que é diferente, como sempre é. Quando você se debruça sobre o feitio das canções, é natural que role uma estafa.

Você acha que o disco conseguiu ter uma unidade?

Sempre achei que a unidade que esse disco deveria ter era justamente a falta de unidade.

Por que? Eu acho ele bem uno, bem “álbum” mesmo. E fico pensando se algumas coisas foram de propósito, como vocês falarem de deriva e aí ficarem falando de lugares, Mumbai, Belo Horizonte…

Deve ser por aí. Digo que o mote era a falta de unidade porque sempre foi nossa intenção ter faixas bastante distintas. O ‘Seres Verdes’ tinha uma certa repetitividade nas levadas que queríamos evitar. Mas num sentido mais “conceitual” deve ser bastante uno mesmo.

Por que Mumbai e Belo Horizonte?

Não sei se há um porquê. O disco tem esse aspecto geográfico, essas cidades, essa Índia inventada. A ideia de Mumbai, a diversidade que imaginamos nessa cidade, talvez tenha algo de síntese da globalização da nossa sociedade. Talvez eu só tenha lido a palavra atrás de um pacote de incensos.

Acho essa pergunta meio idiota, mas me ocorreu agora. Nesse tempo todo vocês devem ter ouvido outras coisas, não? A vida aconteceu, mas como vocês mudaram musicalmente?

Bom, sempre estamos atentos pra coisas novas, mas talvez mais atentos ainda pra exploração das coisas antigas. Da minha parte, eu acho que teve uma grande onda de psicodelia nordestina dos anos 70 em que eu mergulhei por um tempo. Não sei o quanto esse ou outros mergulhos aparecem na sonoridade desse disco. Porque, no fim, sempre me dá a impressão de que tem mais a ver com o que nós sempre ouvimos e o que nos une enquanto um grupo (indie rock e psicodelia dos anos 90) do que com qualquer outra coisa. Chega, já ia começar a divergir. rsrs

Pode divergir!

Como na época do Seres Verdes. Muito se falou em como aquilo evocava Sá, Rodrix e Guarabyra, quando na verdade estava muito mais pra Gorky’s Zygotic Mynci. Claro que a gente curte Clube da Esquina e Tropicália, mas eu acho que a brasilidade está mais na literatura mesmo.

O que você acha das coisas que falam de vocês? Quando citam Pink Floyd e Flaming Lips, ou as coisas antigas sempre falando de rock rural?

O lance do rock rural eu sempre achei meio utilitário. Nunca tinha ouvido um disco do Sá, Rodrix e Guarabyra quando escrevi as canções do ‘Seres Verdes’. Depois fui ouvir e até gostei. Falar em Pink Floyd ou Flaming Lips é sempre uma boa onda. Talvez o Pink Floyd seja uma das únicas grandes bandas dos anos 60 que todos nós 5 amamos, junto com Beach Boys e Velvet Underground (o Filipe não gosta de Beatles. rsrs) Na real, aquela resenha do Miojo Indie era tudo o que eu queria ouvir sobre esse disco [rs]. Fiquei muito feliz com ela.

No textinho que fica no site você fala que seria natural que esse disco fosse quase oposto ao ‘Seres Verdes’. Você enxerga ele assim?

Talvez “oposto” seja um pouco forte, mas acho natural querer fugir daquilo, principalmente tendo sido um disco tão explicitamente fechado em um tema. Eu enxergo um disco bem diferente sim, e nesse sentido fiquei bem satisfeito.

Como você vê o Supercordas agora?

Ó deus. Calma. Essa vai demorar.

Claro.

Pensemos numa metáfora geométrica. Fora as coisas anteriores que eram mais como trabalhos solo meus com uma força do Valentino, antes tínhamos um ponto solto no espaço (o Seres Verdes). Agora com a Mágica Deriva já temos outro ponto, então isso já indica um vetor, uma direção. Sinto como se, apesar do tempo todo de estrada, nós estivéssemos apenas começando, e como se o melhor da nossa música ainda estivesse por vir.

Você acha que vocês estão entrando no grupinho da ~nova mpb~? Não em sonoridade, mas em “cena”.

Acho que, como a gente mora em cidades diferentes, isso fica um pouco confuso, porque não temos uma unidade de sociabilidade nem dentro do próprio grupo. O Valentino e o Giraknob estão em Sampa agora, e têm tido muito contato com a galera do rolê daí. Nós no Rio estivemos tocando uns com os outros nos últimos anos, com a galera da extinta banda Filme, que deu em Acessórios Essenciais (que anda parado por uns tempos), com a nova formação do Digital Ameríndio, com umas produções do Simplício Neto, que é um dos meus compositores favoritos de hoje em dia. No fim das contas, acho que só rola uma união em volta da “cena” se rolar uma união efetivamente musical. (ah, e tem o Sandro, que é um indivíduo tão único que toca batera nos Supercordas e no Zumbi do Mato – acho que não existem duas bandas mais diferentes entre si no planeta).

Vocês estão gravando outro disco? 

Não, ainda não começamos a pensar nisso.

O seu trabalho solo para o Supercordas é tipo Pavement e Stephen Malkmus, as coisas são parecidas mas é obviamente diferente, a divisão é bem clara. De qualquer maneira, eu fico curiosa para saber como essa divisão se dá na sua cabeça, compondo e tal. 

Olha, antes existia uma lógica musical nessa divisão. Eu costumava tocar com Supercordas o que era mais épico e o que devesse soar mais como banda. Mas com a demora toda pra terminar a ‘Mágica Deriva’, isso mudou. ‘Um Futuro Inteiro‘ era o disco que eu tinha na cabeça, e precisava botar pra fora de qualquer jeito e o mais rápido possível. Acho que agora é uma questão de conjuntura. Se os Supercordas forem fazer um disco, o que eu escrever vai estar virado pra isso, mas senão, vou gravar o que está na minha cabeça sozinho. Ter canções presas na minha cabeça por 6 anos é algo que não quero que aconteça nunca mais.

E o seu disco novo, sai quando mesmo?

Olha, eu pretendia lançar no fim de 2012, mas com os trampos cordianos, é provável que eu atrase pro primeiro semestre de 2013. Mas não tarda mais do que isso. Metade do disco já está gravada, por aí.

Você tá gravando uma por uma mesmo, no ritmo do Minimecenas?

Por aí, mas tem algumas que estão “quase prontas” já há alguns meses e eu fico mexendo e remexendo.

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