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Posted by failman at 18 March 2009

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Treinadores e selecionadores
por Tatu de Almeida Torres

A definição da palavra seleção no dicionário é: “ato ou efeito de escolher; escolha fundamentada”. No futebol, entende-se seleção como sendo a reunião do que de melhor pode haver à disposição no país ao qual aquela seleção pertence, seja em relação a jogadores, seja em relação a treinadores, comissão técnica, etc. Na semana passada, porém, a FIFA divulgou o ranking de fevereiro das seleções. E me chamou muito a atenção nas dez primeiras colocadas (Espanha, Alemanha, Holanda, Itália, Brasil, Argentina, Croácia, Rússia, Inglaterra e Portugal) o fato de 50% delas (Brasil, Argentina, Holanda, Alemanha e Portugal) terem em seu comando “treinadores” de pouca ou nenhuma rodagem. Parece uma conclusão besta, mas ela indica uma tendência a qual não tem sido dada a real importância.

Até o fim dos anos 90, o cargo de treinador de uma seleção costumava ser cobiçado e exercido pelos maiores treinadores de cada país. Aqui no Brasil, por exemplo, nos acostumamos a ver à beira dos gramados gente como Telê, Parreira, Zagallo, Feola, Aymoré Moreira e, mais recentemente, Luxemburgo e Felipão. Mais ou menos apreciados por torcedores e imprensa, a verdade é que todos esses tinham a seu favor currículo e retrospectos em seus clubes que os credenciavam plenamente ao cargo. Hoje, no Brasil, temos o Dunga, que provavelmente nunca foi sequer o treinador do time de futebol de salão da escola dos filhos. E o mesmo “fenômeno” se vê em Portugal, que tem no seu comando um cara – Carlos Queiroz – que passou a imensa maior parte de sua vida no esporte sendo auxiliar de sir Alex Fergusson no Manchester United. Como treinador principal, teve seu grande momento à frente do Real Madrid dos Galáticos, onde sucumbiu diante dos medalhões e das panelinhas formadas por eles, mostrando toda a sua falta de habilidade pra ser mais do que só um aprendiz de feiticeiro, como bem compara meu pai. É tido por muitos na Espanha como o pior treinador a já ter passado pelo glorioso e cobiçadíssimo banco de reservas do Santiago Bernabéu. A Argentina com Maradona, a Holanda com Bert van Marwijk e a Alemanha com Joachim Löw seguem por um caminho bastante parecido.

Qual seria, então, a razão que faz com que o cargo de técnico de uma seleção esteja assim tão em baixa? A resposta é simples: não há mais nenhum glamour em assumi-lo. E por quê? Ora, que treinador em busca de afirmação, com espírito competidor e ambição se satisfaz com uma grande oportunidade de participar de um campeonato de fato importante a cada quatro anos, como é com a Copa do Mundo? Mesmo os europeus, que ainda têm a Eurocopa e as eliminatórias regionais, muito mais disputadas e competitivas que as da América do Sul, por exemplo, preferem o dia a dia dos clubes, esses sim em constante competição. É muito mais gostoso, desafiador e até rentável. Quem consegue enxergar o já aqui citado Alex Fergusson, eterno no cargo de técnico do Manchester United, dirigindo a Inglaterra ou mesmo a sua Escócia natal? Ou José Mourinho abandonando o Calcio italiano e a Champions League para conduzir a mediana equipe portuguesa a mais um quarto ou quinto lugar numa Copa do Mundo? Eu não consigo.

Visto isso, fica aqui a pergunta: os homens que hoje dirigem algumas das maiores seleções de futebol do mundo são mesmo treinadores ou meros selecionadores, caras que se limitam a convocar jogadores, distribuir camisas e pô-los em campo a jogar? A resposta a essa pergunta também é das mais fáceis pra mim, uma vez que no ritmo atual do futebol os atletas, apesar de atuarem pelos seus países cerca de uma vez por mês, o fazem de maneira bem diferente daquela de anos atrás. Hoje em dia, os caras se reúnem normalmente aos domingos, ao final das rodadas dos campeonatos que disputam, fazem um treino levíssimo na segunda-feira, um coletivo na terça, jogam na quarta e já retornam correndo, ou melhor, voando pros seus clubes em jatos fretados na mesma quarta ou na quita. Salvo uma diferençazinha logística aqui e outra ali, é isso o que geralmente acontece. O resultado disso a gente vê nos inúmeros jogos amistosos realizados mundo afora nas tais datas FIFA, que muito mais se parecem com peladas bem organizadas e caras, já que entrosamento, estratégia e plano tático praticamente inexistem nessas partidas. Nem poderia ser diferente. E se inexistem, então não há mesmo grandes motivos pra que o sujeito plantado à beira do campo seja um gênio estrategista, mas somente um cara que sabe lidar bem com o grupo de jogadores e, vá lá, entenda alguma coisinha de bola.

Outro motivo que explica bem tal modismo é ainda mais absurdo. Treinadores de verdade, campeões em seus clubes, com história, currículo e competência comprovada, em geral não admitem ingerências no seu trabalho. Muito menos “sugestões” vindas de cima sobre quem convocar ou não. Eles dão trabalho, têm a cabeça dura e o péssimo hábito de bater de frente com seus superiores quando percebem que esses estão a fim de se meter naquilo que não lhes compete. E isso não é bom para muita gente. Especialmente presidentes e dirigentes de federações e confederações e seus inúmeros amigos empresários e representantes de atletas. Ou será que alguém consegue conceber o Muricy chamando o Doni para ocupar uma das vagas de goleiro da seleção brasileira? Difícil, não acham?

O reflexo desse pouco caso em relação aos esquadrões nacionais pode muito bem ser observado na principal – para maioria única – competição interseleções que há: a Copa do Mundo. De 90 para cá, o nível técnico tem caído vertiginosamente e a sucessão de jogos ruins beira o insuportável. E podem ter certeza de que ficará ainda pior, pois a cada ano o poder e a importância dos clubes crescem assustadoramente, relegando seleções e até a própria FIFA a um segundo plano. E é claro que isso não é nada bom, porque indica que cada vez mais o futebol obedece a questões mercadológicas e de interesses que pouco têm a ver com o esporte, em detrimento do romantisomo, do amor à camisa e da vontade de defender seu país e suas cores. É triste perceber o que vem sendo feito do esporte mais querido do mundo. É triste ver que outra vez mais os conceitos mudaram e que por isso somos obrigados a aturar coisas como Dunga e seus Afonsos e Jôs da vida. Que saudade dos tempos em que Seleção podia ser escrito assim, com S maiúsculo.