Estrela sobralense regrava disco clássico em show ao vivo acompanhado de segunda reunião do quarteto carioca

Compositor singular, como cantor divide fãs e detratores, indo de “Bob Dylan brasileiro” a “fanho do Ceará”. Sua obra tem boa parte da importância reconhecida “apenas” por ter feito sucesso na voz de Elis Regina: compôr na discografia da maior cantora brasileira de todos os tempos revela o mérito das qualidades artísticas de Belchior.
Seu segundo disco, “Alucinação”, lançado em 76, é peça fundamental da MPB, dosando rock, folk, psicodelia e cordel em 10 canções, todas hits. Desde então, vieram discos e mais discos em décadas de carreira, e o clássico setentista talvez não tenha tido o espaço merecido (além da importante e notável influência que exerceu a partir dali, obviamente).
Agora não só ganha a etiqueta “nível Elis” que sempre mereceu, como alcançou o status de mítico logo que os Los Hermanos toparam uma nova volta para gravar esse especial. Camelo e Amarante sempre assumiram a influência de Belchior, e nas turnês do “Bloco” e “Ventura” não era incomum ouvir “Como o diabo gosta” ou “A palo seco” nos shows. Desde que abriram para o Radiohead dois anos atrás, continuavam no modo “cada macaco no seu galho”.
Mais rouca, a famosa voz do cancioneiro nordestino renova “Apenas um rapaz latino americano” com um tom Levon Helm. Nem na metade da música você já tem certeza de estar ouvindo a nata da produção brasileira desta década que se inicia. “Velha roupa colorida” soa como que num show da época, mostrando o apuro dos fãs-músicos para se aproximar ao máximo dos timbres originais.
Como banda de apoio, os cariocas não poderiam ser melhores: é tão assustador a perfeição desse casamento, que até dá pra acreditar que a missão deles na Terra era tocar nesse momento, e tudo antes foi nada mais que estágios necessários para escalar até esse topo. Não que a missão esteja cumprida, mas era a peça que faltava no bojo para ganharem a cadeira de imortais da MPB (perto ali de Secos e Molhados e Paralamas). E esse DVD é a prova disso.

A banda, dedicada, naturalmente imprime suas características, respeitando o contexto da obra que estão apoiando. A psicodelia neo-sambística está toda ali, cosendo passado e presente, norte e sul, o regional com o urbano, a juventude com a maturidade. A sonoridade é ampla e distante de Trama, Seu Jorge, Marisa Monte e essa onda mais cabeça e menos coração (na qual até navegam alguns hermanos em estado solo). Juntos, cooptados por “Alucinación”, os Los Hermanos serão lembrados daqui pra frente pela lição mais palpável da reverência de um aluno dedicado ao sábio professor.
Algumas músicas foram levemente alteradas, porém essa desconstrução faz parte do trabalho de Belchior – que em seus primeiros discos regravou várias músicas, todas sempre diferentes da versão anterior. Aqui, “Fotografia 3×4″ renasce recortada por riffs tristes a la “Maggot Brain”. “Sujeito de sorte” se extende num soul-prog quebrado meio Beck, chegando a quase 9 minutos. A faixa que dá nome ao álbum original fica tão lisérgica que dá para imaginar o estrago que teria sido se os Mutantes tivessem gravado ela na época.
A cereja no bolo são os extras, com mais 4 sucessos nessa formação: “Mote e glosa”, “Divina comédia humana”, “Medo de avião” e “Comentário a respeito de John”.
Ao final da audição dessa rica experiência você fica grato pelo presente raro que a MPB ganhou aos 45 do segundo tempo.
Gracias, Belchior.
[montagem com BelCHIor ao estilo da classica do CHE]