Sonho

November 8th, 2010

Reencontrei uma ex em Buenos Aires. Recapitulei instantaneamente o sentimento que tive na sequência do pé na bunda, tomado uns sete anos antes. O cheiro dela preenchia novamente o universo. Num café ela rapidamente resumiu a situação: se formou psicóloga e foi morar na cidade a convite de um psiquiatra e professor universitário, fazer o mestrado; trinta anos de diferença entre os dois, ele casado, nesse processo se tornaram amantes. E aquela sensação ruim só aumentava, aumentava enquanto ouvia a história dela… Acabou me convidando para uma visita, jantar na casa dela, naquela mesma noite.

Após uma janta ótima, de muito vinho e risadas, até esqueci do passado (e alimentei aquela esperança de tudo se ajeitar, ao menos por uma noite). Fui conhecer o quintal da casa com ela. Nos fundos, próximo do muro, uma placa de vende-se. Me disse que o amante tinha comprado a casa pra ela morar, e nesse momento chega um carro na entrada. Ela corre pra abrir o portão. Era ele.

Sozinho, comecei uma risada contida, totalmente magoado, chutando com força o cascalho do chão do quintal. Extravasando a frustração, fui flagrado num salto desajeitado por um senhor baixinho de cabeleira lisa branca, mullets típicos argentinos, que chegou repentinamente pelas sombras, seguido de dois seguranças. Atrás dos três ouvi ela dizer “esse é meu ex namorado que te falei”. Esse senhor me cumprimentou com a cara fechada, falou algumas coisas que não entendi mas traduzi como “fique longe dela se quiser sair daqui vivo”.

Então acordei. Com a maior depressão do mundo. Aquela mesma que sete anos antes levei um bom tempo e dinheiro pra esquecer. Este texto é só uma tentativa de expurgar uma antiga sensação que voltou a me assombrar há dias.

DVD/CD “Alucinación – Ao Vivo”, BELCHIOR & LOS HERMANOS (2011)

June 20th, 2009

Estrela sobralense regrava disco clássico em show ao vivo acompanhado de segunda reunião do quarteto carioca

por tati fc

Compositor singular, como cantor divide fãs e detratores, indo de “Bob Dylan brasileiro” a “fanho do Ceará”. Sua obra tem boa parte da importância reconhecida “apenas” por ter feito sucesso na voz de Elis Regina: compôr na discografia da maior cantora brasileira de todos os tempos revela o mérito das qualidades artísticas de Belchior.

Seu segundo disco, “Alucinação”, lançado em 76, é peça fundamental da MPB, dosando rock, folk, psicodelia e cordel em 10 canções, todas hits. Desde então, vieram discos e mais discos em décadas de carreira, e o clássico setentista talvez não tenha tido o espaço merecido (além da importante e notável influência que exerceu a partir dali, obviamente).

Agora não só ganha a etiqueta “nível Elis” que sempre mereceu, como alcançou o status de mítico logo que os Los Hermanos toparam uma nova volta para gravar esse especial. Camelo e Amarante sempre assumiram a influência de Belchior, e nas turnês do “Bloco” e “Ventura” não era incomum ouvir “Como o diabo gosta” ou “A palo seco” nos shows. Desde que abriram para o Radiohead dois anos atrás, continuavam no modo “cada macaco no seu galho”.

Mais rouca, a famosa voz do cancioneiro nordestino renova “Apenas um rapaz latino americano” com um tom Levon Helm. Nem na metade da música você já tem certeza de estar ouvindo a nata da produção brasileira desta década que se inicia. “Velha roupa colorida” soa como que num show da época, mostrando o apuro dos fãs-músicos para se aproximar ao máximo dos timbres originais.

Como banda de apoio, os cariocas não poderiam ser melhores: é tão assustador a perfeição desse casamento, que até dá pra acreditar que a missão deles na Terra era tocar nesse momento, e tudo antes foi nada mais que estágios necessários para escalar até esse topo. Não que a missão esteja cumprida, mas era a peça que faltava no bojo para ganharem a cadeira de imortais da MPB (perto ali de Secos e Molhados e Paralamas). E esse DVD é a prova disso.

DVD/CD "Alucinación - Ao Vivo", BELCHIOR & LOS HERMANOS (2011)

A banda, dedicada, naturalmente imprime suas características, respeitando o contexto da obra que estão apoiando. A psicodelia neo-sambística está toda ali, cosendo passado e presente, norte e sul, o regional com o urbano, a juventude com a maturidade. A sonoridade é ampla e distante de Trama, Seu Jorge, Marisa Monte e essa onda mais cabeça e menos coração (na qual até navegam alguns hermanos em estado solo). Juntos, cooptados por “Alucinación”, os Los Hermanos serão lembrados daqui pra frente pela lição mais palpável da reverência de um aluno dedicado ao sábio professor.

Algumas músicas foram levemente alteradas, porém essa desconstrução faz parte do trabalho de Belchior – que em seus primeiros discos regravou várias músicas, todas sempre diferentes da versão anterior. Aqui, “Fotografia 3×4″ renasce recortada por riffs tristes a la “Maggot Brain”. “Sujeito de sorte” se extende num soul-prog quebrado meio Beck, chegando a quase 9 minutos. A faixa que dá nome ao álbum original fica tão lisérgica que dá para imaginar o estrago que teria sido se os Mutantes tivessem gravado ela na época.

A cereja no bolo são os extras, com mais 4 sucessos nessa formação: “Mote e glosa”, “Divina comédia humana”, “Medo de avião” e “Comentário a respeito de John”.

Ao final da audição dessa rica experiência você fica grato pelo presente raro que a MPB ganhou aos 45 do segundo tempo.

Gracias, Belchior.

[montagem com BelCHIor ao estilo da classica do CHE]

Krishna Carolina

March 22nd, 2008

Já foi uma dificuldade tremenda fazê-la decorar corretamente “Kind of Blue”, nunca quis, por isso, forçar a barra para que pagasse de sabichona entre outras putas, citando referências entre engravatados, para impressioná-los, mas só se ela gostasse mesmo, e o que ela mais gostava era Cazuza, principalmente no Barão. Só que ela me via toda hora ouvindo “essa música tão triste” e quis saber quem era e o que era: “Malis Deivis, Cáindi ófi Blú”.

As vezes eu chegava de noite todo chororô por uma dia ruim de trabalho, bem na hora que ela ou tava no banho ou se arrumando pra trabalhar, colocava uma trilha mais tristonha pra me lamentar mentalmente, e escolhi Nina Simone, uma coleta simples e baratinha, começava com “I put a spell on you”, cortante e alta.

Nem quinze segundo de música ela sai correndo pelada do chuveiro, chega na sala e começa a dançar sensual e lentamente, mas sem cara de riso, toda concentrada e dedicada ao movimento que fazia, eu já me enjuriei porque até da música triste que eu colocava pra acentuar minhas emocidões ela aproveitava de um jeito tão próprio que tomei por provocação.

“Como é que você consegue dançar essa música? Ela é muito triste!”

“Mas me emociona!”

E voltou batendo o pé pro banheiro, deixando tudo molhado no caminho.