Sonho

Reencontrei uma ex em Buenos Aires. Recapitulei instantaneamente o sentimento que tive na sequência do pé na bunda, tomado uns sete anos antes. O cheiro dela preenchia novamente o universo. Num café ela rapidamente resumiu a situação: se formou psicóloga e foi morar na cidade a convite de um psiquiatra e professor universitário, fazer o mestrado; trinta anos de diferença entre os dois, ele casado, nesse processo se tornaram amantes. E aquela sensação ruim só aumentava, aumentava enquanto ouvia a história dela… Acabou me convidando para uma visita, jantar na casa dela, naquela mesma noite.

Após uma janta ótima, de muito vinho e risadas, até esqueci do passado (e alimentei aquela esperança de tudo se ajeitar, ao menos por uma noite). Fui conhecer o quintal da casa com ela. Nos fundos, próximo do muro, uma placa de vende-se. Me disse que o amante tinha comprado a casa pra ela morar, e nesse momento chega um carro na entrada. Ela corre pra abrir o portão. Era ele.

Sozinho, comecei uma risada contida, totalmente magoado, chutando com força o cascalho do chão do quintal. Extravasando a frustração, fui flagrado num salto desajeitado por um senhor baixinho de cabeleira lisa branca, mullets típicos argentinos, que chegou repentinamente pelas sombras, seguido de dois seguranças. Atrás dos três ouvi ela dizer “esse é meu ex namorado que te falei”. Esse senhor me cumprimentou com a cara fechada, falou algumas coisas que não entendi mas traduzi como “fique longe dela se quiser sair daqui vivo”.

Então acordei. Com a maior depressão do mundo. Aquela mesma que sete anos antes levei um bom tempo e dinheiro pra esquecer. Este texto é só uma tentativa de expurgar uma antiga sensação que voltou a me assombrar há dias.

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