"They say we can love who we trust / But what is love without lust? / Two hearts with accurate devotions / but what are feelings without emotions?"

21st
JUL

Cat Power – São Paulo, 18/07/09

Por marciok em Música, Pessoal às 9:31 pm

Estávamos todos lá, sentados, esperando o timbre rouco da voz, a banda matadora, o momento de fechar os olhos ao ouvir “Lived In Bars”.

Tivemos isso. A voz rascante era aquela mesma, com aquele segundo timbre que só pode ser definido como “doce”. A banda, de uma capacidade humilhante, econômica e delicada quando deve, mas que explodia numa rajada de groove, acordes e órgão Hammond quando necessário. E as músicas desfilavam vestidas pela voz de Charlyn Marie Marshall; “The Dark End Of The Street”, “Sea of Love”, a já citada “Lived In Bars” flutuaram entre os sorrisos da platéia do Via Funchal. Mas não foi isso que me chamou atenção na chuvosa noite de sábado, na capital paulista.

Foi a agonia da menina sobre o palco.

Não chamo Cat Power de menina por ela ser alguns meses mais nova que eu. Chamo pois era a imagem que ela passava sobre o palco. O corpo era de uma mulher, e linda; a voz, mais ainda, leva fácil os pensamentos para terrenos impublicáveis. Mas na sua dança desajeitada, nos seus movimentos pouco calculados, na sua indecisão do que fazer na frente de todas aquelas pessoas, me lembrou uma menina, na timidez, e na aflição de não saber como expressar o que queria.

Ali estava uma pessoa visivelmente transtornada por não conseguir infiltrar em cada um da platéia o que ela sente ao cantar. Ela tenta com o que lhe é possível: uma voz sobrenatural, uma banda com soul na medula, mas não é o suficiente. E ela tenta dançar, e não consegue. Se abaixa para cantar olhando para alguém, para obter retorno, e logo levanta por não poder olhar nos olhos de todos. Seus movimentos desconexos mostram um sentimento acumulado que não sai somente pela garganta, e ela não consegue extravasar de nenhuma maneira.

E ficamos lá olhando aquela mulher de franja adolescente, encantadora. Vendo aquela angústia no palco, com uma vontade de somente dar um abraço e dizer: eu entendo. O show de Cat Power é isso: a luta de uma artista em transmitir tudo o que sente cantando, e nunca conseguindo.

Isso fica mais evidente ao final do show, onde ela distribui flores e setlists para a platéia, visivelmente emocionada. Conversa com várias pessoas, pega nas mãos delas, distribui autógrafos em discos, ouve atentamente os mais exaltados, e notadamente não quer sair do palco. Ela quer simplesmente saber se captamos. Se nós sentimos.

Fica tranquila, Chan. Seu show foi um pouco arrastado, durou um pouco demais, muita gente não entendeu que o palco para você é prazer e agonia ao mesmo tempo. Mas muitos, quase todos, sentiram. Missão cumprida.

Comentários:

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    [...] 22, 2009 Eu ia escrever sobre o show da Cat Power mas não sabia como… descobri que o Marcio K entendeu o show mais ou menos da mesma maneira e escreveu sobre ele melhor que eu. E foi isso, fiquei impressionada como ela é linda e com a voz foda mas o que mais impressionou foi [...]

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