"They say we can love who we trust / But what is love without lust? / Two hearts with accurate devotions / but what are feelings without emotions?"

9
jun09

Extremamente Alto, Incrivelmente Perto – Jonathan Safran Foer

Por marciok em Books, Pessoal às 11:09 pm

extremamente_alto“Oskar:

Não, você não me conhece. Não sou uma das pessoas à quem você já escreveu; também meu nome não vai estar nos cartões do Sr. Black, nada de mim até hoje foi tão falado para constar lá, ainda sou encoberto pela mundaneidade. Apenas acabei de ler a sua história, e da sua família. Bela história, Oskar.

Você me chamou pouca atenção no início. O mundo de uma criança de nove anos pra mim já é conhecido, mesmo que já um tanto distante; seu pai, já mais perto da minha idade, me interessou mais. E seus avós, ah seus avós – cada frase deles que meus olhos viam ficavam irremediavelmente gravada por minutos nas retinas. Várias, por bem mais tempo. Algumas, não sei por quanto mais, mas ainda estão lá. Talvez por consolo, ou esperança final, arrancamos algo de belo no sofrimento dos outros – talvez como um espelho invertido, jogando luz sobre sofrimento alheio somente para não vermos nosso próprio reflexo.

Mas logo fui tragado para seu mundo, Oskar. Pois na vida de qualquer um sempre achamos cacos nossos, espalhados displicentemente. A irresistível atração de julgar os outros , e a nós mesmos – mais fácil apontar o dedo para nossos erros quando são outros que os cometem, terceirizamos nossas culpas. Seu avô perdeu as palavras, ou simplesmente se deu conta da dor que elas podem trazer – e é mais fácil ver as palavras sangrarem somente pela tinta de uma caneta do que a sensação delas saírem rasgando as gengivas. Estender as mãos para dizer o Sim e o Não, nas mãos o peso fica melhor que nos ombros; onde o Sim e o Não, quando um deles pesa mais (e SEMPRE um deles pesa mais) faz você caminhar torto.

Seus avós em um erro fatal, repartindo o mundo deles Lugares Algo e Lugares Nada, mais dualidade, como o Sim e o Não, o velho erro que temos em pender a balança, e lá vem o peso nos torcendo as costas. Não se parte o mundo em Algos e Nadas, Oskar, nada é menos maniqueísta que sentimentos. Eles tanto procuraram seus lugares entre o Algo e o Nada, que esqueceram de olhar justamente a fronteira, onde ambos se tocam; é uma linha tênue, é difícil o olhar acertar o foco, e mais ainda conseguir ficar em cima dela. Sempre estamos mirando os opostos, quando procuramos o meio.

E acabamos nos dando conta que nos superestimamos, Oskar. Nos achamos especiais, contâineres de virtudes inexpugnadas, quando na verdade somos um aglomerado de defeitos unidos somente por ossos e músculos. E isso é o belo narrado na história da sua família – são defeitos empilhados em cima de defeitos, o que faz com que os brilhos tão particulares de cada um saltem aos olhos. E a BUSCA que todos nós temos, é somente por isso – pessoas com brilhos que combinem, e se encaixem, no meio desse algomerado de defeitos que arrastamos por aí.

É uma busca difícil, Oskar. Mas, no final, as pessoas da sua família acharam. Não no momento certo, não quando deveria ser, mas no final, todos ENTENDERAM.

Siga inventando coisas antes de dormir. Na sua idade, eu fazia isso também. Quando você ficar mais velho, você vai deixar de inventar coisas – uma das características da idade, ao progredir, é que as coisas materiais parecem sempre tangíveis, por mais que não sejam. Você vai passar a inventar situações, momentos, dias, pessoas. Coisas que independem de materiais e tempo, e sim de uma dose de vontade, e uma piscadela do destino. Muitas delas jamais deixarão de ser somente um plano. Algumas delas se tornarão realidade – e acredite, Oskar, você jamais as esquecerá.

Não há como o mundo voltar em fast-rewind como o seu desejo, e o sonho de sua avó, Oskar. Lágrimas não retornam para dentro dos olhos. O passado é passado, e já pagamos nosso preço por ele vivido. Nenhum envelope vazio será enchido, nenhuma página em branco preenchida, nossas torres que desmoronaram não mais serão erguidas. Olhamos para nós e vemos isso, defeitos unidos por músculos e ossos, nossa armadura de vivência. Mas há brechas nessa armadura, Oskar, há luz que escapa por ela.

E com ela que iluminamos o caminho à frente.

Um abraço, Oskar.

M.K.P.”

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“Extremamente Alto, Incrivelmente Perto”, de Jonathan Safran Foer, é um livro brilhante. Denso, até demais – o que vai me exigir uma segunda leitura, todas as características da Grande Literatura estão lá: construções exóticas de frases, idéias não-convencionais, roteiro extremamente elaborado, não é uma leitura fácil e fluida. Mas é notável como a intenção do texto é jogar sentimentos crus na sua cara em primeiro lugar – toda a estética literária, mesmo rebuscada, vêm em segundo plano, mesmo que facilmente notada. Um raro balanço: erudição e sentimento.

Se ainda não o leu, faça agora.

21
mai09

Safran Foer

Por marciok em Books às 10:04 pm

Com um atraso de anos, lendo o Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, em doses – um método que não gosto, mas é o que a falta de tempo me impõe.

Na metade, falo mais dele quando terminar. Até o momento, sentimentos meio ambíguos, ainda não consegui me conectar com o Oskar. Foer é inegavelmente bom com as palavras, mas a busca de sentenças não convencionais por vezes acaba escondendo frases soltas simplesmente geniais – se for uma tática para lhe obrigar a se concentrar na leitura, é uma boa idéia. Mas gosto de mais fluidez.

Em compensação, os capítulos escritos pelo avô de Oskar estão entre as páginas mais incríveis que já li. Há certos livros que vão passando, até chegar em um ponto, às vezes uma só frase, em que você vê que está diante de um grande livro. O primeiro capítulo do avô do Oskar foi esse momento.

“(…)Ela estava estendendo a mão que eu não sabia como segurar, por isso quebrei seus dedos com o meu silêncio, ela disse “Você não quer conversar comigo, né?” Tirei meu caderno de dentro da mochila e fui até a primeira folha em branco, a penúltima. “Eu não falo”, escrevi. “Desculpe”. Ela olhou para o papel e depois para mim, depois novamente para o papel, cobriu seus olhos com as mãos e chorou, lágrimas escorregaram entre seus dedos e se reuniram nas pequenas membranas que os uniam, ela chorou e chorou e chorou, não havia guardanapos à vista, portanto rasguei a página do caderno – “Eu não falo, desculpe” – e a usei para secar seu rosto, minha explicação e minha desculpa escorreram pelo seu rosto como rímel, ela pegou a caneta da minha mão e escreveu na página em branco seguinte do meu caderno, a página final:

 

 

 

 

Por favor, case comigo

 



Folheei de volta e apontei para “Ha ha ha!” Ela folheou adiante e apontou para “Por favor, case comigo”. Folheei de volta e apontei para “Desculpe, não tenho menos que isso”. Ela folheou adiante e apontou para “Por favor, case comigo”. Folheei de volta e apontei para “Não tenho certeza, mas é tarde”. Ela folheou adiante e apontou para “Por favor, case comigo”, e dessa vez pôs o dedo em cima de “Por favor”, como se quisesse segurar a página e encerrar a conversa, ou se como tentasse atravessar a palavra para chegar ao que realmente queria dizer. Pensei na vida, em minha vida, nos constrangimentos, nas pequenas coincidências, nas sombras de despertadores em mesinhas de cabeçeira. Pensei em minhas pequenas vitórias e tudo que vira destruído, eu havia nadado em casacos de pele na cama de meus pais enquanto eles recebiam visitas no andar de baixo, havia perdido a única pessoa com quem poderia ter passado a minha vida, havia deixado para trás três mil toneladas de mármore, podia ter libertado esculturas, poderia ter me libertado do meu próprio mármore. Tinha experimentado a alegria, mas não o suficiente, e existiria o suficiente? O fim do sofrimento não justifica o sofrimento, portanto o sofrimento não tem fim, que farrapo que eu sou, pensei, que idiota, que tolo e tacanho, que inútil, tão atormentado e patético, tão impotente. Nenhum dos meus bichos de estimação conhece seu nome, que tipo de pessoa eu sou? Levantei seu dedo como uma agulha de toca-discos e folheei de volta, uma página por vez:

 

 

Socorro.(…)”

10
abr09

América

Por marciok em Books às 3:52 pm

No meio da reorganização do Lonely Room Studios, para a mudança (postergada), encontrei o América, do Luís Fernando Veríssimo. Livro dele quase nunca lembrado, havia esquecido como era bom.

bigphoto_0É a cobertura dele sobre a copa de 1994, e tem uma organização interessante – são crônicas humorísticas e sérias, alternadas; as cômicas falando sobre a Seleção e os jogos daquela copa, e as mais sisudas falam da visão dele sobre esse país estranhíssimo que ele tinha recordações e novos fatos chegando todo dia. Contém alguns dos melhores textos dele, e algumas das melhores tiradas (como quando falando sobre o calor de San José, “há relatos de correspondentes dissolvendo-se ao sol e de explosão de fotógrafos”).

Fora a habitual característica marcante dele: o absoluto trato da língua portuguesa, o texto elaborado, com poucos clichês da escrita, mas ao mesmo tempo extremamente fluido e que passa sem nenhum entrave. Mestre.