"They say we can love who we trust / But what is love without lust? / Two hearts with accurate devotions / but what are feelings without emotions?"
3
out09
Somente no final
Por marciok em Pessoal, Places às 6:57 am
A conexão wi-fi do hostel aqui em Londres funciona, mas é um tanto lenta, e não pega sinal no quarto, somente no lobby. Juntando isso com a quantidade de fotos imensa que estamos tirando, e com o cansaço mortal no final de um dia caminhando sem parar, não tem sido possível atualizar aqui com o que tem acontecido na viagem.
E provavelmente essa situação não vai mudar nos próximos dias; então devo fazer os posts da viagem somente na volta, escrevendo com calma e cuidado. Algumas sensações e insights que têm acontecido aqui precisam ser descritas com propriedade.
Mas Londres é sensacional. Sem vontade nenhuma de voltar – boa parte por Londres, boa parte por lembrar do que me espera (ou não espera) na volta em Curitiba.
29
set09
Guarulhos
Por marciok em Pessoal, Places às 10:06 pm
Três semanas de trabalho sem o descanso semanal previsto em lei – mas remunerado, ao menos, em forma de extras – causaram um efeito colateral chato: não só a ficha não caiu como ainda nem está no compartimento. Acho que só em Heathrow.
Primeira vez voando de Azul até SP, boa experiência. O EMB 190 da Embraer é bacana demais, o interior claro é mais simpático que os exemplares estrangeiros, bancos de couro, silêncio. Mas pode ser somente ufanismo brazuca, visto que minha mochila não entrou entre os bancos, coisa que até nos currais voadores da Gol é possível. Lanche simples mas farto, dois pacotes bem fornidos de biscoitos. E o serviço de bordo diferente de todos, sem os famigerados carrinhos (já levei uma trombada de um destes no cotovelo, e não recomendo) – um dos comissários passa anotando os pedidos e depois os traz em bandejas. Não sei se eficiente, mas definitivamente curioso.
Guarulhos é mais um monumentum brasilis; parece que a principal herança do Niemeyer (e que provavelmente não era a intenção do velho comunista) é a ode ao concreto armado e exposto, vigas orgulhosamente mostrando as juntas das tábuas das fôrmas, como cicatrizes odebretchianas. Concreto armado sempre me lembra AI-5 e “Brasil Grande”, espero que surjam aeroportos mais relaxados e de maior democracia à luz natural no futuro.
E que os arquitetos se lembrem que os notebooks já são quase commodity e espalhem mais tomadas. Hoje até que achei um banco perto de uma com razoável tranquilidade, mas há dias como usuários brigando por tomadas como etíopes perto de caminhão da ONU.
Mais duas horas, embarque. O vôo é TAM, então a ficha ainda deve seguir no seu lugar.
29
set09
Start
Por marciok em Pessoal às 9:49 am
Rumo à São Paulo.
Ficam algumas poucas pessoas, um peso imenso, e dois gatos que vão fazer falta.
É hora de ir.
27
set09
Transmissions are back
Por marciok em Pessoal às 3:56 pm
Ou mais ou menos. Voltamos provavelmente dia 29, do saguão de Guarulhos. Pois hoje e amanhã serão dias de correria completa, por causa justamente da viagem que será o conteúdo do blog nessa volta. 20 dias, 4 países, 4 shows, dois continentes.
E ela vêm em boa hora, pois vai ser bom passar esse tempo longe do meu dia-a-dia atual, que não anda péssimo, mas repleto de ausências e pequenas mancadas. Vai cair bem uma folga do meu mundo.
Stay tuned. We’re back.
9
ago09
Pais
Por marciok em Pessoal às 7:05 pm
Vejo textos tocantes como esse do Nassif falando sobre a relação dele com o pai, e penso hoje nas pessoas que conheço que têm relações conflitantes com o seu pai. São muitas, bem mais do que eu gostaria que existissem.
Pois gostar de um pai é complicado e profundo, na maioria das vezes. Na maior parte das famílias, a mãe é a protetora, e o pai o cobrador de tarefas, o que ajuda a aumentar os conflitos. Mais triste ainda são algumas pessoas que eu conheço que odeiam o pai – pois, apesar de estarem certas de que esse é o sentimento que podem ter por ele, se nota sempre que gostariam que fosse diferente.
Do meu pai, o que dizer? Tivemos sim muitos conflitos na vida, principalmente na adolescência, onde achamos que sabemos de tudo pra não admitir que estamos apavorados por não saber de nada. Eu sempre com meu desejo de liberdade que tive, e ele procurando manter tudo sempre sob controle. Quando vim para cá morar sozinho, pude finalmente ter as rédeas da vida na mão, e gostei – mas nunca deixei sempre de ouvir a opinião dele, nem que fosse para discordar.
Uma pessoa por vezes nervosa, mas somente pela vontade de sempre querer fazer certo. Que pouco demonstra os sentimentos, mas que quando o faz é de uma total entrega. Sempre foi duro e teimoso, mas nunca violento. Sempre se preocupou com o nosso bem-estar, em primeiro lugar. E, mais importante de tudo, de um caráter e honestidade exemplares.
Acabei de falar com ele, também está longe, mas dessa vez descansando, em férias no Nordeste com minha mãe. Sempre falamos pouco, nunca precisamos de muitas palavras. Como dois bons amigos, não precisamos dizer muito para nos entender.
Beijão, pai. Adoro você.
21
jul09
Cat Power – São Paulo, 18/07/09
Por marciok em Música, Pessoal às 9:31 pm
Estávamos todos lá, sentados, esperando o timbre rouco da voz, a banda matadora, o momento de fechar os olhos ao ouvir “Lived In Bars”.
Tivemos isso. A voz rascante era aquela mesma, com aquele segundo timbre que só pode ser definido como “doce”. A banda, de uma capacidade humilhante, econômica e delicada quando deve, mas que explodia numa rajada de groove, acordes e órgão Hammond quando necessário. E as músicas desfilavam vestidas pela voz de Charlyn Marie Marshall; “The Dark End Of The Street”, “Sea of Love”, a já citada “Lived In Bars” flutuaram entre os sorrisos da platéia do Via Funchal. Mas não foi isso que me chamou atenção na chuvosa noite de sábado, na capital paulista.
Foi a agonia da menina sobre o palco.
Não chamo Cat Power de menina por ela ser alguns meses mais nova que eu. Chamo pois era a imagem que ela passava sobre o palco. O corpo era de uma mulher, e linda; a voz, mais ainda, leva fácil os pensamentos para terrenos impublicáveis. Mas na sua dança desajeitada, nos seus movimentos pouco calculados, na sua indecisão do que fazer na frente de todas aquelas pessoas, me lembrou uma menina, na timidez, e na aflição de não saber como expressar o que queria.
Ali estava uma pessoa visivelmente transtornada por não conseguir infiltrar em cada um da platéia o que ela sente ao cantar. Ela tenta com o que lhe é possível: uma voz sobrenatural, uma banda com soul na medula, mas não é o suficiente. E ela tenta dançar, e não consegue. Se abaixa para cantar olhando para alguém, para obter retorno, e logo levanta por não poder olhar nos olhos de todos. Seus movimentos desconexos mostram um sentimento acumulado que não sai somente pela garganta, e ela não consegue extravasar de nenhuma maneira.
E ficamos lá olhando aquela mulher de franja adolescente, encantadora. Vendo aquela angústia no palco, com uma vontade de somente dar um abraço e dizer: eu entendo. O show de Cat Power é isso: a luta de uma artista em transmitir tudo o que sente cantando, e nunca conseguindo.
Isso fica mais evidente ao final do show, onde ela distribui flores e setlists para a platéia, visivelmente emocionada. Conversa com várias pessoas, pega nas mãos delas, distribui autógrafos em discos, ouve atentamente os mais exaltados, e notadamente não quer sair do palco. Ela quer simplesmente saber se captamos. Se nós sentimos.
Fica tranquila, Chan. Seu show foi um pouco arrastado, durou um pouco demais, muita gente não entendeu que o palco para você é prazer e agonia ao mesmo tempo. Mas muitos, quase todos, sentiram. Missão cumprida.
30
jun09
Wishing all the happiness
Por marciok em Pessoal às 10:12 pm
Os tempos do Buenas Noches ficaram para trás, e este blog tenta ser razoavelmente impessoal.
Mas vou abrir uma exceção para mandar um abraço para um dos poucos conhecidos desses anos de internet que ainda não conheço pessoalmente (falha que deve ser corrigida ainda esse ano, espero), excelente escritor, fotógrafo ascendente, e uma das pessoas mais apaixonadas que conheço em tudo que faz. E, principalmente, pela pessoa que está com ele.
E muitos ainda não acham necessário, e realmente não é, se for somente pela convenção social – o casamento. E eles, como muitos casais de hoje em dia, não precisariam satisfazer a convenção – já moravam juntos há muito tempo. Mas resolveram – imagino – fazer a cerimônia não como um protocolo, ou uma confirmação, e sim como um compartilhamento. Compartilhar com as pessoas que mais gostam a paixão e a felicidade que sentem um pelo outro.
E imagino que conseguiram, pelas fotos – pois são algumas das fotos mais lindas que já vi na vida. Não são aquelas fotos posadas para figurarem em álbuns aveludados, e esquecidos em armários; são totalmente espontâneas, simples, em que a expressão dos rostos de todos diz TUDO. Fazia algum tempo que simples fotos não me emocionavam tanto.
Não estão todas aqui, pois são muitas – elas podem ser vistas no site da fotógrafa, aqui, aqui, e aqui.
Que coisa linda.
Não vou desejar felicidade para os noivos. Isso, é visível, eles já encontraram. Abração, André e Lelê. Tudo de bom pra vocês.
(e imagino que deva ter tocado “Be My Baby”)
27
jun09
A Chapter Was Closed
Por marciok em Música, Pessoal às 12:37 am
Minha relação com Michael Jackson começa pontualmente, incisivamente. 1984, ano em que “Thriller” atingiu temperatura máxima; o disco é de 1982, mas cresceu em 1983 – e em dezembro deste ano, após uma semana inteira de teasers nos intervalos, Cid Moreira anunciou para retirarem as crianças da sala, pois o vídeo que seria mostrado a seguir no Fantástico poderia assustar algumas pessoas. Era a primeira vez que o vídeo de “Thriller”, a música, era exibido no Brasil, pouco depois de seu lançamento no exterior. Naquela momento, a Música Pop mudou. E eu vi esse momento, ao vivo, no alto dos meus 13 anos de idade.
Mas não tinha absolutamente nenhuma idéia disso.
Já gostava de música, mas ainda não era uma prioridade – era, como ainda é para a imensa maioria das pessoas (e muitas vezes esquecemos disso), apenas um complemento; algo para se ouvir em festas, com os amigos, ou no rádio ligado para quebrar o silêncio da casa. Rádio, esse era o rei: gostávamos do que ele gostava, conhecíamos o que ele transmitia. E com isso, por exemplo, o punk não existiu por lá – exceto pelas imagens do festival O Começo do Fim do Mundo, no SESC Pompéia, em 1982, horrorizando a família brasileira (bem mais que o clipe de Thriller, diga-se – também vi isso ao vivo, na TV). E Michael Jackson surgiu praticamente do nada, para mim – claro que as músicas do Jackson 5 tocavam aqui e ali (mas me lembro mais do desenho animado), e o Off The Wall tocou bastante, mas ainda era só música, aquilo para quebrar silêncio, para gostar em alguns momentos. O caminho foi outro.
Poucos lembram, mas Paul McCartney lançou um disco em 1983 chamado Pipes of Piece, que na época fez muito sucesso. Eu gostava muito desse disco – não me lembro se era minha irmã que tinha ele, ou o Henry, meu vizinho. Paul e Beatles não eram uma associação imediata para mim; Pipes of Peace me chamou a atenção pois eu conhecia o Paul mais de Tug of War, disco dele de 1982, que estourou com o dueto de Paul com Stevie Wonder, “Ebony and Ivory”, que tocou massivamente nas rádios (eu também gostava da canção título, quase certeza que era influência da minha irmã). E em Pipes of Piece, Paul gravou “Say Say Say”, que também tocou bastante nas rádios – então eu conhecia Micheal mais por este dueto (Paul foi espertinho nos duetos, naquela época).
13 para 14 anos, aquela época em se ligava a chave da adolescência, que os pais deixavam de ser heróis, e as meninas deixavam de ser nada para serem…algo que a gente ainda não sabia bem, ou sabia, mas não como lidar (se é que aprendemos a fazer isso algum dia) – eram tempos inocentes. E nos reuníamos não só mais para brincar de carrinho ou jogar bola, mas para conversar – sobre todas aquelas idéias novas, aquelas impressões estranhas, aquele mundo que subitamente tinha ficado diferente. A palavra amigo também mudava de significado – não era mais um parceiro somente de brincadeiras, mas sim da estranheza do mundo.
E dentro destes novos assuntos, música começou a ser um ponto importante. Íamos nas casas uns dos outros para ouvir discos, durante estas trocas de impressões estranhas – e a música se tornava um denominador comum, uma ligação. Gravávamos fitas K7 para ouvir em casa, com fones – era a maneira remota de estarmos com os nossos parceiros. Cantávamos juntos, em círculos de amigos em salas de estar, muitas vezes sem prestar atenção – acho que a palavra para isso é comunhão. Todos juntos, para enfrentar uma nova época, com uma nova trilha sonora – se o mundo agora era nosso, e não o de nossos pais, a música também teria de ser diferente.
Lembro quando o assunto de uma dessas conversas com os amigos foi justamente o vídeo de “Thriller”. Foi um dos acontecimentos do ano, e definitivamente inseriu Michael Jackson entre nossas prioridades. Henry comprou o disco, todos nós gravamos fitas. E Micheal dançava. Muito. E passamos a dançar também. E com a dança, as reuniões de amigos começaram a virar festinhas. E com as festinhas, começamos a reparar mais nas meninas. Seus movimentos. E tínhamos um pretexto para ficar olhando os rostos delas diretamente – estávamos dançando. E, nas baladas, o calor do corpo delas dançando junto, trazia todo um novo caminhão de sensações. Rostos tocando, cheiros de cabelos, contato de braços.
Mais assunto para conversar com os amigos, no dia seguinte.
Não é exagero, então, dizer que conheci a paixão com Jacko sendo um dos apresentadores. O sentimento que me guiou, e me guia, até hoje, em quase tudo: amores, amigos, música, trabalho, família, casa…naquele momento que você se identifica como pessoa, como indivíduo. Não é um impacto pequeno.
E ontem, Michael se foi. E, estranhamente, mesmo sentindo uma certa tristeza, não me conectei ao fato, como muitos dos meus amigos, que ficaram arrasados. Por quê?
Talvez porquê ele tinha se desconectado da minha vida, e da maioria das pessoas, há muito tempo. Na verdade, ele mesmo havia se desconectado da vida dele fazia tempo – eu achava extremamente triste o estado final físico e psicológico da pessoa que mudou todos os conceitos da cultura pop. Não se reconhecia ali mais aquela pessoa que me apresentou a paixão – aliás, nele não se via mais a paixão, que era latente no seu auge: era uma pessoa que adorava o palco, que o dominava como nenhum outro.
Não se reconhecia a pessoa que fez de “Thriller” o álbum mais vendido de todos os tempos; que foi o primeiro negro a ter seu vídeo exibido na MTV – antes de “Billie Jean”, a emissora somente transmitia vídeos de artistas brancos, com medo da rejeição do público. Seu clip não foi somente exibido, como ele foi o artista que elevou esse formato à categoria de arte, justamente com “Thriller”, “Billie Jean” e “Beat It”. A imagem dos artistas sempre foi algo importante, mas com a revolução que ele desencadeou, passou a ser tão, e algumas vezes mais, importante que a música.
Não se reconhecia o, talvez, mais genial dançarino da história do showbizz. Que resgatou a tradição americana dos “entretainers” – os artistas completos, que cantavam e dançavam; nele se reconhecia a distante linhagem dos sapateadores, com seus movimentos de pé; o deslizar dos sapatos, como se flutuasse, com movimentos quebrados de pernas, direto de Mr. Dynamite, uma geração atrás; os movimentos robóticos e quebrados da break dance, que ainda estava contida nos guetos. Cab Calloway, Sammy Davis Jr, Fred Astaire, James Brown, B-Boys, estão todos lá.
Não se reconhecia o cantor de imensa voz – mostrada desde a infância, com os Jackson 5, e que acabou meio relegada à segundo plano nas atenções pela performance visual na carreira solo. O mito sobrepujou o cantor.
Restava somente uma figura bizarra, carregando nas costas um imenso peso. Peso do seu início de carreira sob a mão de ferro do pai, que não poucas vezes lhe esbofeteou, e roubou boa parte de uma infância, que ele sempre tentou viver tardiamente. De ter se tornado o artista solo de maior sucesso da história, e de como tentar sustentar isso – e falhado, o ícone sobreviveu, mas o artista nunca mais foi o mesmo. De ter gastado sua fortuna em busca de uma felicidade que nunca veio. Das acusações de pedofilia, de suas plásticas, de suas paranóias.
Não era mais Michael Jackson. Era um corpo carregando um legado. Ao menos, o peso se foi.
Mas, involuntariamente (afinal, nada indica que foi suicídio), ele acertou no timing mais uma vez. A morte dele é tratada como o encerramento de uma era, pela importância dele como ícone; e, na verdade, realmente uma era está se encerrando, mas com a morte de Michael é que vai cair a ficha para a maioria das pessoas. Pois a cultura pop que Michael Jackson catalisou também está morrendo; o artista dominador e duradouro, líder das paradas, o megaastro, é um formato em extinção. Os discos, cujas vendas marcavam os reinados, estão desaparecendo, junto com as gravadoras, os videoclipes milionários, as mansões excêntricas.
Era um mundo diferente para Jacko, esse dominado por MP3 e um artista sensação por mês. Não há mais heróis, não há mais supergrupos e superastros, não há mais aquele artista que baliza os rumos de um ano, com presença massiva. Os anos 00 representaram o início do fim das instituições musicais, sejam os artistas ou as gravadoras; ainda existem alguns megagrupos, com megaturnês, mas todos são ainda sobreviventes da era passada: Stones, U2, Madonna. Existem grupos e artistas mais novos que ainda fazem grandes shows e causam algum impacto (Radiohead, Kanye West, Nine Inch Nails, etc), mas atingem somente alguns segmentos do público de cultura pop – não têm a abrangência que Jacko possuía em seu auge. E provavelmente nunca mais terão, pois agora não é mais o rádio, ou a MTV, que comanda os gostos – a música está ao alcance de um clique. As pessoas podem escolher do que gostar, basta quererem.
Assim, Micheal Jackson fez seu último ato: fechou sua vida junto com um ciclo que ele mesmo ajudou a criar, como se junto com ele levasse o modelo de cultura pop do qual ele era o maior representante. Nada mais marcante que um rei morrer junto com seu próprio reino.
E eu, agora, não me lembro do Michael Jackson freak do final da vida. Nem mesmo do Rei do Pop que manteve o posto mesmo depois de parar de produzir, simplesmente porquê não teve herdeiros. Eu me lembro do cara lá do início do texto, que estava junto quando deixei de ser criança. O que não deixa de ser curioso, pois aparentemente ele terminou a vida sempre tentando voltar à infância que não teve, ao seu passado, à quando ele sorria, cantando, em cima de um palco.
E você conseguiu, Michael. Trouxe uma conexão comigo de novo, lá no tempo que você gostava, no passado. Onde perdemos a inocência, em escalas diferentes; quando você mudou a cultura pop, eu mudei a minha vida. Talvez, ambos, nos dando conta que a inocência não era tão ruim assim, olhando pra trás e vendo todos os erros e acertos de todos esses anos – e se dando conta, no final, que nunca deixamos de ser adolescentes procurando entender a vida, querendo somente uma roda de amigos na sala que nos entendam. Mas acho que não tinha como ser diferente, nem para mim, nem pra você.
E tivesse sido, eu não seria o que sou. E se você não tivesse sido, o mundo não seria como é. Acho que valeu.
Descansa em paz, parceiro. E canta aí pra nós.
9
jun09
Extremamente Alto, Incrivelmente Perto – Jonathan Safran Foer
Por marciok em Books, Pessoal às 11:09 pm
Não, você não me conhece. Não sou uma das pessoas à quem você já escreveu; também meu nome não vai estar nos cartões do Sr. Black, nada de mim até hoje foi tão falado para constar lá, ainda sou encoberto pela mundaneidade. Apenas acabei de ler a sua história, e da sua família. Bela história, Oskar.
Você me chamou pouca atenção no início. O mundo de uma criança de nove anos pra mim já é conhecido, mesmo que já um tanto distante; seu pai, já mais perto da minha idade, me interessou mais. E seus avós, ah seus avós – cada frase deles que meus olhos viam ficavam irremediavelmente gravada por minutos nas retinas. Várias, por bem mais tempo. Algumas, não sei por quanto mais, mas ainda estão lá. Talvez por consolo, ou esperança final, arrancamos algo de belo no sofrimento dos outros – talvez como um espelho invertido, jogando luz sobre sofrimento alheio somente para não vermos nosso próprio reflexo.
Mas logo fui tragado para seu mundo, Oskar. Pois na vida de qualquer um sempre achamos cacos nossos, espalhados displicentemente. A irresistível atração de julgar os outros , e a nós mesmos – mais fácil apontar o dedo para nossos erros quando são outros que os cometem, terceirizamos nossas culpas. Seu avô perdeu as palavras, ou simplesmente se deu conta da dor que elas podem trazer – e é mais fácil ver as palavras sangrarem somente pela tinta de uma caneta do que a sensação delas saírem rasgando as gengivas. Estender as mãos para dizer o Sim e o Não, nas mãos o peso fica melhor que nos ombros; onde o Sim e o Não, quando um deles pesa mais (e SEMPRE um deles pesa mais) faz você caminhar torto.
Seus avós em um erro fatal, repartindo o mundo deles Lugares Algo e Lugares Nada, mais dualidade, como o Sim e o Não, o velho erro que temos em pender a balança, e lá vem o peso nos torcendo as costas. Não se parte o mundo em Algos e Nadas, Oskar, nada é menos maniqueísta que sentimentos. Eles tanto procuraram seus lugares entre o Algo e o Nada, que esqueceram de olhar justamente a fronteira, onde ambos se tocam; é uma linha tênue, é difícil o olhar acertar o foco, e mais ainda conseguir ficar em cima dela. Sempre estamos mirando os opostos, quando procuramos o meio.
E acabamos nos dando conta que nos superestimamos, Oskar. Nos achamos especiais, contâineres de virtudes inexpugnadas, quando na verdade somos um aglomerado de defeitos unidos somente por ossos e músculos. E isso é o belo narrado na história da sua família – são defeitos empilhados em cima de defeitos, o que faz com que os brilhos tão particulares de cada um saltem aos olhos. E a BUSCA que todos nós temos, é somente por isso – pessoas com brilhos que combinem, e se encaixem, no meio desse algomerado de defeitos que arrastamos por aí.
É uma busca difícil, Oskar. Mas, no final, as pessoas da sua família acharam. Não no momento certo, não quando deveria ser, mas no final, todos ENTENDERAM.
Siga inventando coisas antes de dormir. Na sua idade, eu fazia isso também. Quando você ficar mais velho, você vai deixar de inventar coisas – uma das características da idade, ao progredir, é que as coisas materiais parecem sempre tangíveis, por mais que não sejam. Você vai passar a inventar situações, momentos, dias, pessoas. Coisas que independem de materiais e tempo, e sim de uma dose de vontade, e uma piscadela do destino. Muitas delas jamais deixarão de ser somente um plano. Algumas delas se tornarão realidade – e acredite, Oskar, você jamais as esquecerá.
Não há como o mundo voltar em fast-rewind como o seu desejo, e o sonho de sua avó, Oskar. Lágrimas não retornam para dentro dos olhos. O passado é passado, e já pagamos nosso preço por ele vivido. Nenhum envelope vazio será enchido, nenhuma página em branco preenchida, nossas torres que desmoronaram não mais serão erguidas. Olhamos para nós e vemos isso, defeitos unidos por músculos e ossos, nossa armadura de vivência. Mas há brechas nessa armadura, Oskar, há luz que escapa por ela.
E com ela que iluminamos o caminho à frente.
Um abraço, Oskar.
M.K.P.”
=============================================
“Extremamente Alto, Incrivelmente Perto”, de Jonathan Safran Foer, é um livro brilhante. Denso, até demais – o que vai me exigir uma segunda leitura, todas as características da Grande Literatura estão lá: construções exóticas de frases, idéias não-convencionais, roteiro extremamente elaborado, não é uma leitura fácil e fluida. Mas é notável como a intenção do texto é jogar sentimentos crus na sua cara em primeiro lugar – toda a estética literária, mesmo rebuscada, vêm em segundo plano, mesmo que facilmente notada. Um raro balanço: erudição e sentimento.
Se ainda não o leu, faça agora.
21
mai09
Um segundo
Por marciok em Geral, Pessoal às 9:26 pm
Começa. Tensão. Concentração. Foco no TV. Susto. Mais tensão. Mais complicado que esperava. Um ataque, uma defesa, um aplauso. Mais tensão. Uma tabela. Não, não foi agora. Segue tensão. Sim, o passe foi curto. Sim, uma corrida. Sim, um cruzamento. Sim, um gol. Sai a tensão. Entra a alegria. Sorrisos. Pulos. Aplausos. Intervalo. Respirar. Mais 3 garrafas, garçom. Apito. Tensão retorna. Está complicado. Está complicando. Desatenção. Tabela. Gol. Complicou. Tensão no máximo. Força. Fé. Ataque. Tempo passa. Ataque. Tempo passa. Ataque. Sem resultado. Falta. Agonia. Faz, D’Alessandro, por favor. Ele não vai. Andrezinho. Chute. 0,3 segundos. Passou pela barreira. Sim. 0,6 segundos, o rumo é certo. SIM. Bruno olha. 1 segundo. Redes. Gol. Gol. Gol. GOL. A alma sai pela boca, a garganta já não suporta, o coração dói, e de repente sou pequeno para caber em mim mesmo.
Um dos segundos mais longos, e mais felizes, que já tive. Acho que é isso que chamam de emoção.
Com a narração do Denardim, da Rádio Gaúcha. Como diz o David Coimbra, “narrador gaúcho narrando jogo da Dupla, parece que está transmitindo a Campanha da Legalidade”.
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