Quando Morrissey cantou pela última (e primeira) vez no Brasil, em 2000, o cantor não estava num dos pontos altos de sua carreira. Não lançava um álbum havia três anos (e ficaria outros quatro sem lançar outro). Parecia estar numa descendente, meio esquecido, às vésperas do estouro de uma nova onda de bandas-de-guitarras que revitalizaria o tal do rock alternativo que ele mesmo ajudara a criar. Talvez por isso, pelo relativo descrédito por que passava, Morrissey suou a camisa – figurativa e literalmente – naquele show de 2000. Chegou, enfim, a hora de rever o mito. Doze anos depois daquela visita histórica, o mancuniano encontra-se numa posição bem diferente. Continua resmungando, pessimista, desencantado com o pop contemporâneo. Mas efetuou, na década passada, um bem-sucedido comeback e hoje conta com um nível de respeito de crítica e público mainstream bem maior do que em 2000. Não chega a ser estranho constatar, então, que o cantor agora parece mais relaxado – “bonachão” não chega a ser o termo, mas sem dúvida… menos… intenso. Mais populista, talvez? O gongo (!) trazido pelo baterista Matt Walker para o show na Fundição Progresso (RJ), na noite de sexta (09/03), poderia dar a impressão que Morrissey teria, afinal, se atirado nos braços do classic rock, abandonando o ethos indie de vez. Não, o ex-Smith na verdade pulou essa etapa e foi direto para a terceira idade da música pop. Com sua camisa entreaberta, suas canções de desamor que hoje soam sentimentalescas, o público a seus pés, Morrissey é hoje o Tom Jones do rock alternativo.
Veja bem, não há nada errado nisso. E isso também não significa que o atual espetáculo do cantor seja ruim, muito pelo contrário. Verdade seja dita que o repertório decepcionou um pouco – mas não à grande massa para quem Morrissey sempre será, apenas, o vocalista dos Smiths. As canções da antiga banda vieram em número mais generoso que da última vez (seis, em lugar de quatro), incluindo os hits “There’s a Light that Never Goes Out”, “Still Ill” e “I Know It’s Over”, em versões bem parecidas com as originais. “Meat Is Murder”, o velho libelo pró-veganismo, vem num arranjo meio esquisito, a voz um tom acima e uma torrente de noise no lugar da sonoridade descarnada da primeira versão. No telão, imagens pavorosas de matadouros, para “conscientizar” o povão… que na verdade mal continha a ansiedade por “How Soon Is Now?”, que fecha o set antes do bis numa performance pesada, mas que também falha ao capturar todo o pathos da gravação de 1984 (diga-se de passagem, é uma música difícil de tocar ao vivo; mesmo os Smiths raramente a interpretavam no palco). Ainda teve, antes, “Please Please Please Let Me Get What I Want”, dedicada pelo cantor “àquelas pessoas que nunca se desapegam de nada”. Esticada, sem a delicadeza perfeita do registro original, agradou a quem estava lá pela nostalgia, e só a esses.
A ironia é que em 2000, quando estava numa entressafra do trabalho solo, Morrissey dava muito mais valor à sua obra pós-Smiths do que dá agora. O setlist é meio incongruente. Esquece as músicas mais fortes dos últimos discos (exceção: “First of the Gang to Die”, que abre o show com gosto), privilegia semi-hits (“Ouija Board, Ouija Board”?! “Alma Matters”?!) e praticamente ignora seus melhores solos, Vauxhall and I e Your Arsenal, colocando uma música de cada, apenas (respectivamente “Speedway”, um dos melhores momentos do show, e a grata lembrança “You’re the One for Me, Fatty”). Teve “Everyday Is Like Sunday”, mas… e “Irish Blood, English Heart”, “The More You Ignore Me”, “November Spawned a Monster”, “We Hate it When Our Friends Become Successful”? Ao menos, os números recentes vieram interpretados com vontade, com destaque para “Let me Kiss You”, que rende a melhor passagem “teatral” da noite: ao cantar os versos “But then you open your eyes /And you see someone / That you physically despise”, Morrissey arranca a própria camisa, num supremo gesto de autocomiseração – e a plateia urra.
O negócio é que essa dramaticidade toda, em meio ao clima meio galhofeiro do resto do show, soa fake. Os caras da banda, quase todos fortinhos, entram sem camisa. A exceção foi o gorducho Boz Boorer, parceiro de longos anos (e que tocou com o cantor aqui em 2000), que disfarçou as banhas com um vestido azul (!), completo com uma peruca ruiva (!!). Teve gente perguntando: “Ué, a Adele agora toca com o Morrissey?” O cantor diz que “arrumou os músicos numa visita a uma praia de nudismo”. Não chega a cair no olê-olê geriátrico de Paul McCartney, mas abusa da manipulação e da provocação – esfregando as partes baixas durante uma longa pausa em “Speedway”, aproveitando a camisa entreaberta para passar a mão pelo peito… E provoca ainda mais com suas breves falas. ”Vocês desataram o nó do meu coração, e… só isso”. ”Andei pelas ruas do Rio, vi muita gente linda e posso dizer que aqui todas as pessoas são bonitas. As pessoas dos três sexos”. “O príncipe Harry está no Rio atrás do seu dinheiro. Não o deem a ele”. Apesar de todo o populismo, as idiossincrasias do homem continuam a toda. Trouxe como atração de abertura a desconhecida Kristeen Young, jovem cantora americana que faz um som eletrônico absolutamente descolado do rock morrisseyinano. Sozinha no palco (o show é só ela e um teclado), a moça surpreendeu, evocando Kate Bush e Björk, por um viés minimalista. Entre os dois shows, uma montagem de videoclipes deslindando as obsessões musicais do jovem Steven Patrick: Shocking Blue, The Sparks, Nico, Brigitte Bardot (!) e, claro, os New York Dolls.
Quer dizer: aos 52 anos, Morrissey já não exibe mais a angústia que o levou a criar seus versos doloridos. Mas continua cantando-os assim mesmo, numa espécie de teatrinho existencial que agrada a muita gente. E convence, em boa parte do tempo. Talvez seja um novo paradigma para os espetáculos dos cassinos de Las Vegas: uma recriação irônica das mazelas existenciais que o impeliram ao longo dos anos. Aliás, não seria um mau fim para um fã de Elvis Presley. E, claro, nós estaremos lá com ele.











