ABC
I Want You Back
The Love You Save
I’ll Be There
Got to Be There
Music and Me
Ain’t No Sunshine
Ben
Blame It on the Boogie
Dancing Machine
Don’t Stop ‘Til You Get Enough
Rock With You
Off the Wall
Working Day and Night
Get on the Floor
Beat It
Billie Jean
Thriller
The Girl Is Mine
Say Say Say
Human Nature
Wanna Be Startin’ Somethin’
Smooth Criminal
Bad
The Way You Make Me Feel
Black or White
Heal the World
Why You Wanna Trip on Me
Will You Be There
Earth Song
Archive for June, 2009
Who will dance on the floor in the round
Friday, June 26th, 2009Fantasmas nos olhos
Thursday, June 25th, 2009
Enquanto Mary dança no varandão ao som de Roy Orbison no rádio, seu vestido abana e a porta bate. O início da letra é tão cinematográfico e descritivo que podemos duvidar de Bruce Springsteen quando ele diz que sabia sobre o filme Thunder Road, de 1958, antes de escrever a letra da canção de mesmo nome, mas só foi assisti-lo anos depois. O clima evocativo do piano e da harmônica reforça a impressão e, nos primeiros versos, o único comentário do narrador é que Mary dança “como uma visão”.
Toda essa neutralidade observadora desaparece rápido. No quarto verso, Bruce ainda canta na terceira pessoa (“Roy Orbison canta para os solitários”), no quinto passa para a primeira e segunda (“esse sou eu e quero só você”) e no sexto já estamos no imperativo: (“não me mande para casa de novo”). Só mais adiante o arranjo cresce e toma aquele ar bombástico que muitos associam ao Chefão, mas, à ocasião, era novidade para quem o acompanhava seus discos: é a primeira faixa do terceiro álbum, Born to Run, e os dois anteriores, não tinham essa construção.
Mas mesmo quando a E Street Band engata a quinta, a melodia permanece melancólica, quase desconsolada. Combina com a letra, repleta de sonhos tão grandiosos que, parece reconhecer o protagonista, não há como não terminarem em frustração. E ele não nega: “havia fantasmas nos olhos de todos os garotos que você mandou embora”, canta. Por mais que saiba que eles (eles os garotos ou eles os fantasmas? A letra não esclarece) continuam assombrando estradas e carcaças de Chevrolets queimados, não desiste e afirma para Mary, talvez para si mesmo: “É uma cidade cheia de perdedores e estou saindo daqui para vencer”. Uma espécie de “comigo vai ser diferente”. Entra um dos riffs mais triunfantes da história dos riffs triunfantes.
Quase todos que regravaram a música nos anos seguintes fizeram questão de evidenciar essa melancolia. Geralmente o acompanhamento é só um piano ou um violão. Em vozes femininas, essa fragilidade fica ainda mais clara, como na gravação de Mary Lou Lord em um metrô (sério) ou a de Tori Amos, sempre arfante. Mesmo quando não é o caso, como na versão do pirateshoteiro Bonnie “Prince” Billy com o Tortoise, o climão está lá. Há exceções, claro, como na extravagante gravação de Kevin Rowlands (tão extravagante que Bruce não autorizou a inclusão no disco My Beauty, de Rowlands; a música está apenas nas primeiras cópias, distribuídas à imprensa) ou o embalo festinha de Paul Baribeau.
Não sei dizer qual minha preferida. Talvez o fato d’eu sempre visualizar a vocalista dos Cowboy Junkies, Margo Timmins, como a Mary que dança seja uma pista. Ou talvez isso seja porque a versão deles no EP ‘Neath Your Covers (lá tem também uma regravação lindaça para “Seventeen Seconds”, do Cure) foi a primeira vez que eu dei mais atenção à letra enquanto ouvia. Mas também não faz muita diferença.

