Archive for July, 2009

Coisas que Mussum não viu em 15 anos

Wednesday, July 29th, 2009

Quinze anos é idade de debutantis

Então lá se vão 15 anos desde a morte do Mussum. Quem é jovem o suficiente para não lembrar do cara certamente tá ouvindo falar bastante a respeito hoje. Além do mais, ele ganhou uma iconografia razoavelmente forte nos últimos anos, bem mais que os outros três. Com isso, fica engraçado porque o Didi e o Dedé voltaram a trabalhar juntos e a memória do Zacarias, que também era sensacional, fica meio de lado. Cultura de massa tem dessas.

Mas os 5 anos desde que fiz a matéria sobre os 10 sem Mussum pro DC me chocam ainda mais (no sentido “tempo passa”). O texto foi capa do Variedades daquele dia e rendeu, na época, um e-mail bacana do Cassilds Futebol e Mé, de Itajaí; eles diziam que não tinham visto nenhuma outra matéria sobre a data. Também não vi nos jornalões, revistas e blogs em que olhei, mas, confesso, não procurei. E, na real, eu tinha copiado a pauta, da Folha Universal.

Umas três semanas antes de completar 10 anos certinho, eles deram a matéria antecipada, com o título “Que Desgracis” ou coisa assim. E eu peguei um dos exemplares que eles distribuíam, na Mauro Ramos, ali na frente do Instituto. Imaginei que fosse ser algo moralista, uma referência ao lance do Mussum com o álcool, com lição do tipo “viram só no que dá o mé?”, mas não. Era uma matéria, bastante bem escrita, se a memória não me engana, sobre a confusão jurídica da herança, que permanecia mesmo após 10 anos. Acho que tava bloqueada e tudo. Bloqueada, no caso, a herança: a matéria tava liberada e confusão tava comendo.

Como eu não queria repetir igualzinha a pauta dos caras (até porque precisaria ir pro Rio ou São Paulo e falar com herdeiros e advogados, o que não seria possível), tentei falar com os dois trapalhões sobreviventes, Didi e Dedé pra minha, mas não rolou. Cheguei a contatar assessores, eles disseram para mandar as perguntas por e-mail, mandei. E nunca recebi resposta. Gente ligada à Globo me disse que sobre o Mussum eles não falavam mesmo, ainda mais porque era uma época em que Didi e Dedé não estavam declaradamente brigados, mas a relação não era nada boa. Não sei, não posso confirmar nada disso.

Hoje, na onda da discussão sobre o twit do Danilo Gentili, também faz todo o sentido lembrar que o tipo de humor dos Trapalhões também renderia acusações de racismo, entre outras. Afinal, Didi chamava Mussum de “grande pássaro”, “cromado”, “suco de peneu” (com essa pronúncia aí mesmo), entre várias outras. Quando era para negar alguma possibilidade, Mussum dizia “quero morrer preto se tal coisa acontecer”. Amigo meu lançou “sobre perpetuação de preconceitos: se o Costinha surgisse hoje, quanto tempo até ele tomar um processo de alguma organização lgbt?”. E aí?

Não compartilho a teoria de que “o problema é que essa piada é boa, aquela não”, isso não faz muito sentido e não é questão de quem é engraçado, se os Trapalhões ou o Danilo Gentili não ser. Acho só que passado é passado e outros tempos são outros tempos, não dá para julgar pelos nossos olhos, da mesma maneira como não dá para esperar que hoje seja igual a ontem.

Era mesmo uma época mais racista, dentro da maneira como a humanidade chegou até aqui, é normal que tenha sido. Assim como é o caso de centenas de obras de arte, várias delas preconceituosas pacas, ao longo da história. Além de sua “função” estritamente artística, essas obras e piadas ajudam a entender o que eram essa época. E apontar quando surge uma manifestação racista ajuda a entender a nossa. Talvez seja isso, mais que os 15 anos sem Mussum ou os 5 da minha matéria, que choquem no sentido de que o tempo passa.

TAMOJUNTO, SAM SPADE!

Sunday, July 26th, 2009

Sam Spade (Humphrey Bogart) e Effie Perine (Lee Patrick) em Relíquia Macabra (1941)

Sam Spade (Humphrey Bogart) e Effie Perine (Lee Patrick) em Relíquia Macabra (1941)

Quando o detetive voltou ao seu escritório, Effie Perine olhou-o interrogativamente.
– Não o encontrei mais – rosnou Spade, e passou ao seu escritório particular.
Ela seguiu-o. Ele sentou-se e começou a enrolar um cigarro. Também ela sentou-se, na sua frente, sobre a escrivaninha, e apoiou as pontas dos pés num canto da cadeira dele.
– E sobre Miss O’Shaughnessy? – perguntou.
– Também não a encontrei mais, mas ela tinha estado lá.
– No “La Paloma”?
– “No La” é uma combinação horrível – disse ele.

O prog, esse monstro terrível

Thursday, July 23rd, 2009

Bem antes dos Hermanos e da capa do Wilco, o Camel já mandava ver

Prometo não ficar nessa de requentar velharia só pra manter o blog em atividade. Mas essa é uma das coisas que TAMBÉM vão rolar por aqui, até porque fiquei de passar esse textinho aí que fiz junto com a coleta que montei prum projeto coletivo, o Poplist vê os estilos musicais.

Quando nos ensinaram na escolinha, era muito simples: a meiúca dos anos 70 era uma época terrível, em que uma praga musical chamada Rock Progressivo havia sido inventada por músicos pretensiosos, como um desvio de caráter da psicodelia, com o propósito claro de eliminar os colhões do rock’n’roll a golpes de virtuose exibicionista e de longos solos despropositados e tediosos. Pior, haviam conseguido. Tudo era triste, ninguém conseguia montar uma banda a menos que soubesse tocar todas as peças de Bach, Beethoven e Chopin no cravo, ao mesmo tempo, com uma mão só. Até que apareceu sobre a face da terra o nosso maior herói, o punk, que salvou o rock e desde então fomos todos felizes.
Mas ainda era preciso tomar cuidado para evitar o retorno do monstro. O principal era observar a ética pós-punk e renegar tudo o que veio antes. Quer dizer, fora o Velvet Underground e os Doors. E David Bowie. Peraí, rock anos 50 também pode. Tá, Beatles e psicodelia tudo bem. Inclusive o Pink Floyd, mas SÓ COM O SYD BARRET. E mais um e mais outro… meio esquisito, mas vamos que vamos. O lance é eliminar os floreios. Assim, lá vinha o conflito ético quando o melhor disco do Echo and the Bunnymen era justamente aquele cheio de violinos e violoncelos, como é que fica isso?

Aí piora quando aparece o post-rock. Ah, quer saber? Um ou outro progressivo até pode, principalmente se for alemão. Ou o King Crimson. Mas com calma. E é quanto o sujeito pára pra pensar: quem é que não gosta de uma harmonia vocal bem-feita, daquelas que encheriam os Beach Boys de orgulho? Ou então uma baladona idílica e pastoril, daquelas árcades mesmo? Claro, de vez em quando uns riffs do mal para contrabalançar. E, putz, na verdade não foram o Pop Group e os Residents que inventaram a maluquice ablué e uns tempos esquisitaços no rock. Convenhamos também que uns lances de free jazz caem bem, hein? Assim como umas reggaezices e funkarias onde se menos espera. Mais as brincadeiras com eletrônica para as massas.
E tudo isso tem lá no prog, às vezes em uma mesma música. Ou, ainda mais grave, perceber que tocar bem pacas não é um defeito e que rolava um underground ainda mais sinistro e freak do que o surgido após o punk rock. E olhando com mais atenção, percebemos o quanto de coisa legal das bandas novas já havia sido adiantado por gente como o Pink Floyd. Pois então, como é que fica?

Fica assim, em dois volumes, já que não queremos trair o espírito grandiloqüente da coisa toda. Vale lembrar que prog nunca foi mesmo fácil e encarar músicas de 20 minutos exige mesmo coragem, assim como o desprendimento de ver que são realmente bonitos alguns arranjos meio Fórmula 1 e outros esquisitões. Mas, olha, não tem NENHUMA aí embaixo que eu não ouça amarradão.

A Neurose do Bucolismo:

1. The Moody Blues – Dawn: Dawn is a Feeling …03m49s
2. Gentle Giant – Funny Ways …04m29s
3. Van Der Graaf Generator – Emperor in His War Room (Pt. 1 The Emperor, Pt. 2 The Room) …08m15s
4. Soft Machine – Virtually pt. 3 …04m39s
5. The Muffins – Hobart Got Burned …05m58s
6. Henry Cow – Bitter Storm Ovel Ulm …02m20s
7. Yes – And You and I …10m05s
8. Camel – Lady Fantasy (Encounter, Smiles for You, Lady Fantasy) …12m45s

Foi para a mesa:

1. King Crimson – The Great Deceiver …04m02s
2. Premiata Forneria Marconi – Generale! …04m18s
3. Focus – Sylvia …03m21s
4. Gong – Dynamite: I Am Your Animal … 04m33s
5. The Nice – Rondo …08m21s
6. Area – Luglio, Agosto Settembre (Nero) …04m39s
7. Genesis – Supper’s Ready …22m58s

E aqui os dois volumes juntos

Ziguezagueei no Vira-virou

Monday, July 13th, 2009
Foto: Frederico Mendes

Foto: Frederico Mendes

1. No dia 11 de maio de 1998, fui numa viagem do Curso pra conhecer o Departamento de Jornalismo do SBT. Acabamos na gravação do Programa Livre e os convidados do dia eram Claudinho e Buchecha. Fiz a primeira pergunta: o que era assoviar de forma acústica? Simpaticíssimo, Buchecha explicou que antes de compor a música, viu no Fantástico uma matéria sobre um “bombeiro que assoviava maravilhosamente bem”. E chamou desse jeito.

2. O verso está em “Juras”, terceira faixa do segundo disco dos caras, A Forma, que eu ganhei do Maverick em cassete e foi a trilha sonora da viagem do Superbug (fase Seben & Heron) pra tocar em Maringá pouco antes, 14 de março de 1998. E no dia seguinte, quando voltávamos (sob protestos; queríamos ir pra festinha da chácara), ouvimos a notícia da morte do Tim Maia.

3. (ad.ju.di.car)

v.
1. Jur. Conceder, por decisão da justiça, a posse de algo a alguém. [ td. : adjudicar bens. ] [ tdi. + a, para : O juiz adjudicou as joias aos herdeiros. ]
2. Estabelecer condição (para a realização ou reconhecimento de algo); VINCULAR [ tdr. + a : O juiz adjudicou a aprovação das contas à apresentação de um relatório atualizado ]
3. Conceder a alguém ou reconhecer-lhe algo (título, autoria, origem, responsabilidade etc.); ATRIBUIR(-SE) [ tdi. + a, para : O Governo estadual adjudicou às prefeituras a compra dos dicionários: Adjudicou -se (a si mesmo) a responsabilidade pelo atraso nas obras ]
4. Entregar legalmente (algo) a alguém; CONFERIR [ tdi. + a, para : adjudicar à mãe a posse dos filhos ]
5. Sujeitar-se a (alguém ou algo) [ tdr. + a : Não se adjudicava às ordens do pai ]
[F.: Do lat. adjudicare.]

4. A única vez que fui no Planeta Atlântida sem ser a trabalho foi no dia 22 de janeiro de 2000. Tava na pilha pra ver C&B e Los Hermanos, que tocaram na mesma noite. E aí, na noite anterior, eu e a Dani descobrimos que tinha show de LH em Jaguaruna e colocamos pilha no Melvin, que tava em Floripa, e fomos pra lá.

5. Naquele Planeta, a menos que eu esteja muito enganado, os Hermanos (era o verão de “Anna Julia”) tocaram logo antes de Claudinho & Buchecha. O que eu lembro de certeza absoluta é que o show da dupla foi muito consagrador. E foi o empresário deles quem descolou o ingresso pro Melvin ir no festival. Fomos pegar lá no hotel em que os caras estavam, o Porto da Ilha.

6. (des.di.to.so) [ô]

a.
1. Que não tem sorte ou que não é feliz; DESVENTURADO; DESGRAÇADO: Sempre tive uma vida desditosa. [ antôn.: Antôn.: ditoso ]
sm.
2. Aquele que não tem sorte ou que não é feliz.
[Pl.: [ó].]

7. Eu trabalhava no Diário Catarinense no início de 2002, quando recebi Vamos Dançar, que viria a ser o último disco da dupla e o único que resenhei quando foi lançado. A faixa de trabalho era “Zó-Zó-Zó”, mas nem essa nem a música-título me empolgaram muito. Para ser o hit, apostei em “Desinibida”. E não tenho o texto em mãos, mas sou capaz de apostar que não cheguei nem a citar “Fico Assim Sem Você”.

8. Eu estava vestido de caipira quando soube da morte do Claudinho. Quem me deu a notícia foi o Lima, enquanto eu pegava carona no fusca dele a caminho de Blumenau, na volta do Baile Caipira de Indaial de 13 de julho de 2002. O cara morreu também na estrada, na madrugada anterior, depois de um show em Lorena (SP).

9. Ziguezagueei no Vira-virou: meu Top 15 de Claudinho & Buchecha:

1. Rap do Salgueiro
2. Nosso Sonho
3. Desinibida
4. Enquanto Eu Viver
5. Só Love
6. Meu Compromisso
7. O Pobre
8. Coisa de Cinema
9. Conquista
10. Rascunho
11. Juras
12. Xereta
13. Quero te Encontrar
14. Diretriz
15. Fico Assim Sem Você
Bônus: MC Buchecha: O Teu Cabelo Não Nega / Mulata Ye Ye Ye

Jacko e o Papa revisitados

Wednesday, July 8th, 2009

Publiquei esse texto pela primeira vez em maio de 2005,  em circunstâncias que explico logo no começo. A idéia do Tico-tico era mesmo re-subir algumas coisas do Detalhes, mas eu tinha esquecido disso, até que os recentes acontecimentos fizeram eu lembrar. Estou certo de que escreveria diferente alguma coisa se fosse hoje, tanto que optei por nem ler. Talvez isso sirva também pra salvar eventuais tremas e “éias”.

Jacko e o Papa

Há algumas semanas, a morte do papa João Paulo II e sua sucessão por Bento XVI ocupavam os jornais mais ou menos ao mesmo tempo que o julgamento de Michael Jackson, acusado de pedofilia. Em ambos os casos, como não poderia deixar de ser, não faltou análise. As conclusões básicas a que se chegou: João Paulo II e, mais ainda, Bento XVI são cruéis ao orientar a Igreja Católica para que continue contra o homossexualismo. E Michael Jackson, por querer fazer sexo com garotinhos, é um monstro, uma aberração.

Nada ainda foi provado contra Jackson, então, a princípio ele é inocente, mas, para fins de discussão, suponhamos que as acusações procedam. O que temos, então? Um quadro esquisito. Condenamos João Paulo II, Bento XVI e a Igreja por pedirem aos homossexuais a mesma coisa que exigimos de Jackson: que reprima seus instintos sexuais.

Lógico, não é a mesma coisa. Quem não concordar com a doutrina da Igreja pode simplesmente deixar de ser católico. Se alguém, mesmo assim, quiser ser católico e gay, também pode. É só não praticar. E, afinal de contas, o sexo heterossexual sem fins reprodutivos também é condenado pelo Vaticano. Mas suponhamos que a pessoa seja insistente: quer ser praticante, tanto do catolicismo quanto do sexo. Nesse caso, a mesma doutrina católica que prevê a existência do pecado prevê a do perdão. Confissão e penitência resolvem a questão e quitam as contas.

O caso de Jackson é diferente. Ele simplesmente não tem a prerrogativa de não fazer parte da sociedade. E não há perdão: se ele confessar ou se for considerado culpado, cadeia, em qualquer país do mundo. Terra do Nunca, a mansão em que ele se isolou não é abrigo suficiente, agora vemos todos.

É claro que existem outras diferenças. A mais óbvia é a maturidade ou os possíveis traumas nos objetos de desejo de homossexuais ou de pedófilos. E o discernimento para que tais objetos de desejo concordem ou não, sabendo o que estão fazendo, com a consumação dos dois tipos de desejo. O que é corriqueiro em um caso é praticamente impossível no outro, todos sabemos e não vou contestar. Não tenho filhos, mas também sei que odiaria alguém em envolvimento sexual com eles ou mesmo idealizando a respeito. Vale o mesmo para os filhos pequenos de amigos. Ou para qualquer criança, na verdade.

Também não estou dizendo, óbvio, que homossexualismo e pedofilia são semelhantes ou equivalentes. São diferentes em tudo, desde o critério que qualifica cada um. Um é por idade, outro por gênero. Mas aí é que tá: hierarquizar as duas preferências é atribuição da moral. Que nada mais é do que juízo de valor sobre comportamento decidido coletivamente e imposto aos indivíduos. Michael Jackson não tem o direito de ser julgado por leis ou regras morais escolhidas por ele. Quer dizer, o que fazer com isso tudo?

(This entry was posted on Segunda, Maio 23rd, 2005 at 12:28 am)