
Então lá se vão 15 anos desde a morte do Mussum. Quem é jovem o suficiente para não lembrar do cara certamente tá ouvindo falar bastante a respeito hoje. Além do mais, ele ganhou uma iconografia razoavelmente forte nos últimos anos, bem mais que os outros três. Com isso, fica engraçado porque o Didi e o Dedé voltaram a trabalhar juntos e a memória do Zacarias, que também era sensacional, fica meio de lado. Cultura de massa tem dessas.
Mas os 5 anos desde que fiz a matéria sobre os 10 sem Mussum pro DC me chocam ainda mais (no sentido “tempo passa”). O texto foi capa do Variedades daquele dia e rendeu, na época, um e-mail bacana do Cassilds Futebol e Mé, de Itajaí; eles diziam que não tinham visto nenhuma outra matéria sobre a data. Também não vi nos jornalões, revistas e blogs em que olhei, mas, confesso, não procurei. E, na real, eu tinha copiado a pauta, da Folha Universal.
Umas três semanas antes de completar 10 anos certinho, eles deram a matéria antecipada, com o título “Que Desgracis” ou coisa assim. E eu peguei um dos exemplares que eles distribuíam, na Mauro Ramos, ali na frente do Instituto. Imaginei que fosse ser algo moralista, uma referência ao lance do Mussum com o álcool, com lição do tipo “viram só no que dá o mé?”, mas não. Era uma matéria, bastante bem escrita, se a memória não me engana, sobre a confusão jurídica da herança, que permanecia mesmo após 10 anos. Acho que tava bloqueada e tudo. Bloqueada, no caso, a herança: a matéria tava liberada e confusão tava comendo.
Como eu não queria repetir igualzinha a pauta dos caras (até porque precisaria ir pro Rio ou São Paulo e falar com herdeiros e advogados, o que não seria possível), tentei falar com os dois trapalhões sobreviventes, Didi e Dedé pra minha, mas não rolou. Cheguei a contatar assessores, eles disseram para mandar as perguntas por e-mail, mandei. E nunca recebi resposta. Gente ligada à Globo me disse que sobre o Mussum eles não falavam mesmo, ainda mais porque era uma época em que Didi e Dedé não estavam declaradamente brigados, mas a relação não era nada boa. Não sei, não posso confirmar nada disso.
Hoje, na onda da discussão sobre o twit do Danilo Gentili, também faz todo o sentido lembrar que o tipo de humor dos Trapalhões também renderia acusações de racismo, entre outras. Afinal, Didi chamava Mussum de “grande pássaro”, “cromado”, “suco de peneu” (com essa pronúncia aí mesmo), entre várias outras. Quando era para negar alguma possibilidade, Mussum dizia “quero morrer preto se tal coisa acontecer”. Amigo meu lançou “sobre perpetuação de preconceitos: se o Costinha surgisse hoje, quanto tempo até ele tomar um processo de alguma organização lgbt?”. E aí?
Não compartilho a teoria de que “o problema é que essa piada é boa, aquela não”, isso não faz muito sentido e não é questão de quem é engraçado, se os Trapalhões ou o Danilo Gentili não ser. Acho só que passado é passado e outros tempos são outros tempos, não dá para julgar pelos nossos olhos, da mesma maneira como não dá para esperar que hoje seja igual a ontem.
Era mesmo uma época mais racista, dentro da maneira como a humanidade chegou até aqui, é normal que tenha sido. Assim como é o caso de centenas de obras de arte, várias delas preconceituosas pacas, ao longo da história. Além de sua “função” estritamente artística, essas obras e piadas ajudam a entender o que eram essa época. E apontar quando surge uma manifestação racista ajuda a entender a nossa. Talvez seja isso, mais que os 15 anos sem Mussum ou os 5 da minha matéria, que choquem no sentido de que o tempo passa.


