Archive for August, 2009

Ah, o indie…

Tuesday, August 4th, 2009

“The next song to be attempted was ‘Somebody to Love’ by the Jefferson Airplane. Again, the feedback screeched throughout, affecting the musicians’ concentration and destroying the momentum. It was a drunken débâcle, a grisly stampede. Assuming that they had cocked up their audition, the Reid brothers began to argue spitefully, almost coming to blows. At this, McGee went forward to speak to them. ‘You’re fucking genius’, he said. Do you want to make an album?’ ”

(…)

For certain lower-profile Creation artists, a change in the publicists had its benefits. Momus had always written his own press releases, handing them over to be re-typed with the obligatory eight or nine spelling and punctuation mistakes. To mark the release of his single ‘The Hairstyle of the Devil’ – a surprise Top 100 entry in April _ Barrett had arranged a press call in a hairdressing salon in Covent Garden. Wires got crossed: journalists thought they would be required to have their hair cuut by Momus, and none turned up”.

THE CREATION RECORDS STORY
My Magpie Eyes are Hungry for the Prize

David Cavanagh

A primeira vez que li esse livro foi em 2000. Não, 2001. Era a época em que “indie” deixava de ser piada das internas, pelo menos no Brasil e começava a virar essa coisa ao ponto que, nesses dias, uma dessas revistas tinha “como pegar uma indie” entre as chamadas de capa. Não lembro se era a VIP ou a Sexy.

Aí, junto com a exposição ao mundo (“quando você os ouve no programa do John Peel na Radio 1 à noite, esses discos moviam-se pelas sombras e você suspeitava que eles estariam confortáveis ou até invisíveis à luz do dia”, tá lá na introdução do livro), vem o processo natural: tipificação, estereotipificação e ridicularização. Dava para fazer piadinha com indie do mesmo jeito que com metaleiro.

Normal, não tem do que reclamar. Afinal, esse lance todo tem justamente a ver com os outros não entenderem o que a gente ouve. Quando o mundo inteiro esqueceu de como Guns é escroto e todo mundo começou a virar roqueirão de novo, qual o problema em ouvir os papinhos de “esses caras são uns frouxos” sobre o Belle and Sebastian pra quem já tinha visto a mesma coisa com os Smiths?

E assumo, orgulhoso, meu quinhão de responsabilidade. O Takeda fez outro dia o site Eu Inventei o Indie . Pois eu, como ex-integrante da Indie Brasil, atual da Poplist (desde o começo) e chegado do Midsummer Madness, ajudei a inventar. Há quem chame indie de esnobe. Um pouco de verdade, um pouco de vacilo. Não é que a gente ache melhores essas bandas desconhecidas porque são as que a gente ouve. A gente ouve porque elas são melhores. Quanto a serem desconhecidas, somos justamente os menos culpados por isso, já que estamos sempre falando delas por aí.

Por isso que agora é difícil falar desse negócio de indie. Além de ser meio indefinido, tá meio na cara pra todo mundo, né? Mas não é tão simples. Dica: se o cara vê uma placa de carro que comece com MBV, HOL ou CRE e não repara, esquece, ali não há um indie. E explicar é como querer competir com o pop mainstream nos termos desse, o que não faz o menor sentido. A única coisa em comum é, nos melhores momentos, aquela busca linda pela perfeição. Sempre achei que a arte, no seu melhor, mostra o homem buscando a transcendência não apenas APESAR dos defeitos e do seu lado instintivo e animal, mas também POR MEIO destes.

E é por isso que ainda acho que, quando ouvir a canção pop perfeita, a
guitarra vai estar meio desafinada. Mas não por querer.

My Heart’s My Badge: Poplist vê o indie

1. Talulah Gosh – Pastels Badge
2. Pastels – Nothing to Be Done
3. Jesus and Mary Chain – Upside Down
4. Telescopes – The Perfect Needle
5. Teenage Fanclub – Some People Try to Fuck with You
6. Anorak Girl – Anorak Girls
7. Urusei Yatsura – Plastic Ashtray
8. The Smiths – Panic
9. Bodines – Therese
10. Spacemen 3 – Honey
11. Primal Scream – Velocity Girl
12. Manhattan Love Suicides – Clusterfuck
13. Jasmine Minks – Cold Heart
14. Anne Bacheley – Home for Christmastime
15. Weather Prophets – Almost Prayed
16. Impossibles – How Do You Do It?
17. My Bloody Valentine – (When You Wake) You’re Still in a Dream
18. First Aid Kit – You’re Not Coming Home
19. Heikki – Former Hero
20. Boo Radleys – Wish I Was Skinny
21. Ride – Making Judy Smile
22. Felt – Primitive Painters
23. Stereolab – Crest
24. House of Love – Loneliness is a Gun
25. Flipper’s Guitar – Goodbye, Our Pastels Badges

Ele não viveu pro Verão do Hit. Um ano hoje.

Monday, August 3rd, 2009

No dia 22 de janeiro do ano passado, ele disse: “Animal Collective é o novo Velvet Underground. O futuro os dará o devido crédito como o ápice criativo na música dos anos 00”. Eu ri. E disse “é bom para a gente saber que o Lucianetti também é humano, também erra”. Depois, quando ele explicou que nem falava em ser tão bom quanto o Velvet, mas principalmente de estar fadado ao reconhecimento tardio, eu respondi que “vai ser aquela que toca na Trash 00s e a raça só fica na pista se estiver quase pegando a catenha”. Gas me apoiou e classificou minha piadinha como “brilhante ilustração da real”.

Aí chegou o dia 3 de agosto do ano passado, um domingo. Mas só fui ler a notícia no dia seguinte, uma segunda-feira, como hoje. Enviada pelo Fabito, que acrescentou: “diz que é coincidência, pelo amor de Deus”. Não era. Foi na poplist que avisei o pessoal e logo a notícia se espalhou, chocando muita gente que nem conhecera o Rodrigo pessoalmente. Eu mesmo só o encontrei uma meia dúzia de vezes, mas naquele dia fui pro jornal e a única coisa que consegui escrever foi esse post no Tra-la-lá.

Não ia dar para escrever de novo o quanto o cara era foda, ainda mais porque bastante gente escreveu a respeito, então nem vou repetir tudo aqui. Mas o primeiro post que li foi o da Flávia, de lá dá para achar vários outros, é só seguir. Recomendo particular atenção à entrevista que o Custódio colocou. Uma das coisas que lembrei foi a reafirmação de uma máxima sobre como são duradouras amizades iniciadas em lojas de discos. Porque elas não dependem de muito vínculo, de estilo de vida, mas de uma paixão comum. Mais ainda, de uma paixão, a música, que, por sua própria natureza, envolve a vontade de compartilhar e dividir. No meu caso, conheci o Lucianetti na Revolution, uma locadora/importadora que ajudou a mudar Florianópolis no começo dos anos 1990. Ele estava indo pegar um CD que tinha mandado vir de uma banda de que eu tinha ouvido falar na indie-brasil, em e-mail do Custódio: era o Life, dos Cardigans.

Como se uma notícia daquelas não fosse suficiente, outras coisas contribuíram para que  fosse uma semana bastante atípica. Na noite da mesma segunda-feira, recebi o convite para voltar a morar em São Paulo e pedi até o fim de semana para responder. Na terça, uma baleia com seu filhote no Morro das Pedras e uma pauta no Arante, no Pântano do Sul, me fizeram querer recusar a proposta e ficar. Nos dias seguintes, a BR-101 decidiu por mim e topei voltar à metrópole.

E naquele sábado e domingo era meu último plantão de fim de semana no jornal. Acabei encarregado de cobrir a passeata em homenagem a ele. Fiquei meio de lado, o mais discreto que alguém pode permanecer quando se está de crachá e acompanhado de fotógrafo e carro de jornal. Até que lá pelas tantas, após a subida da bicicleta fantasma, alguém me avisou: a mãe do Rodrigo queria falar comigo. Confesso que fiquei nervosíssimo, mas, claro, lá fui eu. Dona Vera contou que tinha lido o minitexto que escrevi no blog e me deixou felizão de saber que ela tinha gostado. Convidou-me para a missa de sétimo dia, naquela mesma tarde, e ainda me deu a honra de cuidar de alguns dos discos da famosa coleção do Lucianetti.

Conhecendo a família, ficou bastante evidente que ele não tinha como não ser o tipo de gente que era. Ela contou que costumava colocar Beethoven para ele ouvir ainda no berço. Dos momentos que Dona Vera lembrou, fiquei particularmente comovido com dois: o primeiro foi de quando ele continuava a encomendar discos, mesmo após dizer para a Francini (a esposa, sempre ao lado nas provas de Iron Man e nas viagens) que iria maneirar. Aí fazia o pedido, mandava entregar no endereço da mãe e ia buscar dizendo que estava apenas indo resgatar algo da antiga coleção.

E também ele sempre dizia, meio brincando, já que parecia uma possibilidade distante, que queria, quando chegasse seu funeral, que tocasse Beatles. “E eu estava lá, no enterro, e comecei a ouvir Beatles. Tudo já estava tão estranho, irreal, então parecia que era um sonho”, me contou. Mas à medida em que caminhava para fora do cemitério, a música aumentava ao invés de diminuir. Foi quando ela viu que os irmãos haviam encostado o carro do lado de fora do Jardim da Paz com o som ligado e chamado os Fab Four para se juntarem à homenagem ao Rodrigo. Tenho certeza de que eles também ficaram honrados em cantar pra ele.

Nas semanas seguintes, mudei-me para São Paulo. Até tentaram roubar a bicicleta-homenagem, mas ela continua lá na estrada de Jurerê, bem cuidada. Tá até com um jardinzinho, com o capricho merecido. Em dias de céu azul como hoje, fica particularmente bonito.

foto: Fábio Carbone

foto: Fábio Carbone

Passou o tempo, chegaram o final do ano e o verão 2008/2009. Assim que começou a circular “Brother Sport”, do disco novo do Animal Collective, o Gas cravou: “Hit do Verão”. Não levei muita fé, tanto que levou três ouvidas para eu confirmar e aceitar o que percebi logo na primeira: hit do verão. Foi com “Brother Sport” que eu e o Klaus recepcionamos 2009 na pista da Neu e aí depois eu saquei que o disco todo é bonzaço e fui sacar os anteriores. Ou reconhecer tardiamente, como preferirem. Talvez o Lucianetti fosse rir e dizer “ah, eu disse, não disse?”, mas pior é que acho que não. Support your brother era com ele mesmo. De novo: valeu, mestre.