Estava bem fácil ser pessimista e não é só que os Beatles tinham terminado. O que parecera que podia substituir os rapazes também já perdia a força. O glam rock e o agito de cantores-compositores, por exemplo, desgastaram-se enquanto movimento ou núcleos coletivos de criação. Os dias mais revolucionário do progressivo e do hard rock também haviam ficado para trás. O power pop tropeçava nas brigas internas dumas bandas e nas frustrações pela ausência de sucesso de outras. Quer dizer, a década de 70 nem chegara na metade ainda e quase todos os seus signos estéticos mais representativos já eram.
Pelos lados de cá, o mesmo valia para a Jovem Guarda e a Tropicália. Até os Mutantes tinham ido por água abaixo. Não era só. Foi em 1974 que Pelé abandonou de vez o futebol profissional; nem quis participar da Copa daquele ano. O time acusou o golpe e sofreu as consequências. A derrota para a Holanda, bem num período miserável de ditadura militar, foi a primeira de uma série de cinco decepções em Copa. A gente ainda não sabia, mas seria o mesmo número de copas perdidas pré-1958, que nos ajudou a desenvolver o complexo de vira-latas. Parecia que as coisas morriam diante dos olhos do mundo.
Só que em 1974 um jovem quarteto nova-iorquino chamado Neon Boys convenceu o dono de um clube da cidade, chamado CBGBs, a receber shows de rock. Foi ali que, no mesmo ano, um outro quarteto, chamado Ramones, estreou. Em 1974, o escândalo Watergate derrubou o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, e ajudou a encerrar a Guerra do Vietnã. A vitória de Mohammad Ali sobre George Foreman no Zaire e a ascenção do novo funk (que logo seria chamado de discotéque) renovavam o orgulho negro e ajudavam a simbolizar como as conquistas dos direitos civis não tinham por que recuar.
No Brasil, a aparente desorganização dos movimentos dava ao país artistas mais maduros, menos vinculados a ditames estéticos. A ditadura começava a se ver insustentável a longo prazo e o novo presidente, Ernesto Geisel, assumiu falando de abertura política, mesmo que “lenta e gradual”. No mesmo ano, aquele jovem que chegara ao Flamengo como promessa em 1967 finalmente se estabelece de vez no time titular e lidera a conquista do campeonato carioca. Era o começo da montagem de uma era de ouro.
Havia muito o que fazer. Não era hora de contar mortos. Era hora de nascer.
1. Erasmo Carlos – Sou uma Criança, Não Entendo Nada
2. Neil Young – Walk On
3. Kiss – Nothin’ to Lose
4. Lula Côrtes e Zé Ramalho – Harpa dos Ares
5. Gene Clark – The True One
6. Leonard Cohen – Who by Fire
7. Zé Rodrix – Um Rock pras Futuras Gerações
8. New York Dolls – Puss ‘n Boots
9. Big Star – September Gurls
10. Raul Seixas – O Trem das 7
11. Linda Ronstadt – When Will I Be Loved?
12. Brian Eno – Taking Tiger Mountain
13. Secos & Molhados – Flores Astrais
14. Flaviola e o Bando do Sol – Palavras
15. Elton John – The Bitch Is Back
16. John Lennon – Whatever Gets You Thru the NIght
17. Ednardo – A Palo Seco
18. The Raspberries – Overnight Sensation
19. John Cale – Fear Is a Man’s Best Friend
20. Kraftwerk – Morgenspaziergang
21. Chico Buarque – O Filho que Eu Quero Ter


