Archive for March, 2010

1974: sou uma criança, não entendo nada

Monday, March 8th, 2010

Estava bem fácil ser pessimista e não é só que os Beatles tinham terminado. O que parecera que podia substituir os rapazes também já perdia a força. O glam rock e o agito de cantores-compositores, por exemplo, desgastaram-se enquanto movimento ou núcleos coletivos de criação. Os dias mais revolucionário do progressivo e do hard rock também haviam ficado para trás. O power pop tropeçava nas brigas internas dumas bandas e nas frustrações pela ausência de sucesso de outras. Quer dizer, a década de 70 nem chegara na metade ainda e quase todos os seus signos estéticos mais representativos já eram.

Pelos lados de cá, o mesmo valia para a Jovem Guarda e a Tropicália. Até os Mutantes tinham ido por água abaixo. Não era só. Foi em 1974 que Pelé abandonou de vez o futebol profissional; nem quis participar da Copa daquele ano. O time acusou o golpe e sofreu as consequências. A derrota para a Holanda, bem num período miserável de ditadura militar, foi a primeira de uma série de cinco decepções em Copa. A gente ainda não sabia, mas seria o mesmo número de copas perdidas pré-1958, que nos ajudou a desenvolver o complexo de vira-latas. Parecia que as coisas morriam diante dos olhos do mundo.

Só que em 1974 um jovem quarteto nova-iorquino chamado Neon Boys convenceu o dono de um clube da cidade, chamado CBGBs, a receber shows de rock. Foi ali que, no mesmo ano, um outro quarteto, chamado Ramones, estreou. Em 1974, o escândalo Watergate derrubou o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, e ajudou a encerrar a Guerra do Vietnã. A vitória de Mohammad Ali sobre George Foreman no Zaire e a ascenção do novo funk (que logo seria chamado de discotéque) renovavam o orgulho negro e ajudavam a simbolizar como as conquistas dos direitos civis não tinham por que recuar.

No Brasil, a aparente desorganização dos movimentos dava ao país artistas mais maduros, menos vinculados a ditames estéticos. A ditadura começava a se ver insustentável a longo prazo e o novo presidente, Ernesto Geisel, assumiu falando de abertura política, mesmo que “lenta e gradual”. No mesmo ano, aquele jovem que chegara ao Flamengo como promessa em 1967 finalmente se estabelece de vez no time titular e lidera a conquista do campeonato carioca. Era o começo da montagem de uma era de ouro.

Havia muito o que fazer. Não era hora de contar mortos. Era hora de nascer.

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1. Erasmo Carlos – Sou uma Criança, Não Entendo Nada
2. Neil Young – Walk On
3. Kiss – Nothin’ to Lose
4. Lula Côrtes e Zé Ramalho – Harpa dos Ares
5. Gene Clark – The True One
6. Leonard Cohen – Who by Fire
7. Zé Rodrix – Um Rock pras Futuras Gerações
8. New York Dolls – Puss ‘n Boots
9. Big Star – September Gurls
10. Raul Seixas – O Trem das 7
11. Linda Ronstadt – When Will I Be Loved?
12. Brian Eno – Taking Tiger Mountain
13. Secos & Molhados – Flores Astrais
14. Flaviola e o Bando do Sol – Palavras
15. Elton John – The Bitch Is Back
16. John Lennon – Whatever Gets You Thru the NIght
17. Ednardo – A Palo Seco
18. The Raspberries – Overnight Sensation
19. John Cale – Fear Is a Man’s Best Friend
20. Kraftwerk – Morgenspaziergang
21. Chico Buarque – O Filho que Eu Quero Ter

1987 em 39 canções

Thursday, March 4th, 2010

Essa fez parte de outro projeto, o Poplist vê a história da música. Como o link da coletânea estava fora do ar, aproveitei pra subir aqui também.

Vocês vão notar a predominância de bandas gaúchas entre as nacionais selecionadas. Mas é que faz sentido, ainda mais em se tratando de 1987. Na prática, o ano acabou aos 33 do segundo tempo daquele jogo do dia 2 de dezembro, quando o Ailton roubou a bola no meio e esticou pra ele. “Um último esforço”, gritou Galvão, e lá foi ele, driblando zagueiro, goleiro, empurrando pro fundo do gol e correndo, com o dedo indicador sobre os lábios, em direção à torcida que lotava o Mineirão, mas, principalmente, a Telê Santana. Duma vez só, Renato consagrou a comemoração “cala-boca” e terminou a pendenga que o técnico iniciara em 1986.

O ano acabou porque todo mundo sabia que passar pelo Inter seria mera formalidade. E foi, com mais dois do Bebeto. O último título de Zico com a camisa do Mais Querido. Foi quando o time assumiu uma liderança isolada no número de títulos brasileiros que manteve por 20 anos, até que passou a ter companhia. O engraçado é que a vaga nas semifinais foi conquistada com um desempenho sensacional dEle contra o Santa Cruz, quando fez três gols. E, lá no comecinho do ano, o Flamengo perdera, nessa ordem, para Santa Cruz e Atlético-MG.

O Flamengo tetra-campeão não foi escolhido à toa pra ilustrar o volume We Don’t Serve Your King. Afinal, se o nome da coletânea fala em desobedecer e está relacionado a 1987, não há como esquecer o time que representa a negação do Clube dos 13 em seguir a ordem maluca da CBF sobre um torneio que não soube organizar. Até hoje querem tirar do Flamengo um campeonato brasileiro que certamente ganharíamos se fôssemos jogar com Sport e Guarani; mas quem conhece a história do futebol brasileiro sabe o quanto foi importante a negativa.

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1. The Dead Heart – Midnight Oil
2. New Direction – Echo and the Bunnymen
3. Show me the Way – Dinosaur Jr
4. A Revolta dos Dândis II – Engenheiros do Hawaii
5. You’re Gonna Get Yours – Public Enemy
6. Good Times – Hoodoo Gurus
7. Just Like Heaven – The Cure
8. Son of a Gun – Vaselines
9. V.C.D.M.S.A – Ratos de Porão
10. Downtown – The Justified Ancients of Mu Mu
11. You Make My Head Explode – Groovy Little Numbers
12. Stop Killing Me – Primitives
13. Sodomia – De Falla
14. Always on My Mind – Pet SHop Boys
15. Sally Cinnamon – Stone Roses
16. Menstruada – Os Cascavelletes
17. Tiny Daggers – INXS
18. Once Upon a Long Ago – Paul McCartney
19. Sad as Sunday – The Rosehips
20. About You – The Jesus and Mary Chain

Foi também em 1987 que a Ana Paula Padrão começou na Globo, que Fellini fez “Entrevista”, que a Microsoft lançou o Excel, que a Taís Totti nasceu, que Reagan e Oliver North insistiram que “não lembravam” de nada sobre o escândalo de repassar aos contras da Nicarágua o dinheiro da venda de armas pro Irã, que o Bresser assumiu no lugar do Funaro. Morreram Rita Hayworth, Fred Astaire, Clementina de Jesus, Andres Segovia (desse o meu professor de violão clássico havia falado, naquele mesmo ano, e me emprestou fitas para ouvir), John Houston, Gilberto Freyre, mas também o Rudolf Hess e o Golbery. E o Carlos Drummond de Andrade, que, meses antes escreveu seu último poema: “Elegia a um tucano morto”. Ah, se ele soubesse.

Em 1987 o Cure e o Echo vieram ao Brasil pela primeira vez. “Daqui a pouco tu não liga mais pra esse pessoal”, disse minha mãe, frustrando minha insistência em ir com a excursão pro show dos caras em Porto Alegre (olha a gauchada de novo). Pro Echo eu nem tentei, mas fiquei impressionadíssimo com aquele show que a TV Manchete transmitiu. Foi quando me empolguei em ir mais a sério atrás de Doors, Stones, Leonard Cohen, David Bowie e Wilson Pickett: metade foi coverizada no show, metade citada na entrevista do Ian McCulloch, feita pela Milena Ciribelli, então novinha, novinha. Com o tempo, o famoso show do Canecão do Echo em 1987 ganhou reputação quase mítica e eu sempre soube por que. Continua sendo meu “show em que iria se tivesse uma máquina do tempo”.

Foi também quando larguei de usar meus óculos de 0.25 grau. E quando pela primeira vez tive aula de matemática com o prof Pedro Ivo, com seu bordão “deu pra entender?”, mas só no segundo semestre. No primeiro era o Totonho, figuraça. Foi também em 1987 que o time formado por Cachaça, Alysson e Fábio (Mutley surgiu também naquele ano, mas nas férias de julho e, até 1991, apenas nos limites do Doze de Jurerê) estabeleceu o recorde do TORNEIO INTELECTUAL das Olimpíadas do colégio. Mesmo assim, continuamos lamentando o vice no futebol de campo.

O título Deu Pra Entender?, do outro volume (não tem ordem de primeiro e segundo), homenageia, claro, o Pedro. Mas também a doideira daqueles tempos, protagonizada, entre outros, pelo senhor da capa.

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1. Red Hot Chili Peppers – Fight Like a Brave
2. Replicantes – Astronauta
3. Sonic Youth – Schizophrenia
4. Bodines – Skankin Queens
5. Ultraje a Rigor – Sexo
6. Prince – I Could Never Take the Place of Your Man
7. The Weather Prophets – She Comes From the Rain
8. M/A/R/R/S – Pump Up the Volume
9. The Pastels – Crawl Babies
10. Lobão – Chorando no Campo
11. Noel – Silent Morning
12. The Smiths – Girlfriend in a Coma
13. Talulah Gosh – The Girl with the Strawberry Hair
14. New Order – True Faith
15. Fellini – Teu Inglês
16. TNT – Estou na Mão
17. Pixies – The Holiday Song
18. REM – It’s the End of the World as We Know It (and I Feel Fine)
19. My Bloody Valentine – Never Say Goodbye