Archive for January, 2011

Sonoridade e autoconhecimento

Thursday, January 27th, 2011

Ser envolvido em projeto legal sempre é bom pacas. Quando, ainda por cima, o projeto legal é de amigo, só melhora. Por isso eu fiquei todo felizão quando o Isaac me convidou pra participar da divulgação do Mapuche. A primeira coisa que fiz foi o release ali embaixo:

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Mapuche é o novo projeto individual de Isaac Varzim, integrante do Superpose e figura fundamental na cena eletrônica de Florianópolis, como músico, produtor e DJ. Mas o disco de estréia do projeto, previsto para ser lançado em março, privilegia sonoridades introspectivas e intimistas, com arranjos delicados, andamentos mais lentos e atmosfera musical orgânica e calorosa.

Os Mapuche são um povo indígena sul-americano, hoje localizados principalmente no Chile e Oeste da Argentina. Sobreviveram primeiro às guerras com os incas e outros povos, depois a mais de 300 anos de guerras com os espanhóis e, por fim, à anexação de suas terras pelos países em que vivem atualmente; são cerca de 900 mil indivíduos. Uma das razões para essa sobrevivência foi nunca terem aceitado os outros nomes pelos quais demais povos queriam chamá-los. Nunca aceitaram que outros lhes definissem a identidade. Isaac Varzim ainda não sabia disso quando escolheu esse nome para batizar seu novo projeto pessoal. Até então, era só a palavra que viu, em um quadro que encontrou perto de sua casa, na Costa da Lagoa, em Florianópolis, e de cuja sonoridade gostou. Afinal, a sonoridade é um dado fundamental para o projeto.

Atmosfera musical orgânica e pouco ortodoxa

Mas conhecimento sobre a própria identidade também é. Varzim ficou mais conhecido nos últimos anos pelo duo Superpose (que participou do projeto Subtropics, reunindo os três principais nome da música eletrônica da capital catarinense no fim dos anos 00) e pela atuação na noite florianopolitana, como DJ e promotor de festas. O disco de estreia do Mapuche, entretanto, troca as pistas e o som dançante por uma música mais introspectiva e canções com andamento mais lento e “estruturas musicais que não respeitam muito o formato pop, apesar de serem bem easy listening para o ouvido desavisado”, como define. A duração de todas varia entre 4m30seg e 6min36seg.

A ressalva à acessibilidade é importante, porque apesar da pouca ortodoxia e da delicadeza da construção musical de Varzim, a atmosfera musical é orgânica e calorosa, com arranjos que utilizam recursos eletrônicos e acústicos indistintamente. Os violões, bandolins e alguns vocais, por exemplo, foram gravados em Curitiba, no porão de uma igreja luterana centenária “com uma vibe absurda”, conta o músico. O registro de saxofone e bombardino foi feito na sala de ensaio da orquestra de metais Paraná Brass. Sobre o bombardino, se for conversar com Deddos, que é o principal músico brasileiro do instrumento e tocou-o no disco, é recomendável chamar pelo nome certo,  Euphonium, pois há diferença, ainda que sutil. O baixo também foi gravado na capital paranaense, na casa do baixista Kiko, e os demais instrumentos e vozes na casa de Varzim, em Florianópolis, ao longo dos últimos dois anos. Ele é formado em composição e regência na Faculdade de Belas Artes de Curitiba.

Primeiro single: 8 de fevereiro

A liberdade de formatos e a ausência de compromisso com música dançante também serão explorados daqui em diante por Varzim para as próximas criações do Mapuche, tanto em estúdio quanto ao vivo, em diferente formações e possibilidades. O primeiro single do disco, “She Unsaid” (lançamento: 8 de fevereiro, acompanhado de remixes de Edu K, Our Gang, Bloodshake and Muniques ), com sua condução crescente e gentil, a batidas quebrada e a sutileza das camadas de vocais, é a amostra inicial da riqueza do disco, apesar de não encapsulá-lo completamente. O lançamento do álbum é no dia 15 de março. Mas, até lá, pistas, surpresas e outros estarão disponíveis no website do projeto.

Músicas:

1. Islands

2. Lullaby

3. Make It Easier

4. Nothing Here

5. On My Knees

6. Sanctity

7. She Unsaid

Músicos:

Isaac Varzim – programações, vocais, violões, piano e viola caipira

Kiko – baixo e saxofone

Deddos – euphonium

Marcell Steuernagel – violão de nylon e bandolim

Jaguarito – guitarra

Paula Felitto – vocais femininos

Há 10 anos, eu vi Neil Young

Thursday, January 20th, 2011

Neil Young e o Crazy Horse ao vivo: sangue e intensidade

Os uivos da guitarra e o sangue. É principalmente isso. Naquela noite, Neil Young tinha 55 anos de idade, quase 35 de carreira, uma obra incontestável e definitiva e dedos calejados, sem mais nada a provar. Também não tinha mercadoria alguma a ser promovida: seu disco de estúdio mais recente fora lançado 20 meses antes, o seguinte sairia apenas um ano depois. Um eventual show burocrático logo seria esquecido sem maiores consequências. Mas em “Like a Hurricane” ele puxou as cordas de sua guitarra com tanta força e paixão que várias delas arrebentaram e a pele se rasgou. Enquanto ele executava um dos grandes clássicos do rock, acompanhado do Crazy Horse, seus mais clássicos cúmplices, o sangue saía dos dedos como se viesse da alma. E me mostrou, a poucos metros, que a arte, por mais generosa, é uma musa plena de caprichos e exigências de comprometimento, para quem a inconsequência é uma risível impossibilidade.

Na época do terceiro Rock In Rio, quando ele veio ao Brasil pela primeira vez, eu morava em São Paulo e costumava colaborar com a Bizz. Da mesma maneira que para boa parte dos jornalistas musicais da minha idade, “escrever na Bizz” era um negócio muito especial para mim, que cresci lendo, aprendi pra cacete e fui fortemente influenciado por uma certa “consciência” pós-punk da revista, especialmente em seus primeiros anos. Então, apesar de não sinalizar isso em momento nenhum, muito menos me oferecer ou pedir, é claro que eu tava a fim de ser convocado para a cobertura do festival. MUITO a fim. Mas não rolou. Paciência. Comprei meu ingresso, na Renner do Beiramar Shopping (R$ 30!), e fui felizão como público.

“A arte é uma musa plena de caprichos e exigências de comprometimento, para quem a inconsequência é uma risível impossibilidade”

No seguinte, quando acordei, a primeira coisa (e provavelmente a última) que consegui pensar sobre o que tinha visto na madrugada anterior foi “que sorte a minha não ter que escrever sobre o show do Neil Young ontem”. Antes de ver o show, me pareceria uma tarefa dos sonhos. Depois de ver, parecia impossível descrever com alguma sobriedade o que foi aquilo, explicar para os leitores como foi, o que aconteceu. O texto da Bizz, por exemplo, dizia algo como “descrever o que foi aquilo é para um Nelson Rodrigues, não para amadores como nós. A gente pode descrever, dizer que músicas foram tocadas e tal, mas não vai dar a medida”. Tem inteiro e direitinho aqui. Já o Matias foi pra outro lado para conseguir.

Mas não é só. Também eu certamente não queria racionalizar, reduzir tudo aquilo a palavras e pensamentos com um mínimo de objetividade. Até hoje, ainda não quero, nunca tentei. Fiquei felicíssimo de poder manter para mim o mistério do que foi, antes de tudo, uma epifania sensorial. Deve ser por isso que, a cada vez, me emociono igual. A cada vez que perco um show que tava a fim pacas de ver (e olha que eu perco show a rodo), lembro do Neil Young e aparece um sorriso na minha cara. Parece meio ridículo, mas desde então eu nunca mais tive o lance de PRECISAR ir nesse ou naquele show. Já fui em vários outros excelentes, mas a impressão é que, de uma certa forma, a missão já foi cumprida.

Os textos do Tomate e do Matias e mais o do Scream & Yell, que encontrei agora,  informam os horários, a ordem em que as músicas foram tocadas e que elas se estendiam e chegavam a 13 minutos, a 17 minutos, essas coisas. Não sei nada disso, não teria como saber na hora. Se me disserem que durou seis horas eu acredito, se me disserem que foram quarenta minutos eu acredito também. Mas, claro, lembro de algumas coisas.

Lembro de chegar na Cidade do Rock quando tocavam os Engenheiros. Pensei: “quero ver o Neil Young da grade, vou já pra briga”. Felizmente a Liana tava comigo e disse “nah, vamos depois, vai ser tranquilo”. Quase sempre ela tá certa, então concordei. Ela tava certa. Era o menor público de todo o festival, umas 150 mil pessoas no total. Tocou o Dave Matthews e, quando terminou a Sheryl Crow, era hora da aproximação. A Liana quase sempre tá certa, mas eu não podia esperar que fosse tanto. À medida que todo mundo ia embora depois da Sheryl, comecei a ficar puto e gritar “porra, vocês estão malucos, é o Neil Young que vai tocar agora”.

Lembro que, durante a tarde, encontrei pela Cidade do Rock o Marcelo Peixoto e perguntei pelo Domingos. Não tinha visto. “Só o que faltava ele não ter vindo”, pensei. Lembro que, quase na hora do show, encontrei o Pablo e, lá na grade, encontrei o Andrey Freitas e vimos tudo aquilo juntos. Lembro que depois do show a Fabiana trouxe, finalmente, o Domingos e nenhum de nós conseguiu falar coisa alguma. Só pudemos dividir um abraço.

Lembro do começo inacreditável, já com “Sedan Delivery”. Lembro de “Hey Hey My My” e “Rockin’ in the Free World” mais lentas. Lembro de “Cortez the Killer” transformar-se, a princípio hesitante, em “Like a Hurricane”. Enquanto Neil cantava “that perfect feeling when time just slips away between us and our foggy dreams” em meio às microfonias de guitarra e som quase celestial do teclado, a sensação de irrealidade e sonho, acentuada pela visão do sangue, era tão forte que só a intensidade dela própria impedia o momento de também esvanecer-se, como se depois eu não fosse saber se aquilo aconteceu mesmo.

Mas aconteceu. Lembro também que há exatos 10 anos, em 20 de janeiro de 2001, Neil Young sangrou na minha frente para fazer o show da minha vida. E isso eu nunca vou esquecer.

O melhor de 2010

Friday, January 7th, 2011

De novo, mas agora direito, né?

http://www.mediafire.com/?wfijuci743yyzwe

1. Teenage Fanclub – Baby Lee
2. Amanda Applewood – Pretend (We’re In Love)
3. Elf Power – Stranger in the Window
4. Neil Young – Angry World
5. Tanlines – Real Life (World Cup Remix)
6. Vampire Weekend – Cousins
7. Holger – Beaver
8. Crystal Castles feat. Robert Smith – Not in Love
9. El Guincho – Bombay
10. Cee Lo Green – Fuck You
11. Harlem – Friendly Ghost
12. Wavves – Post Acid
13. Dr. Dog – Shadow People
14. Kate Nash – Do Wah Doo
15. Matt & Kim – AM/FM Sound
16. Dirty Gold – California Sunrise
17. Tame Impala – Solitude Is Bliss
18. Robyn – Dancing on My Own
19. Dum Dum Girls – Jail La La
20. The Divine Comedy – At the Indie Disco

Os 15 discos e 20 músicas de 2010

Monday, January 3rd, 2011

Os 15 discos

1. Neil Young – Le Noise

A um minuto e cinqüenta segundos da primeira faixa, “Walk With Me”, a voz e a guitarra se confundem, quase se tornando um só som. O momento epitomiza não só o disco, mas a carreira inteira de Neil Young, como se todos os clássicos que ele fez na vida fossem tentativa e preparação para chegar a isso: cantor, voz, músico, canção, guitarra, compositor, tudo uma coisa só. É essa plenitude é o grande trunfo de Le Noise.

Para chegar a ela, todas as partes cederam. Não é um disco de canções (apesar delas estarem lá), é uma paisagem sonora, mas mesmo a separação entre elétrico e acústico é sutilíssima, assim como os efeitos de timbragem e repetição, provavelmente cria do produtor Daniel Lanois, que tornam tudo ainda mais onírico e irreal. É como se todos os componentes da música de Young tivesse se desmaterializado em nome dessa unidade quase etérea.

Ao mesmo tempo em que volta à simplicidade de um disco de blues antigo, brinca com escalas médio-orientais, ele olha para sua carreira e biografia. As letras, sejamos francos, são a parte que precisamos perdoar. O descritivismo cru e sem poesia dá saudade da beleza evocativa que Young já não parece mais ser capaz de criar. Por outro lado, a majestade simples e quase mágica que Le Noise transpira também nos lembra de que nem Neil Young nem a música de guitarras estão esgotados ainda.

2. Sheepdogs – Learn & Burn
3. Titus Andronicus – The Monitor
4. Elf Power – Elf Power
5. Chromeo – Business Casual
6. Grinderman – 2


7. Holger – Sunga

“Já tentou abraçar o mundo todo de uma vez só?”. Não é simples e, na verdade, o Holger não consegue. Aqui e ali, o olho fica maior do que a barriga e faltam ganchos melódicos para a fusão de indie rock, axé, afro, psicodelia, new wave, modernices, pós-punk e mais um monte de coisa ser tão contagiante como deveria. Na verdade, Sunga nem teria como corresponder a sua promessa.

Mas o encanto da tentativa é fascinante, como o de observar uma criança descobrir o mundo a seu redor, testar sem medo os seus limites, o tamanho dos braços, o equilíbrio. Esse período irrepetível, em que até os tombos e eventuais machucados têm graça, já seria suficiente para o disco merecer a torcida.

E aí vêm os gols. Quando acertam, como em “Toothless Turtle” (essa podia até ser do INXS na época em que era fodão), “No Brakes”, “Let’em Shine Below”, “Beaver”, “She Dances” e “Eagle”, é caso pra júbilo. E pra escolher Sunga como o disco brasileiro mais legal de 2010.

8. Harlem – Hippies
9. The National – High Violet
10. Avey Tare – Down There
11. Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy
12. Tame Impala – Innerspeaker
13. Ariel Pink’s Haunted Graffiti – Before Today
14. LCD Soundsystem – This Is Happening
15. MGMT – Congratulations

As 20 músicas

1. Teenage Fanclub – Baby Lee
2. Amanda Applewood – Pretend (We’re In Love)

Na verdade, poderia ser o contrário, as duas são fácil a melhor música do ano. Sobre “Pretend (We’re In Love)” a gente já falou aqui  no Tico-tico. E “Baby Lee” é daquelas músicas pop gloriosas, nada menos do que se espera do Teenage Fanclub, que sempre é muito. Tão boa, mas tão boa, que fez Shadows, o disco novo, soar fraquinho em comparação e ficar de fora da nossa lista. Acontece. Tem aqui o link pra baixar a música.

3. Elf Power – Stranger in the Window
4. Neil Young – Angry World
5. Tanlines – Real Life (World Cup Remix)
6. Vampire Weekend – Cousins
7. Holger – Beaver
8. Crystal Castles feat. Robert Smith – Not in Love
9. El Guincho – Bombay
10. Cee Lo Green – Fuck You
11. Harlem – Friendly Ghost
12. Wavves – Post Acid
13. Dr. Dog – Shadow People
14. Kate Nash – Do Wah Doo
15. Matt & Kim – AM/FM Sound
16. Dirty Gold – California Sunrise
17. Tame Impala – Solitude Is Bliss
18. Robyn – Dancing on My Own
19. Dum Dum Girls – Jail La La
20. The Divine Comedy – At the Indie Disco