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Há 10 anos, eu vi Neil Young

Thursday, January 20th, 2011

Neil Young e o Crazy Horse ao vivo: sangue e intensidade

Os uivos da guitarra e o sangue. É principalmente isso. Naquela noite, Neil Young tinha 55 anos de idade, quase 35 de carreira, uma obra incontestável e definitiva e dedos calejados, sem mais nada a provar. Também não tinha mercadoria alguma a ser promovida: seu disco de estúdio mais recente fora lançado 20 meses antes, o seguinte sairia apenas um ano depois. Um eventual show burocrático logo seria esquecido sem maiores consequências. Mas em “Like a Hurricane” ele puxou as cordas de sua guitarra com tanta força e paixão que várias delas arrebentaram e a pele se rasgou. Enquanto ele executava um dos grandes clássicos do rock, acompanhado do Crazy Horse, seus mais clássicos cúmplices, o sangue saía dos dedos como se viesse da alma. E me mostrou, a poucos metros, que a arte, por mais generosa, é uma musa plena de caprichos e exigências de comprometimento, para quem a inconsequência é uma risível impossibilidade.

Na época do terceiro Rock In Rio, quando ele veio ao Brasil pela primeira vez, eu morava em São Paulo e costumava colaborar com a Bizz. Da mesma maneira que para boa parte dos jornalistas musicais da minha idade, “escrever na Bizz” era um negócio muito especial para mim, que cresci lendo, aprendi pra cacete e fui fortemente influenciado por uma certa “consciência” pós-punk da revista, especialmente em seus primeiros anos. Então, apesar de não sinalizar isso em momento nenhum, muito menos me oferecer ou pedir, é claro que eu tava a fim de ser convocado para a cobertura do festival. MUITO a fim. Mas não rolou. Paciência. Comprei meu ingresso, na Renner do Beiramar Shopping (R$ 30!), e fui felizão como público.

“A arte é uma musa plena de caprichos e exigências de comprometimento, para quem a inconsequência é uma risível impossibilidade”

No seguinte, quando acordei, a primeira coisa (e provavelmente a última) que consegui pensar sobre o que tinha visto na madrugada anterior foi “que sorte a minha não ter que escrever sobre o show do Neil Young ontem”. Antes de ver o show, me pareceria uma tarefa dos sonhos. Depois de ver, parecia impossível descrever com alguma sobriedade o que foi aquilo, explicar para os leitores como foi, o que aconteceu. O texto da Bizz, por exemplo, dizia algo como “descrever o que foi aquilo é para um Nelson Rodrigues, não para amadores como nós. A gente pode descrever, dizer que músicas foram tocadas e tal, mas não vai dar a medida”. Tem inteiro e direitinho aqui. Já o Matias foi pra outro lado para conseguir.

Mas não é só. Também eu certamente não queria racionalizar, reduzir tudo aquilo a palavras e pensamentos com um mínimo de objetividade. Até hoje, ainda não quero, nunca tentei. Fiquei felicíssimo de poder manter para mim o mistério do que foi, antes de tudo, uma epifania sensorial. Deve ser por isso que, a cada vez, me emociono igual. A cada vez que perco um show que tava a fim pacas de ver (e olha que eu perco show a rodo), lembro do Neil Young e aparece um sorriso na minha cara. Parece meio ridículo, mas desde então eu nunca mais tive o lance de PRECISAR ir nesse ou naquele show. Já fui em vários outros excelentes, mas a impressão é que, de uma certa forma, a missão já foi cumprida.

Os textos do Tomate e do Matias e mais o do Scream & Yell, que encontrei agora,  informam os horários, a ordem em que as músicas foram tocadas e que elas se estendiam e chegavam a 13 minutos, a 17 minutos, essas coisas. Não sei nada disso, não teria como saber na hora. Se me disserem que durou seis horas eu acredito, se me disserem que foram quarenta minutos eu acredito também. Mas, claro, lembro de algumas coisas.

Lembro de chegar na Cidade do Rock quando tocavam os Engenheiros. Pensei: “quero ver o Neil Young da grade, vou já pra briga”. Felizmente a Liana tava comigo e disse “nah, vamos depois, vai ser tranquilo”. Quase sempre ela tá certa, então concordei. Ela tava certa. Era o menor público de todo o festival, umas 150 mil pessoas no total. Tocou o Dave Matthews e, quando terminou a Sheryl Crow, era hora da aproximação. A Liana quase sempre tá certa, mas eu não podia esperar que fosse tanto. À medida que todo mundo ia embora depois da Sheryl, comecei a ficar puto e gritar “porra, vocês estão malucos, é o Neil Young que vai tocar agora”.

Lembro que, durante a tarde, encontrei pela Cidade do Rock o Marcelo Peixoto e perguntei pelo Domingos. Não tinha visto. “Só o que faltava ele não ter vindo”, pensei. Lembro que, quase na hora do show, encontrei o Pablo e, lá na grade, encontrei o Andrey Freitas e vimos tudo aquilo juntos. Lembro que depois do show a Fabiana trouxe, finalmente, o Domingos e nenhum de nós conseguiu falar coisa alguma. Só pudemos dividir um abraço.

Lembro do começo inacreditável, já com “Sedan Delivery”. Lembro de “Hey Hey My My” e “Rockin’ in the Free World” mais lentas. Lembro de “Cortez the Killer” transformar-se, a princípio hesitante, em “Like a Hurricane”. Enquanto Neil cantava “that perfect feeling when time just slips away between us and our foggy dreams” em meio às microfonias de guitarra e som quase celestial do teclado, a sensação de irrealidade e sonho, acentuada pela visão do sangue, era tão forte que só a intensidade dela própria impedia o momento de também esvanecer-se, como se depois eu não fosse saber se aquilo aconteceu mesmo.

Mas aconteceu. Lembro também que há exatos 10 anos, em 20 de janeiro de 2001, Neil Young sangrou na minha frente para fazer o show da minha vida. E isso eu nunca vou esquecer.