O PLATÃO DE SCHRÖDINGER

O quanto nossa experiência da realidade é viabilizada e, ao mesmo tempo, limitada pelas nossas percepções e sentidos?

Assim, toda a incerteza e os enganos das ações humanas advêm seja da limitação de nossos sentidos, da ilusão de nossa memória, do confinamento de nossa compreensão, de forma que não é surpresa que nosso poder sobre as causas e efeitos naturais avance tão lentamente, dado que não apenas lidamos com a obscuridade e a dificuldade das coisas sobre as quais trabalhamos e pensamos, como mesmo as forças de nossas próprias mentes conspiram para nos trair. Sendo estes os perigos do processo da razão humana, os remédios a todos eles só podem proceder da filosofia real, mecânica, experimental, que tem esta vantagem sobre a filosofia de discurso e disputa, uma vez que onde esta almeja a sutileza das deduções e conclusões, sem muita consideração ao primeiro trabalho de coleta, que deve ser bem fundado nos sentidos e memória, a outra pretende ordená-las todas, tornando-as úteis uma à outra.

Robert Hooke, 1665, em “Micrographia” (via 100nexos)

Lembrei dessa citação ano passado, quando li “O Tecido do Cosmo”, de Brian Greene. O início do primeiro capítulo, “Os caminhos da realidade: O espaço, o tempo e por que as coisas são como são“, menciona Camus e resvala na alegoria da caverna de Platão (tradução de José Viegas Filho):

Na velha e empoeirada estante do meu pai não havia nenhum livro que fosse proibido. Mas, enquanto eu crescia, nunca vi ninguém consultar nenhum deles. Os livros eram, na maior parte, grossos tomos – uma história geral da civilização, uma coleção de volumes de capa igual, com as grandes obras da literatura ocidental, e tantos outros de que já não me lembro – que pareciam colados às prateleiras, ligeiramente curvada por décadas sob constante pressão. Mas lá no alto, na última prateleira, havia um livro fininho que de vez em quando chamava a minha atenção porque parecia tão fora de lugar quanto Gulliver na Terra dos Gigantes. Pensando bem, não sei por que esperei tanto tempo antes de dar uma olhada. Talvez, com o passar dos anos, os livros tenham se tornado bens de raiz da família, incorporados à paisagem doméstica, admirados em sua permanência, mais do que um material de leitura. Por fim, na minha adolescência, a atitude reverente deu lugar aos impulsos impetuosos. Subi em busca do livrinho, tirei a poeira e abri a página um. As primeiras linhas eram, para dizer o mínimo, impactantes.

“Só existe um problema verdadeiramente filosófico: o suicídio.” Assim começava o texto. Meus olhos piscaram. “Se o mundo tem três dimensões, ou se a mente tem nove ou doze categorias”, continuava, “é uma preocupação posterior.” Essas dúvidas, o texto explicava, são parte de um jogo da humanidade, mas elas só merecem atenção depois que a única questão verdadeira estiver resolvida. O livro era O mito de Sísifo, escrito pelo filósofo Albert Camus, nascido na Argélia e ganhador do Prêmio Nobel. Depois de um momento, o frio gelado das suas palavras derreteu-se à luz da compreensão. É verdade, eu pensei. Você pode ficar ponderando e analisando as coisas até cansar, mas a verdadeira questão é saber se todas as suas ponderações e análises terminarão por convencê-lo de que a vida vale a pena. Essa é a questão essencial. Tudo o mais são detalhes.

Meu encontro casual com o livro de Camus deve ter ocorrido durante uma fase em que eu me sentia especialmente impressionável, porque as suas palavras persistiram na minha mente mais do que quaisquer outras. Quantas vezes fiquei imaginando como várias pessoas que conheci, ou de quem ouvi falar, ou que vi na televisão, responderiam à mais essencial de todas as perguntas. Com o tempo, no entanto, foi a sua segunda assertiva – sobre o papel do progresso científico – que foi se revelando particularmente desafiadora. Camus reconhecia o valor de compreender a estrutura do universo, mas, no meu ponto de vista de então, ele rejeitava a possibilidade de que essa compreensão pudesse fazer qualquer diferença na nossa conclusão do valor que tem a vida. Sou o primeiro a admitir que o grau de sofisticação da minha leitura adolescente da filosofia existencialista correspondia ao apreço de Bart Simpson pela poesia romântica, mas, mesmo assim, a conclusão de Camus não deixava de me parecer deslocada. Para este aspirante a físico, parecia lógico que uma avaliação bem fundamentada da vida requeresse necessariamente um entendimento tão completo quanto possível do cenário da vida – o universo. Lembro-me de pensar que, se a nossa espécie vivesse em cavernas profundamente enterradas nas profundezas do subsolo e não conhecesse, portanto, a superfície da terra, o brilho da luz do Sol, a brisa do mar e as estrelas do céu, ou se a evolução tivesse tomado outro rumo e só possuíssemos o sentido do tato, de modo que só pudéssemos conhecer as coisas que pertencessem ao ambiente imediato, ou se as faculdades mentais dos seres humanos parassem de desenvolver-se durante a infância, de modo que a nossa capacidade emocional e analítica nunca fosse além das de um menino de cinco anos – em suma, se as nossas experiências nos propiciassem apenas uma imagem empobrecida da realidade -, a nossa avaliação da vida estaria irremediavelmente comprometida. Quando, afinal, chegássemos à superfície da terra, ou quando ganhássemos os sentidos da visão, audição, olfato e paladar, ou quando as nossas mentes estivessem finalmente livres para desenvolver-se como acontece normalmente, a nossa idéia coletiva da vida e do cosmo sofreria inevitavelmente uma mudança radical. O caráter limitado da nossa percepção anterior da realidade nos teria feito ver a mais fundamental de todas as questões filosóficas sob ângulos diferentes.

Você pode perguntar: e daí? Com certeza, qualquer avaliação sensata concluiria que, embora não possamos conhecer tudo a respeito do universo – todos os aspectos referentes ao comportamento da matéria e ao funcionamento da vida -, temos as noções básicas a respeito das pinceladas essenciais que desenharam a tela da natureza. Com certeza, como antecipa Camus, o progresso da física, como, por exemplo, o conhecimento do número das dimensões do espaço; ou o progresso da neuropsicologia, como, por exemplo, o conhecimento de todas as estruturas organizacionais do cérebro; ou ainda o progresso de qualquer outra área do conhecimento científico pode preencher importantes detalhes, mas o seu impacto sobre a avaliação que fazemos da vida e da realidade seria mínimo. Com certeza, a realidade é o que pensamos dela; a realidade nos é revelada pelas nossas experiências.

Até certo ponto, esta visão da realidade é compartilhada por muitos de nós, pelo menos implicitamente. Eu me vejo claramente entre os que pensam dessa maneira na vida cotidiana. É fácil ser seduzido pela face que a natureza revela diretamente aos nossos sentidos. Contudo, nas décadas que se seguiram à minha primeira leitura do texto de Camus aprendi que a ciência moderna nos conta uma história muito diferente. A lição essencial que emerge das investigações científicas dos últimos cem anos é a de que a experiência humana muitas vezes é um falso guia para o conhecimento da verdadeira natureza da realidade. Logo abaixo da superfície do cotidiano está um mundo que mal reconhecemos. Seguidores do ocultismo, devotos da astrologia e os que se atêm a princípios religiosos que falam de uma realidade que está além da experiência chegaram a essa conclusão há muito tempo e a partir de diferentes perspectivas. Mas não é isso o que tenho em mente. Refiro-me ao trabalho engenhoso de inovadores e pesquisadores incansáveis – os homens e as mulheres que fazem ciência – que dissecaram, folha por folha, camada por camada, enigma por enigma, a cebola cósmica, e revelaram um universo ao mesmo tempo surpreendente, estranho, impressionante, elegante e completamente diferente do que qualquer um de nós poderia esperar.

Esses desenvolvimentos não são meros detalhes. Os avanços da física nos obrigaram e continuam a nos obrigar a fazer revisões radicais na nossa concepção do cosmo. Hoje, estou tão convencido quanto estava décadas atrás de que Camus acertou ao escolher o valor da vida como a questão mais essencial, mas as descobertas da física moderna persuadiram-me de que avaliar a vida pela ótica da experiência cotidiana é como contemplar um quadro de Van Gogh através de uma garrafa. A ciência moderna disparou sucessivos golpes sobre as evidências produzidas pela nossa experiência perceptiva rudimentar, revelando que ela com freqüência gera conceitos nebulosos a respeito do mundo em que vivemos. Assim, embora Camus tenha isolado as questões da física, classificando-as como secundárias, eu me convenci de que elas são primárias. Para mim, a realidade física constrói o cenário e fornece a luz para que possamos ver bem a questão de Camus. Julgar a existência sem contemplar as concepções da física moderna é como lutar no escuro com um inimigo desconhecido. Aprofundando o nosso conhecimento da verdadeira natureza da realidade física, reconfiguramos profundamente o senso a respeito de nós mesmos e a nossa experiência do universo.

E, na verdade, o avanço da ciência revelou nos primeiros 30 anos do século XX o mundo das partículas, que rasgou e aniquilou qualquer intuição humana sobre a realidade das coisas. Até hoje, a mecânica quântica e suas interpretações são pautas para discussões infindáveis em todo o mundo entre físicos de renome. Não a toa, um dos principais contribuidores da teoria, Richard Feynman, falou certa vez que quem diz entender a mecânica quântica no fundo não entende a mecânica quântica.

O famoso experimento mental do físico Erwin Schrödinger, O Gato de Schrödinger, por exemplo, não foi proposto para validar as revelações do mundo quântico, mas ao contrário: questionar sua veracidade, pois para ele era inconcebível a existência de um mundo tão bizarro na natureza da matéria. Junto de ninguém menos que Einstein, Schrödinger foi um entre tantos cientistas (como Boris Podolsky e Nathan Rosen) que contestaram a Interpretação de Copenhagen.

Essa Interpretação, formatada inicialmente por Niels Bohr e Werner Heisenberg em 1927 na capital dinamarquesa, definia em poucos princípios o que os experimentos e a matemática revelavam sobre o universo quântico. A partir daí, se popularizaram na física e na cultura popular conceitos como “função de onda”, “dualidade onda-partícula”, “princípio da incerteza”, “princípio da complementaridade”, e outros mais loucos.

Einstein e seus colegas propuseram vários experimentos na tentiva de expôr as falhas da teoria. A “artilharia pesada” deles “contra” a mecânica quântica acabou por, “sem querer”, estabelecer a realidade quântica como verdadeira. Experimento após experimento, foram sendo confirmadas as previsões feitas pela Interpretação de Copenhagen, provando que eram corretas. Ou seja: entre as contribuições de Einstein para a teoria quântica, estão os resultados a favor dela que surgiram em experimentos que ele propôs tentando invalidá-la.

Apesar de correta, a Interpretação, as interpretações a partir dela e vários conceitos da mecânica quântica continuam polêmicos. Para se ter uma idéia da amplitude de interpretação permitida pelos princípios, o primeiro diz que “Um sistema é completamente descrito por uma função de onda Ψ, representando o conhecimento subjetivo de um observador do sistema”. Independente do significado disso para nós, meros mortais ignorantes, pense só no quanto de precisão científica um termo como “subjetivo” deve emprestar a uma fórmula matemática…

Recentemente, Luboš Motl, um físico teórico tcheco, publicou em seu blog um artigo, “Copenhagen interpretation of quantum mechanics“, que tenta resgatar, reabilitar e esclarecer as interpretações originais de 1927.

Segundo ele, desde o trabalho de Bohr e Heisenberg, surgiram e se difundiram, além de interpretações erradas, confusões e até mentiras (“Lots of fringe stuff, garbage, and crackpottery“). Entre as confusões, estaria a interpretação errada do “colapso da função de onda”, que induz as pessoas a pensar que o experimento de Schrödinger trata de um gato que, dentro da caixa, estaria num estado paradoxal de vivo e morto, ao mesmo tempo, até que alguém abra a caixa e induza a um só estado. E isso não acontece nunca: nem na teoria e muito menos na “prática”.

A interpretação mais banal do mito da caverna é a busca pela verdade. Uma mais robusta, é de que a verdade é a “descrição” mais aproximada que nossos sentidos e intelecto alcançam da realidade (que continua sempre inalcançável). Se algo é verdadeiro apenas quando a realidade instiga nossa percepção e entendimento, seria a mecânica quântica a realidade como ela realmente é ou a melhor versão que conseguimos conhecer de um ambiente que não nos pertence e ao qual não temos acesso?

No fim, a grande vantagem da mecânica quântica, desde que Feynman explanou que ninguém a entende, é poder falar e escrever sobre mesmo sendo mais um ignorante no tema. Pois se até hoje os cientistas disputam quem tem a melhor interpretação, entendidos e leigos ficam todos sempre bem a vontade para falar a melhor bobagem. Eu que o diga.

This entry was posted on Wednesday, June 8th, 2011 at 12:20 am and is filed under Uncategorized . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Leave a Reply

rafa spoladore

currículolast.fmfeedemail

Flamenguista, londrinense, vivo em alta entropia e trabalho há mais de dez anos com internet. Passei por UOL, Terra, TVA e Positivo, em áreas, times e projetos de Conteúdo, Produtos, E-commerce, Música, Marketing, TV/Multimídia, Links Patrocinados e Mídias Sociais. Prestei serviços para Drauzio Varella, LabOne, Arvato, entre outros. Entusiasta da humanidade, produzo em equipe, sou prestimoso e tenho espírito crítico.