TEXTOS DOS 30 ANOS DE O GENE EGOÍSTA

(Publicados – e ignorados – originalmente em kingston.)

Hoje Richard Dawkins é famoso pelo seu ateísmo combatente e o fervoroso discurso antireligioso.

Porém, antes de abraçar seu abrenúncio pela descrença, é zoólogo respeitabilíssimo por seu trabalho, principalmente a partir de “O Gene Egoísta“, de 1976, seu primeiro livro.

Assim, quando escreveu “Deus, Um Delírio” já tinha dado uma grande contribuição a biologia décadas antes e “cumprido seu papel” como cientista, podendo se dedicar a temas menores (ainda que muito importantes para ele).

Neste post, transcrevo os quatro textos introdutórios da versão comemorativa de 30 anos, lançada em 2005. Minha intenção é mostrar a primeira encarnação dele, como cientista, não antireligioso, e da primeira contribuição dele à ciência, a perspectiva exposta no livro.

O que ele diz em “O Gene Egoísta”?

Darwin percebera a ação da seleção natural na evolução das espécies. Mas não sabia em que instância isso acontecia: qual componente que transmitia ou deixava de transmitir as informações de geração para geração estava sendo selecionado. Especulou sobre algum tipo de plasma microscópico, um fluido vivo que transpassaria informações entre organismos da mesma espécie durante a cópula, entre outras teorias.

Morreu sem saber exatamente em que alçada se dava esse mecanismo.

E muitos pesquisadores morreram sem saber isso pois foi só nas décadas de 50 e 60 que a ciência revelou ao mundo o DNA, seus componentes e sua forma espiralada. O DNA e suas versões pareciam ser os portadores das informações que, de geração em geração, definiam como cada organismo é e deve funcionar.

De maneira inédita até então, em seu livro de 76, o jovem Dawkins compilou toda a biologia evolucionista desde Darwin até as descobertas mais recentes da época, e afirmou que:

  • A seleção natural e a evolução se dão no contexto dos genes, as unidades formadas por ácidos nucléicos, os trechos com as informações genéticas;
  • Todo organismo é uma máquina biológica criada por genes para os manterem a salvo e garantirem sua proliferação;
  • Para continuarem imortais, os genes são essencialmente egoístas, até mesmo quando manifestam altruísmo;
  • É possível, considerando essa perspectiva d’O Gene Egoísta, explicar a evolução dos seres vivos, inclusive com modelos matemáticos.

Os capítulos da obra:

Por que as pessoas existem?
Os replicadores
Espirais imortais
A máquina gênica
Agressão: a estabilidade e a máquina egoísta
O parentesco dos genes
Planejamento familiar
O conflito de gerações
A guerra dos sexos
Uma mão lava a outra?
Memes: os novos replicadores
Os bons rapazes terminam em primeiro
O longo alcance do gene

Outra contribuição do livro foi a ideia de meme, termo cunhado por Dawkins para ser o análogo do gene no mundo das idéias. Os genes são transmitidos de geração em geração, assim como as idéias também se disseminam de geração em geração.

Para falarmos o mínimo, como num simples vírus, as “melhores” idéias contêm em si própria uma “intimação” para que seu portador as replique para outro indivíduo. O tal do viral que as “agências de internet” emulam por aí… Resumidamente

O primeiro texto é uma introdução do próprio Dawkins a essa edição especial.

O segundo é o prefácio da segunda edição, de 89. Nele, Dawkins mostra sua surpresa pela maioria das idéias do livro terem sido aceitas e passarem a ser consenso sobre o tema. Sempre muito orgulhoso, no final demonstra mágoa ao alfinetar contendedores.

O terceiro é a apresentação original da primeira edição, escrita por Robert Trivers. Fala sobre como o mau entendimento do darwinismo prejudica as ciências sociais (como a bola de neve da má informação sobre evolução, que se faz muito presente atualmente: 1, 2, 3).

E Trivers achou espaço até para ressaltar a beleza da humildade do método científico: aponta um erro num argumento do autor do livro – no próprio livro que apresenta.

O último é o prefácio da primeira edição, de 76.

1
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO COMEMORATIVA
por Richard Dawkins (outubro de 2005)
tradução de Rejane Rubino

É com sobriedade que me dou conta de que vivi quase a metade da minha vida com O Gene Egoísta – para o bem ou para o mal. Durante anos, os meus editores têm me enviado em turnês para divulgar cada um dos meus sete livros que vieram depois. A cada um deles, as pessoas na platéia respondem com um entusiasmo recompensador, aplaudem polidamente, fazem perguntas inteligentes e então se colocam em fila para comprar e me pedir para autografar… O Gene Egoísta. Estou exagerando um pouco. Algumas delas realmente compram o livro novo e, quanto a isso, a minha esposa costuma me consolar com o argumento de que os leitores que acabam de descobrir um autor têm essa tendência natural a voltar ao primeiro livro dele: uma vez que tenham lido O Gene Egoísta, decerto percorrerão todo o caminho até o último e (para seu afetuoso pai) predileto rebento.

Eu faria mais caso disso se pudesse afirmar que O Gene Egoísta se tornou seriamente obsoleto e ultrapassado. Infelizmente (de certo ponto de vista), não posso. Os pormenores mudaram e os exemplos empíricos conheceram um crescimento vertiginoso. Mas, à exceção de um aspecto que discutirei logo mais, são poucas as passagens no livro em que eu retiraria o que disse ou me desculparia pelo que disse. Arthur Cain, professor de Zoologia em Liverpool recentemente falecido e um dos mestres que foram a minha fonte de inspiração em Oxford nos anos 1960, descreveu O Gene Egoísta, em 1976, como “o livro de um jovem”. Ele estava citando deliberadamente uma resenha de Language truth and logic [A lógica e a verdade da linguagem], de A. J. Ayer. Senti-me lisonjeado com a comparação, embora soubesse que Ayer havia se retratado em relação a grande parte do seu primeiro livro, e não pudesse deixar de notar que comentário penetrante de Cain implicava que eu deveria, no devido tempo, fazer o mesmo.

No tocante às mudanças que faria, começarei pelo título. Em 1975, com a ajuda do meu amigo Desmond Morris, mostrei o livro ainda incompleto a Tom Maschler, o decano dos editores de Londres, e o discutimos na sua sala na editora Jonathan Cape. Ele gostara do livro mas não do título. “Egoísta”, disse Maschler, era uma palavra “para baixo”. Por que não chamá-lo de O gene imortal? Afinal, imortal é uma palavra “para cima”, a imortabilidade da informação genética era um tema central do livro e “gene imortal” tinha quase o mesmo tom intrigante que “gene egoísta” (nenhum de nós, parece-me, notou a ressonância com The selfish giant [O gigante egoísta], de Oscar Wilde). Hoje eu penso que Maschler talvez tivesse razão. Muitos críticos, conforme vim a descobrir, e em especial os críticos vociferantes com formação em Filosofia, preferem ler um livro apenas pelo título. Não há dúvida de que isso funciona bem para A história do Coelho Benjamim ou Declínio e queda do Império Romano, mas posso ver de imediato que O Gene Egoísta, sem o livro em si mesmo como uma imensa nota de rodapé, pode dar uma impressão distorcida do seu conteúdo. Hoje em dia, de todo modo, um editor americano teria insistido num subtítulo.

A melhor maneira de explicar o título é revelar a palavra que deve ser realçada. Se realçarmos “egoísta”, o leitor pensará que se trata de um livro sobre egoísmo, enquanto o mínimo que se pode dizer é que ele dedica mais atenção ao altruísmo. A palavra correta a ser detacada no título é “gene”, e eu explicarei por quê. Existe um debate central no darwinismo em relação a unidade sobre a qual recai verdadeiramente a seleção: que tipo de entidade é essa que sobrevive, ou não sobrevive, em conseqüência da seleção natural? Tal unidade será, mais ou menos por definição, “egoísta”, não obstante o altruísmo possa ser favorecido em outros níveis. Será que a seleção natural escolhe entre as espécies? Se esse for o caso, poderíamos esperar que os organismos individuais se comportassem de maneira altruística “pelo bem da espécie”. Eles poderiam limitar as suas taxas de nascimento a fim de evitar a superpopulação ou refrear o seu comportamento de caça para preservar os estoques futuros daqueles animais que são suas presas. A ampla disseminação de interpretações equivocadas do darwinismo foi a centelha inicial que me induziu a escrever este livro.

Ou será que a seleção natural, como tenho insistido, escolhe entre os genes? Nesse caso, não deveríamos ficar surpresos ao encontrar organismos individuais se comportando de maneira altruísta “pelo bem dos genes”, por exemplo, alimentando e protegendo os parentes que provavelmente partilham cópias dos mesmos genes. O altruísmo entre os parentes é apenas uma das formas pelas quais o egoísmo dos genes pode traduzir-se em altruísmo individual. Este livro explica como isso funciona, lado a lado com a reciprocidade, outro entre os principais geradores de altruísmo na teoria darwiniana. Como adepto tardio do “princípio da desvantagem” de Zahavi/Grafen, se um dia eu viesse a reescrever este livro, reservaria também algum espaço a idéia de Amotz Zahavi de que a doação altruísta poderia ser um sinal de dominância ao estilo “Potlatch”*: veja como sou superior a você, pois posso me dar ao luxo de lhe fazer uma doação!

* O termo Potlacht, que significa “dom”, faz referência a cerimônias festivas realizadas em certas tribos indígenas dos Estados Unidos, em que um chefe ostensivamente oferece uma quantidade enorme de riquezas a um rival, para humilhá-lo ou desafiá-lo, impondo-lhe a obrigação de uma retribuição ainda maior. Desenrola-se, assim, uma competição entre os líderes para assegurarem uma hierarquia que é obtida pelo valor dos bens ofertados como presente. (N.T.)

Repetirei, para desenvolvê-lo, o raciocínio por trás da palavra “egoísta”, presente no título. A questão crucial é: na hierarquia da vida, qual é o nível em que a seleção natural atua e em que se mostrará inevitavelmente “egoísta”? A Espécie Egoísta? O Grupo Egoísta? O Organismo Egoísta? O Ecossistema Egoísta? Seria possível defender muitos desses pontos de vista, e a maioria deles tem sido abordada de modo pouco crítico por um ou outro autor, mas todos eles estão errados. Uma vez que a mensagem darwiniana será forçosamente encapsulada como Alguma Coisa Egoísta, esse “alguma coisa” será o gene, por motivos irrefutáveis que são discutidos neste livro. Quer o leitor acabe “comprando” ou não o argumento em si mesmo, esta é a explicação para o título deste livro.

Espero que isso dê conta dos mal-entendidos mais sérios. Entretanto, olhando a posteriori, percebo meus próprios lapsos exatamente neste ponto. Eles podem ser encontrados sobretudo no capítulo 1, substanciados pela sentença “Tratemos então de ensinar a generosidade e o altruísmo, porque nascemos egoístas”. Não há nada de errado em ensinar a generosidade e o altruísmo, mas dizer que “nascemos egoístas” é uma afirmação falaciosa. Numa explicação parcial, foi apenas em 1978 que comecei a pensar claramente sobre a distinção entre “veículos” (em geral organismos) e os “replicadores” em seu interior (na prática, os genes: toda essa questão é explicada no capítulo 13, acrescentado na segunda edição). Peço ao leitor que suprima mentalmente essa sentença enganadora e outras semelhantes, e a substitua por algo mais afinado com o restante do parágrafo.

Em face do perigo de erros como o mencionado, posso ver facilmente quanto o título é passível de ser mal interpretado, e essa é uma das razões por que O gene imortal teria sido uma escolha preferível. O veículo altruísta teria sido outra possibilidade. Talvez fosse um título enigmático demais, porém, em todo caso, a disputa aparente entre o gene e o organismo como unidades rivais da seleção natural (disputa que atormenou Ernst Mayr até o fim da sua vida) estaria resolvida. Existem dois tipos de unidade na seleção natural e eles não competem entre si. O gene é a unidade no sentido do replicador. O organismo é a unidade no sentido do veículo. Ambos são importantes. Nenhum deveria ser denegrido. Eles representam dois tipos completamente diferentes de unidade e, enquanto não tivermos reconhecido essa distinção, permaneceremos irremediavelmente confusos.

Outra alternativa a O Gene Egoísta teria sido O gene cooperativo. Ainda que esse título soe paradoxalmente oposto, uma parte central do livro argumenta em favor de uma forma de cooperação entre os genes egoístas. Isso não significa em absoluto que os grupos de genes prosperam à custa dos seus membros ou à custa de outros grupos. Significa, mais exatamente, que cada gene persegue a sua própria agenda de interesses egoístas contra o pano de fundo dos outros genes no pool gênico – o conjunto de candidatos para mistura sexual no interior de uma espécie. Esses outros genes fazem parte do meio ambiente em que cada gene sobrevive, assim como o clima, os predadores e as presas, a vegetação que serve de alimento e as bactérias do solo fazem parte do meio ambiente. Do ponto de vista de um gene, aqueles que fazem o “pano de fundo” são os genes com os quais ele compartilha os corpos em sua jornada ao longo das gerações. Num prazo de tempo curto, isso significa os outros membros do genoma. Num prazo de tempo longo, os outros genes no pool gênico da espécie. A seleção natural, portanto, encarrega-se de fazer com que os genes mutuamente compatíveis – o que quase equivale a dizer “os genes que cooperam entre si” – sejam favorecidos na presença uns dos outros. Essa evolução do “gene cooperativo” não viola de modo algum o princípio fundamental do gene egoísta. O capítulo 5 desenvolve esta idéia, usando a analogia com a equipe de remadores, e o capítulo 13 a desdobra, levando-a um pouco mais longe.

Mas, uma vez que a seleção natural dos genes egoístas tende a favorecer a cooperação, é preciso reconhecer que existem alguns genes que não cooperam e que agem contra os interesses do resto do genoma. Alguns autores os denominaram “genes fora-da-lei”, outros “gene ultra-egoístas”, e, outros ainda, apenas “genes egoístas” – o que mostra que há um mal-entendido quanto à diferença sutil entre estes últimos e aqueles que cooperam em cartéis movidos por interesse próprio. Exemplos de genes ultra-egoístas são os genes de distorção da segregação descritos nas páginas 394-7 eo “DNA parasita”, proposto pela primeira vez nas páginas 103-5, e posteriormente desenvolvido por diversos autores sob a designação de “DNA egoísta”. A descoberta de exemplos novos, e cada vez mais bizarros, de genes ultra-egoístas tornou-se uma característica marcante dos anos que se seguiram à primeira edição deste livro.

O Gene Egoísta foi criticado por sua personificação antropomórfica e isso também requer uma explicação, se não um pedido de desculpa. Empreguei dois níveis de personificação: dos genes e dos organismos. A personificação dos primeiros não deveria ser realmente um problema, uma vez que nenhuma pessoa sã considera que as moléculas de DNA têm personalidade consciente e uma vez que nenhum leitor sensato imputaria essa ilusão a um autor. Tive o privilégio de ouvir o grande biólogo molecular Jacques Monod falando sobre a criatividade na ciência. Não me lembro exatamente das suas palavras, mas ele quis dizer que, ao tentar resolver um problema em química, costumava se perguntar o que ele próprio faria se fosse um elétron. Peter Atkins, no seu maravilhoso livro Creation revisited [Criação revisitada], emprega uma personificação semelhante ao considerar a refração de um raio de luz passando por um meio mais resistente que diminui a sua velocidade. O raio se comporta como se tentasse diminuir o tempo que leva para chegar a um ponto final. Atkins o imagina como um salva-vidas numa praia correndo contra o tempo para salvar um banhista em vias de se afogar. Ele deve seguir direto ao lugar onde está o banhista? Não, porque ele pode correr mais rápido do que nadar, por isso seria mais sensato correr para um ponto na praia diretamente oposto ao seu alvo, reduzindo, desse modo, o tempo do seu nado? Isso seria mais eficiente, mas ainda não se trata da melhor entre todas as alternativas. O cálculo (se ele tivesse tempo de fazê-lo) revelaria ao salva-vidas um ângulo intermediário ótimo, permitindo a combinação ideal da corrida rápida seguida do nado inevitavelmente mais lento. Atkins conclui: “Este é exatamente o comportamento da luz ao atravessar um meio mais denso. Mas como a luz pode saber, ao que parece de antemão, qual é o caminho mais curto? E, de todo jeito, por que ela se importa com isso?”. Ele desenvolve essas questões numa exposição fascinante, inspirada pela teoria dos quanta.

Esse tipo de personificação não é apenas um instrumento didático fantástico. Ela também pode ajudar um cientista profissional a chegar à resposta correta, diante das traiçoeiras tentações de seguir por caminhos equivocados. É esse o caso em relação aos cálculos darwinianos de altruísmo e de egoísmo, de cooperação e de malvadez. É muito fácil chegar à conclusão errada. A personificação dos genes, se feita com o devido cuidado, quase sempre se mostra como o caminho mais rápido para salvar um pesquisador darwinista prestes a submergir em confusão. Preocupado em manter essa cautela, fui encorajado pela maestria exemplo de W. D. Hamilton, um dos quatro heróis declarados deste livro. Num artigo publicado em 1972 (o ano em que comecei a escrever O Gene Egoísta), Hamilton escreveu:

Um gene é favorecido pela seleção natural se o conjunto das suas cópias forma uma fração crescente no pool gênico total. Vamos nos ocupar dos genes que supostamente afetam o comportamento social daqueles que os carregam, de maneira que tentaremos tornar o argumento mais vívido atribuindo a eles, provisoriamente, inteligência e uma certa liberdade de escolha. Imaginemos que um gene esteja contemplando o problema de aumentar o número das suas réplicas e imaginemos que ele possa escolher entre…

Esse é exatamente o espírito com que boa parte do O Gene Egoísta deve ser lida.

A personificação de um organismo pode mostrar-se mais problemática porque, como os organismos, ao contrário dos genes, têm cérebros, poderiam realmente ter motivos egoístas ou altruístas, mais ou menos no sentido subjetivo que seria possível reconhecer em nós mesmos. Um livro chamado O leão egoísta de fato conseguiria deixar o leitor confuso, de uma maneira que não ocorreria com O Gene Egoísta. Assim como uma pessoa pode se colocar no lugar de um raio de luz imaginário ao escolher de modo inteligente o caminho ótimo através de uma cascata de lentes e de prismas, ou de um gene imaginário ao optar por um percurso ótimo ao longo das gerações, pode-se também postular uma leoa calculando a estratégia comportamental ótima para a sobrevivência de longo prazo dos seus genes. O primeiro presente de Hamilton à biologia foram as fórmulas matemáticas precisas que um verdadeiro darwinista efetivamente teria de empregar ao tomar decisões calculadas para maximizar a sobrevivência de longo prazo dos seus genes. Neste livro, empreguei equivalentes verbais, informais, desses cálculos – nos dois níveis.

Na página 237, há uma mudança brusca de um nivel para o outro:

Já consideramos as condições sob as quais seria vantajoso para a mãe deixá-lo morrer. Poderíamos supor intuitivamente que o filhote subdesenvolvido seguiria lutando até o fim, mas a teoria não prevê isto necessariamente. Quando uma cria é tão fraca e pequena que a sua expectativa de vida se reduz a ponto de o benefício que extrai do investimento poderia, potencialmente, conferir aos outros filhotes, ela deveria aceitar, digna e voluntariamente, a sua morte. Este é o maior benefício que ela pode prestar aos seus genes.

Isso tudo consiste numa introspecção no nível individual. A suposição não é de que o filhote escolhe o que lhe dá prazer, ou o que lhe traz bem-estar. Pelo contrário, o que se pressupõe é que, num mundo darwiniano, é como se os indivíduos fizessem os cálculos sobre o que seria melhor para seus genes. A continuação desse parágrafo em particular explicita essa idéia ao mudar rapidamente para a personificação no nível do gene:

O que equivale a dizer que um gene dê a instrução “Corpo, se você for muito menor que os seus irmãos de ninhada, desista de lutar e morra” seria bem-sucedido no pool gênico, pois ele tem 50% de probabilidade de estar também no corpo de cada irmão ou irmã salvos, ao passo que suas chances de sobreviver no corpo de uma cria mal desenvolvida são, de todo modo, muito pequenas.

E então, o parágrafo retorna imediatamente para o filhote instrospectivo: “Deve haver um ponto na vida de uma cria pouco desenvolvida a partir do qual não há mais retorno. Antes de atingí-lo, ela deveria continuar a lutar. Tão logo o atingisse, deveria desistir e, preferencialmente, deixar-se comer pelos seus irmãos ou pelos seus progenitores”.

Eu realmente acredito que esses dois níveis de personificação não causam confusão, se forem lidos no contexto e integralmente. Os supostos cálculos “do gene” e “do indivíduo”, quando formulados da maneira correta, conduzem com certeza à mesma conclusão: esse é, na verdade, o critério para julgar a sua correção. Assim, a personificação não é algo que eu eliminaria se fosse escrever o livro de novo.

Apagar um livro que escrevemos é uma coisa. Apagar a sua leitura é outra, bem diferente. O que fazer do seguinte veredicto de um leitor na Austrália?

Fascinante, mas, por vezes, o meu desejo era apagar o que havia lido… De um lado, posso partilhar o deslumbramento com que Dawkins, claramente, vê o desenvolvimento desses processos tão complexos… Mas, ao mesmo tempo, acredito em grande medida que O gene egoísta foi responsável por uma série de crises de depressão que sofri por mais de uma década… Inseguro acerca da minha perspectiva espiritual sobre a vida, mas tentando encontrar algo mais profundo – esforçando-me para acreditar, mas não me mostrando totalmente capaz de fazê-lo -, descobri que o livro deixou em pedaços minhas frágeis idéias a esse respeito e impediu que elas se tornassem a se juntar. Isso me levou a uma grave crise pessoal alguns anos atrás.

Já comentei antes algumas respostas parecidas que recebi dos leitores:

Um editor estrangeiro do meu primeiro livro confessou não ter conseguido dormir durante três noite depois de lê-lo, tão perturbado ficou com a sua “mensagem”, que a ele pareceu desoladora e fria. Outros me perguntaram como é que agüento me levantar todas as manhãs. Um professor de um país distante me escreveu uma carta de censura, pois uma aluna o tinha abordado em lágrimas depois de ler o mesmo livro, persuadida de que a vida era vazia e sem sentido. Ele a aconselhou a não mostrar o livro para nenhum de seus amigos, por medo de contaminá-lo com o mesmo pessimismo niilista (Desvendando o arco-íris).

Não há pensamento mágico que seja capaz de desfazer uma verdade. Essa é a primeira coisa que tenho a dizer. Mas há uma segunda, quase tão importante quanto a primeira. Como afirmei em seguida,

é presumível que não haja de fato nenhum desígnio no destino final do cosmos, mas algum de nós realmente deposita as esperanças de sua vida no destino final do cosmos? Claro que não, isto é, se não formos loucos. As nossas vidas são regidas por todo tipo de ambições e percepções humanas mais íntimas, mais calorosas. Acusar a ciência de roubar da vida o calor que a torna digna de ser vivida é um erro tão disparatado, tão diametralmente oposto a meus sentimentos e aos da maioria dos cientistas ativos que sou quase levado à desesperança que erroneamente suspeitam em mim.

A mesma tendência a atirar no mensageiro fica patente em outros críticos que fizeram objeções àquilo que consideram as implicações desagradáveis de O Gene Egoísta, implicações sociais, políticas e econômicas. Logo após a primeira vitória de Mrs. Thatcher nas eleições de 1979, meu amigo Steven Rose escreveu o seguinte comentário na revista New Scientist:

Não estou sugerindo que a Saatchi e Saatchi tenha incumbido uma equipe de sociobiólogos para escrever os textos de Thatcher, nem tampouco que certos experts ilustres de Oxford e Sussex estejam começando a exultar com essa expressão práticas das verdades simples do egoísmo dos genes que eles vêm se esforçando para nos transmitir. A coincidência entre as teorias que entram na moda e os eventos políticos é bem mais complicada do que isso. Mas eu realmente acredito que, quando a história da guinada à direita do final da década de 1970 for escrita, abrangendo desde o movimento da lei e da ordem até o monetarismo e o (mais contraditório) ataque ao estatismo, a mudança nas teorias da moda, ou, pelo menos, a mudança nos modelos da teoria evolucionista, da seleção de grupo para a seleção de parentesco, será considerada parte da tendência que levou ao poder os thatcheristas e a sua concepção cristalizada, típica do século XX, de uma natureza humana competitiva e xenofóbica.

O “expert ilustre de Sussex” era o falecido John Maynard Smith, que Steven Rose admirava tanto quanto eu, e que, numa carta à revista New Scientist, respondeu, bem ao seu estilo: “O que se esperava que fizéssemos, afinal? Que falsificássemos as equações?”. Uma das mensagens dominantes de O Gene Egoísta (reforçada pelo ensaio O capelão do diabo, no livro com o mesmo título) é que não deveríamos derivar os nossos valores do darwinismo, a menos que coloquemos na frente deles um sinal de “negativo”. Os nossos cérebros evoluíram até o ponto em que somos capazes de nos rebelar contra os nossos genes egoístas. O fato de sermos capazes disso fica evidente com o uso que fazemos dos contraceptivos. O mesmo princípio pode e deve operar numa escala maior.

Ao contrário da segunda edição, de 1989, esta edição comemorativa não traz nenhum material novo, à exceção desta introdução e de alguns trechos de resenhas escolhidos por Latha Menon, minha defensora e editora por três vezes. Ninguém exceto Latha poderia ter ocupado o lugar de Michael Rodgers, estrategista K* e editor extraordinário, cuja crença insuperável neste livro foi o foguete propulsor da trajetória da sua primeira edição.

* Termo usado na teoria da seleção r-K, que sugere que a evolução pode selecionar diferentes características populacionais em circunstâncias distintas. Os “estrategistas K”, em oposição aos “estrategistas r”, são espécies para as quais atingir uma população de tamanho estável e equilibrado representa uma estratégia bem-sucedida. Nessas espécies, os indivíduos investem mais recursos em poucos descendentes, que são gerados em longos intervalos. (N.T.)

Mas esta edição – e isto é uma grande alegria para mim – restitui o prefácio original de Robert Trivers. Mencionei o nome de Bill Hamilton como um dos quatro heróis intelectuais deste livro. Bob Trivers é um dos outros três. Suas idéias dominam grande parte dos capítulos 9, 10 e 12, e todo o capítulo 8. Seu prefácio não é somente uma introdução lindamente contruída para este livro: de maneira absolutamente original, ele a escolheu para anunciar ao mundo uma idéia nova brilhante, a sua teoria da evolução do auto-engano. Sou muito grato a ele por sua permissão para que o prefácio original engrandecesse esta edição comemorativa.

2
PREFÁCIO À EDIÇÃO DE 1989
por Richard Dawkins (1989)
tradução de Rejane Rubino

Nos doze anos que transcorreram desde que O Gene Egoísta foi publicado, a sua mensagem central tornou-se ortodoxa nos livros de introdução à biologia. Isso é paradoxal, embora não no sentido mais óbvio. Não se trata de um daqueles livros que, tachados de revolucionários no momento de sua publicação, pouco a pouco conquistam um grande número de adeptos e acabam por se tornar tão ortodoxos que por fim nos perguntamos qual era a razão de tanto estardalhaço. Pelo contrário. Desde o início as críticas se mostraram francamente favoráveis, e o livro não foi, a princípio, considerado controverso. A sua reputação como pouco ortodoxo difundiu-se ao longo dos anos, até chegar a ser visto, hoje em dia, como uma obra extremamente radical. Mas, ao longo do mesmo período em que sua reputação como extremista cresceu, seu conteúdo propriamente dito começou a parecer cada vez menos extremo, até se transformar em moeda corrente.

A teoria do gene egoísta é a teoria de Darwnin, enunciada de um modo diferente do escolhido por ele, mas cuja propriedade, como gosto de pensar, ele teria prontamente reconhecido e apreciado. Na verdade, trata-se de um desenvolvimento lógico do neodarwinismo ortodoxo, expresso, porém, sob a forma de uma nova imagem. Em vez de focalizar o organismo individual, ela apresenta uma perspectiva da natureza a partir do ponto de vista dos genes. Tem-se então uma maneira diferente de ver, e não uma teoria nova. Nas páginas iniciais de The extended phenotype [O fenótipo estendido], recorri à metáfora do cubo de Necker para evidenciar essa idéia.

Esta figura não passa de um desenho bidimensional de tinta no papel, mas nós o percebemos como a imagem tridimensional de um cubo transparente. Se a olharmos durante alguns segundos, veremos que suas faces mudam de orientação. Se continuarmos a olhar fixamente para a imagem, o cubo voltará à orientação original. Os dois cubos são igualmente compatíveis com a informação bidimensional recebida pela retina, de tal forma que o cérebro se alterna alegremente entre eles. Um não é mais correto do que o outro. O que quero dizer ao utilizar esta metáfora é que existem duas maneiras de encarar a seleção natural: sob o ângulo dos genes e sob o ângulo do indivíduo. Quando compreendidas do modo adequado, elas se tornam equivalentes: duas perspectivas de uma mesma verdade. Podemos alternar entre uma e outra e, ainda assim, estaremos nos referindo ao mesmo neodarwinismo.

Hoje em dia penso que a metáfora que escolhi era cautelosa demais. Muitas vezes a contribuição mais importante que um cientista pode fazer não é propor uma nova teoria ou revelar um novo fato, mas descobrir um novo modo de olhar para as teorias ou os fatos antigos. O modelo do cubo de Necker é enganador, pois sugere que as duas maneiras de ver são igualmente boas. Não há dúvida de que a metáfora dá uma idéia parcialmente correta: os “ângulos”, ao contrário das teorias, não podem ser submetidos ao julgamenteo experimental; em relação a eles, não podemos lançar mão dos nossos critérios bem conhecidos de verificação e de falseamento de hipóteses. No entanto, no melhor dos casos, uma mudança de visão pode produzir algo que é mais grandioso do que uma teoria. Ela pode conduzir a uma atmosfera de pensamento totalmente nova, na qual podem nascer muitas teorias palpitantes e verificáveis e onde fatos antes inimagináveis podem vir a se descortinar. A metáfora do cubo de Necker passa totalmente ao largo desse aspecto. Embora capte a idéia de uma alternância no modo de visão, não faz justiça ao valor que tal alternância pode alcançar. Não estamos falando aqui de uma simples alternância para uma visão equivalente, mas sim, em casos extremos, de uma transfiguração.

Apresso-me a esclarecer que não incluo a minha própria e modesta contribuição nesta categoria. Todavia, é por razões desse tipo que prefiro não fazer uma distinção clara entre a ciência e sua “popularização”. A apresentação de idéias antes veiculadas só na literatura especializada é uma arte difícil. Requer, além de torções perspicazes nas palavras, metáforas reveladoras. Se formos suficientemente inovadores no uso da linguagem e no emprego das metáforas, seremos capazes de produzir uma nova maneira de ver. E uma nova maneira de ver, tal como acabei de argumentar, pode representar uma contribuição original à ciência. O próprio Einstein estava bem longe de ser um popularizador mediano e sempre suspeitei de que suas metáforas fulgurantes faziam bem mais do que tão-só nos ajudar a compreendê-lo. Não eram elas que alimentavam seu gênio criativo?

O darwinismo visto pela perspectiva dos genes encontra-se implícito nos escritos de R. A. Fischer e de outros grandes pioneiros do neodarwinismo do início da década de 30, contudo só veio a tornar-se explícito de fato nos trabalhos de W. D. Hamilton e G. C. Williams nos anos 1960. Para mim, as idéias por eles descortinadas eram visionárias, porém sempre achei que foram expressas muito laconicamente, em vez de divulgadas a plenos pulmões. Convenci-me de que o desenvolvimento de uma nova versão, amplificada, das suas idéias poderia fazer com que todos os fatos a respeito da vida fizessem sentido, tanto no coração como no cérebro. Minha idéia era escrever um livro para enaltecer a evolução do ponto de vista dos genes, e ele concentraria seus exemplos no comportamento social, para ajudar a curar a “febre” inconsciente de seleção de grupo que então prevalecia no darwinismo popular. Comecei a escrevê-lo em 1972, num momento em que os cortes de eletricidade, resultantes de conflitos na indústria, provocaram uma interrupção nas minhas pesquisas laboratoriais. Infelizmente (para mim, pelo menos) os blecautes duraram apenas dois meros capítulos, e eu arquivei o projeto até entrar em licença sabática em 1975. Nesse meio-tempo, a teoria havia se ampliado, sobretudo pelas mãos de John Maynard Smith e Robert Trivers. Vejo agora que esse foi um daqueles períodos misteriosos em que as novas idéias simplesmente pairam no ar. Escrevi O Gene Egoísta possuído por uma empolgação febril.

Quando a Oxford University Press me propôs uma segunda edição, insistiram que não seria apropriado levar a cabo uma revisão convencional, extensiva, página a página. Existem livros que, desde a sua concepção, estão obviamente destinados a ter muitas edições, e O Gene Egoísta não é um deles. A primeira edição se revestiu de uma qualidade juvenil conferida pela época em que foi escrita. Havia um sopro de revolução lá fora, vestígios da aurora bem-aventurada de Wordsworth. Seria uma pena modificar um filho concebido naqueles tempos, engordando-o com fatos novos ou enrugando-o com complicações e precauções. Decidiu-se então manter o texto original, de fio a pavio, com os pronomes sexistas e tudo o mais. As notas no final deveriam dar conta das correções, das réplicas e do desenvolvimento de certos pontos. E haveria capítulos inteiramente novos, a repeito de temas cujo frescor, àquela altura, levaria adiante o clima de aurora revolucionária. O resultado disso foram os capítulos 12 e 13. A inspiração para ambos os capítulos veio dos dois livros publicados nesse campo que mais me entusiasmaram durante aquele intervalo: The evolution of cooperation [A evolução da cooperação], de Robert Axelrod, porque parece nos oferecer algum tipo de esperança em relação ao futuro, e o meu próprio The extended phenotype, porque a escrita desse livro foi muito marcante para mim e porque – sem nenhuma garantia – eu penso que jamais escreverei um livro melhor do que esse.

O título “Os bons rapazes terminam em primeiro” foi emprestado do programa de televisão Horizon, que apresentei na BBC em 1985. Tratava-se de um documentário de cinquenta minutos, produzido por Jeremy Taylor, acerca das abordagens da teoria dos jogos sobre a evolução da cooperação. A realização desse filme e também de outro, The blind watchmaker [O relojoeiro cego], pelo mesmo produtor, fizeram com que eu conferisse um novo respeito a sua profissão. Nos meus melhores momentos, os produtores de Horizon (alguns dos seus programas podem ser visto nos EUA, com frequência rebatizados com o nome de Nova) se transformaram em especialistas profundamente versados no tema que focam. O capítulo 12 deve bem mais do que apenas o título à minha experiência de trabalhar com Jeremy Taylor e a equipe do Horizon, e sou-lhes muito grato por isso.

Recentemente, tomei conhecimento de um fato desagradável: existem cientistas importantes que têm o costuma de colocar seus nomes em publicações nas quais não desempenharam papel algum. Ao que parece, há cientistas veteranos que reivindicam a co-autoria de artigos em que sua contribuição se resumiu ao espaço de bancada, às bolsas de estudo concedidas e à revisão do manuscrito. Pelo que sei, existem reputações científicas que podem ter sido inteiramente construídas com base no trabalho de estagiários e de colegas! Não sei o que pode ser feito para combater tamanha desonestidade. Talvez os editores das revistas científicas devam exigir uma declaração assinada com as contribuições de cada autor. Mas essa é uma questão incidental, que levanto aqui apenas para fazer uma antítese. Helena Cronin dedicou-se tanto a melhorar cada sentença – cada palavra – dos novos capítulos que, não dosse por sua recusa inflexível, ela deveria ser considerada co-autora de todas as partes novas deste livro. Sou profundamente grato a ela, e lamento que o meu reconhecimento tenha que limitar-se a isto. Agradeço também a Mark Ridley, Marian Dawkins e Alan Grafen pelas sugestões e críticas construtivas de algumas seções. E, ainda, a Thomas Webster, a Hilary McGlynn e às demais pessoas da Oxford University Press por terem tolerado com bom humor meus caprichos e minhas protelações.

3
APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO DE 1976
por Robert L. Trivers, Harvard University (julho de 1976)
tradução de Rejane Rubino

O chimpanzé e o homem compartilham cerca de 99,5% da sua história evolutiva. No entanto, para a maioria dos pensadores humanos o chimpanzé consiste em uma excentricidade mal-formada e irrelevante, enquanto à sua própria espécie é atribuída uma superioridade que se aproxima da do Todo-Poderoso. Para um evolucionista, esta é uma perspectiva inaceitável. Não existe nenhum fundamento objetivo que justifique considerar que uma espécie está acima da outra. O chimpanzé e o homem, a lagartixa e o fungo, todos nós evoluímos durante cerca de 3 bilhões de anos por um processo conhecido como seleção natural. Em cada uma das espécies, alguns indivíduos deixam atrás de si um número maior de descendentes sobreviventes do que outros, de tal forma que os traços hereditários (os genes) daqueles que alcançaram maior êxito reprodutivo se tornam mais numerosos na geração seguinte. A seleção natural é isto: a reprodução diferencial, não aleatória, dos genes. Foi a seleção natural que nos formou e é a seleção natural que temos de entender se quisermos compreender nossa própria identidade.

Embora seja central para o estudo do comportamento social (em especial quando associada à genética mendeliana), a teoria da evolução de Darwin tem sido largamente negligenciada. Nas ciências sociais, vemos o florescimento de toda uma indústria dedicada à construção de uma visão pré-darwiniana e pré-mendeliana do mundo social e psicológico. Mesmo no interior da biologia, a desconsideração com a teoria darwiniana e o seu uso ilegítimo são espantosos. Quaisquer que sejam as razões para esse estranho desenvolvimento, há indícios de que está chegando ao fim. O grandioso trabalho de Darwin e Mendel tem sido desenvolvido pelas mãos de um número crescente de pesquisadores, entre os quais se destacam R. A. Fischer, W. D. Hamilton, G. C. Williams e J. Maynard Smith. Agora, e pela primeira vez, esse importante corpo da teoria social baseada na seleção natural é apresentado de uma forma simples e acessível por Richard Dawkins.

Um a um, Dawkins analisa os principais temas dos trabalhos recentes em teoria social: os conceitos de comportamento altruísta e egoísta, a definição genética do interesse próprio, a evolução do comportamento agressivo, a teoria do parentesco (incluindo as relação entre pais e filhos e a evolução dos insetos sociais), a teoria da proporção entre os sexos, o altruísmo recíprico, a dissimulação e a seleção natural das diferenças sexuais. Com a confiança que advém do seu domínio da teoria subjacente, Dawkins apresenta as pesquisas recentes com um estilo e uma clareza admiráveis. Possuidor de um extenso conhecimento da biologia, ele transmite ao leitor um pouquinho do gosto da sua literatura rica e fascinante. Quando discorda de trabalhos publicados (como faz ao criticar um argumento errôneo empregado por mim), acerta quase invariavelmente o alvo. Dawkins também se esforça para esclarecer a lógica dos seus argumentos, de modo que o leitor possa ele mesmo aplicá-la e, assim, estender os argumentos (inclusive, virando-os contra o próprio Dawkins). Os argumento em si estendem-se em muitas direções. Por exemplo, se (tal como Dawkins argumenta) a mentira é fundamental na comunicação animal, então a capacidade de detectá-la deve ser fortemente selecionada. Isso conduziria, por sua vez, à seleção de uma certa capacidade de auto-engano, isto é, de tornar inconscientes alguns fatos e motivações, com vistas a não trair – por meio de sinais sutis de autoconsciência – a dissimulação colocada em prática. Assim, o ponto de vista convencional de que a seleção natural favorece os sistemas nervosos que produzem imagens cada vez mais precisas do universo é provavelmente uma visão muito ingênua da evolução mental.

O desenvolvimento recente da teoria social foi substancial o bastante para gerar um pequeno alvoroço de atividade contra-revolucionária. Tem sido alegado, por exemplo, que, na realidade, tal desenvolvimento integra uma conspiração cíclica que pretende impedir o progresso social, fazendo com que este pareça geneticamente impossível. Idéias lamentáveis como essa têm sido reunidas para produzir a impressão de que a teoria social darwiniana é reacionária nas suas implicações políticas. Porém, isso está muito distante da verdade. A igualdade genética dos sexos é, pela primeira vez, claramente estabelecida por Fisher e Hamilton. A teoria e os dados quantitativos relativos aos insetos sociais demonstram que não existe nenhuma tendência hereditária para a dominação dos filhos pelos pais (ou vice-versa). E os conceitos de investimento parental e de escolha do parceiro sexual pela fêmea fornecem uma base objetiva e imparcial que nos permite olhar para as diferenças sexuais, um avanço considerável em relação aos esforços populares para radicar os poderes e os direitos das mulheres no pântano inútil da identidade biológica. Em resumo, a teoria social darwiniana nos possibilita vislumbrar a simetria e a lógica subjacentes às relações sociais. Quando tiverem sido mais completamente entendidas por nós mesmos, elas com certeza revitalizarão a nossa compreensão política e fornecerão o suporte intelectual para uma ciência e uma medicina da psicologia, ao mesmo tempo que nos proporcionarção uma compreensão mais aprofundada das muitas raízes do nosso sofrimento.

4
PREFÁCIO À EDIÇÃO DE 1976
por Richard Dawkins
tradução de Rejane Rubino

Este livro deve ser lido quase como um livro de ficção científica. Ele foi escrito para despertar a imaginação. Mas não se trata de ficção científica: trata-se de ciência. Lugar-comum ou não, a expressão “mais estranho do que a ficção” exprime exatamente como eu me sinto em relação à verdade. Nós somos máquinas de sobrevivência – robôs cegamente programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas como “genes”. Esta é uma verdade que ainda me deixa atônito. Embora eu saiba disso há muitos anos, não consigo me habituar por completo a essa idéia. Espero ser bem-sucedido em fazer com que outros pessoas também se sintam surpresas.

Três leitores imaginários espreitaram sobre o meu ombro enquanto eu escrevia este livros e é a eles que o dedico. Em primeiro lugar, ao leitor comum, o leigo. Foi por ele que evitei, sempre que possível, recorrer à linguagem técnica, e nas ocasiões em que me vi obrigado a fazer uso de termos específicos, tratei de fornecer a sua definição. Agora eu me pergunto por que não temos o costume de censurar a maior parte do nosso jargão nas revistas especializadas. Supus que o leito não tinha um conhecimento específico, sem pressupor contudo que ele fosse estúpido. Qualquer pessoa pode popularizar a ciência simplificando-a em demasia. Esforcei-me arduamente para popularizar algumas idéias sutis e complicadas numa linguagem não matemática, mas sem abrir mão da sua essência. Não sei se fui feliz nessa empreitada, e tampouco estou certo de ter dado conta de outra das minhas ambições: tentar tornar o livro tão divertido e envolvente quanto o assunto merece. Para mim, a biologia deveria ser tão empolgante quanto uma história de mistério, pois é exatamente isso que ela é. Não me atrevo a esperar ter logrado transmitir mais do que uma minúscula parcela do entusiasmo que o assunto tem a oferecer.

O meu segundo leitor imaginário foi o especialista. E ele funcionou como um crítico impiedoso, reagindo com ruidosos suspiros a algumas das minhas analogias e figuras de linguagem. Suas expressões favoritas foram “à exceção de”, “mas, por outro lado” e “ugh”. Ouvi-o com toda atenção e cheguei mesmo a reescrever completamente um capítulo em consideração a ele, entretento, no final das contas, tive de contar a história à minha própria maneira. O especialista não ficará de todo satisfeito com a forma como expus as idéias. Ainda assim, a minha maior aspiração é que mesmo ele possa encontrar algo de novo aqui: talvez um outro modo de encarar idéias antigas, ou até mesmo uma inspiração para idéias novas de sua própria autoria. Caso isso seja demasiado pretensioso, será que posso esperar ao menos que o livro seja capaz de entretê-lo numa viagem de trem?

O terceiro leitor que tive em mente foi o estudante, a meio caminho entre o leigo e o especialista. Se ele ainda não tiver optado pelo assunto em que gostaria de tornar-se especialista, espero encorajá-lo a conceder ao meu próprio campo, a zoologia, uma segunda olhadela. Existe uma razão maior para estudar zoologia além de sua possível “utilidade” e do costumeiro gosto pelos animais. Ei-la: nós, os animais, somos as máquinas mais complicadas e mais perfeitamente elaboradas em todo o universo conhecido. Se expusermos a questão por esse prima, fica difícil entender como alguém poderia desejar estudar outra coisa! Para o estudante que já se decidiu pela Zoologia, espero que o meu livro tenha algum valor educativo. Ele estará às voltas com os mesmos textos originais e com os mesmos livros técnicos nos quais se baseia esta discussão. Caso considere as fontes originais difíceis de digerir, talvez a minha interpretação não matemática possa ajudá-lo, como introdução e complemento.

Há perigos óbvios em tentar atrair simultaneamente os três tipos diferentes de leitor. Só posso dizer que estou bem consciente desses perigos, e que, a despeito deles, considerei que valeria a pena tentar.

Sou um etólogo, e este é um livro sobre o comportamento animal. A minha divida com a tradição etológica na qual fui formado será óbvia. Niko Tinbergen, em particular, não pode imaginar a importância de sua influência sobre mim durante os doze anos em que trabalhei sob sua orientação em Oxford. A expressão “máquina de sobrevivência”, embora não seja de fato um criação sua, poderia muito bem ter sido. Mas, em tempos recentes, a etologia tem sido revitalizada por uma invasão de idéias novas oriundas de fontes que não são convencionalmente consideradas etológicas. Este livro baseia-se, em larga medida, nessas novas idéias. Seus autores são mencionados nos momentos apropriados do texto. As figuras dominantes são G. C. Williams, J. Maynard Smith, W. D. Hamilton e R. L. Trivers.

Diversas pessoas sugeriram nomes para o livro, e eu os utilizei, e agradeço por isso, como títulos para alguns capítulos: “Espirais imortais”, sugerido por John Krebs, “A máquina gênica”, sugerido por Desmond Morris e “O parentesco dos genes”, sugerido independentemente por Tim Clutton-Brock e por Jean Dawkins, com um pedido de desculpa a Stephen Potter.

Os leitores imaginários podem servir de meta para as nossas esperanças e anseios bem-intencionados, mas são de menos utilidade prática do que os leitores e críticos de carne e osso. Sou muito dado a revisões e Marian Dawkins foi submetida a incontáveis rascunhos e versões modificadas de cada página deste livro. O seu conhecimento considerável da literatura biológica e a sua compreensão das questões teóricas, aliados a seu encorajamento e apoio moral incessantes, foram de importância essencial. Também John Krebs leu o rascunho do livro inteiro. Ele conhece o assunto melhor do que eu e foi de uma generosidade sem limites em seus conselhos e sugestões. Glenys Thomson e Walter Bodmer criticaram gentil mas firmemente o tratamento que dei aos tópicos de Genética. Temo que minha revisão final ainda não os satisfaça por completo, porém espero que a considerem ao menos um pouco melhorada. Sou muito grato a eles pelo tempo e pela paciência que me dedicaram. John Dawkins exercitou sua atenção infalível para as construções ambíguas e deu excelentes sugestões de como reescrevê-las. Não poderia ter desejado a ajuda de um “leigo inteligente” mais apropriada do que a de Maxwell Stamp. A perspicácia com que ele detectou uma falha geral importante no estilo do primeiro rascunho contribuiu muito para a versão final. Outras pessoas que colaboraram com críticas construtivas de determinados capítulos, ou que deram suas opiniões como especialistas, foram John Maynard Smith, Desmond Morris, Tom Maschler, Nick Blurton Jones, Sarah Kettlewell, Nick Humphrey, Tim Clutton-Brock, Louise Johnson, Christopher Graham, Geoff Parker e Robert Trivers. Pat Searle e Stephanie Verhoeven não apenas datilografaram o manuscrito com habilidade, como também me encorajaram ao fazê-lo, parece-me, com prazer. Por fim, quero agradecer a Michael Rodgers da Oxford University Press, que, além de fazer críticas proveitosas ao manuscrito, ultrapassou em muito seus deveres como editor ao encarregar-se de todos os aspectos envolvidos na produção deste livro.

This entry was posted on Sunday, January 15th, 2012 at 11:20 pm and is filed under Uncategorized . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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rafa spoladore

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Flamenguista, londrinense, vivo em alta entropia e trabalho há mais de dez anos com internet. Passei por UOL, Terra, TVA e Positivo, em áreas, times e projetos de Conteúdo, Produtos, E-commerce, Música, Marketing, TV/Multimídia, Links Patrocinados e Mídias Sociais. Prestei serviços para Drauzio Varella, LabOne, Arvato, entre outros. Entusiasta da humanidade, produzo em equipe, sou prestimoso e tenho espírito crítico.