March of the Zapotec [2009]

3:39 AM | 26/04/2009

March of the Zapotec

Beirut

Às vezes ser o queridinho da crítica é mais difícil que ser o queridinho do público. A cobrança dobra junto com a expectativa pelo que vem a seguir, e ao conquistar um clube tão seleto e elitizado de fãs, nada menos que genial será aceito. Os Beatles pararam de fazer shows para conceber Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band; Bob Dylan “aproveitou” um acidente de moto e se escondeu com uns hippies canadenses num casarão apelidado Big Pink, que também deu nome ao disco de estréia de uma tal The Band; e até o Radiohead, depois de se consagrar como a banda mais criativa de seu tempo em Ok Computer, precisou chutar tudo pro alto com o trabalhoso Kid A.

O Beirut alçou o posto de queridinho da crítica em 2007, ao lançar o álbum The Flying Club Cup. Combinando influências tanto da música cigana do leste europeu quanto do vaudeville francês e da inevitável música pop de seu tempo, o moleque genial da vez, Zach Condon, se esquivou de um monte de clichês indies para confundir rótulos em melodias aplaudidas por sua sincera beleza. Merecidos elogios foram distribuídos a seus arranjos cuidadosos e nada óbvios, e suas letras – crípticas o suficiente para permitirem milhares de interpretações, ao mesmo tempo em que capazes de sugerir todo o clima do disco. O potente grave na peculiar voz de Zach Condon faz com que as canções de Flying Club Cup soem ora como saídas de um espetáculo de teatro em Montmartre, ora como se empostadas por meia dúzia de beberrões apaixonados aos pés de um castelo na Hungria.

Mas hoje álbuns não são a mesma coisa, ninguém mais compra discos, e todo mundo tem tantos amigos no MySpace que dá pra você ficar de uma semana a uma década sem aparecer com música nova, que seus fãs ainda vão ter coisa suficiente para ouvir por aí. Ainda assim, o Beirut causou um impacto significante o suficiente para uma banda que poderia ser categorizada em World Music por qualquer ouvinte desatento. E o que vem a seguir?

Zach Condon tirou férias, cancelou shows, anunciou esgotamento físico e mental… E foi pro México gravar umas paradas com umas bandinhas de música tradicional local que tocam em funerais. Pra desanuviar, saca? E não, March of the Zapotec não é o Kid A do Beirut, nem o Sgt. Pepper ou o John Wesley Harding. É o que um moleque genial faz para dar uma desligada no cérebro, no sentido utilitário da coisa. Depois que o bebê Flying Club Cup foi criado e cuidado com atenção minuciosa a cada detalhe, arranjos escrutinados por seu compositor, instrumento por instrumento, March of the Zapotec surge de uma gestação claramente mais simples e objetiva.

Ao escolher trabalhar com bandas de música tradicional mexicana, em sua grande maioria composta por senhores de idade que começaram a tocar quando os pais de Condon ainda nem se conheciam, as possibilidades do artista foram limitadas por suas próprias escolhas. A base de suas melodias inevitavelmente seria o naipe de metais. A percussão dificilmente fugiria da batida quadrada das marchas. Ainda assim, todo o folclore e o sentimento por trás dos elementos que compõem uma banda de funeral mexicana parece irresistível para um artista que precisa eliminar suas próprias manias e cacoetes para voltar a se sentir criativo e original.

O resultado seis breves canções mais que justifica a vontade de se deixar levar de Zach. “El Zócalo” é a vinheta de meio minuto que abre o disco, como um recorte de uma banda de festa em cima de um palco de coreto. Um exemplo perfeito desses recortes de uma realidade já existente que exigem pouco ou nada do artista, além da sensibilidade. “La Llorona” e “The Akara” já lembram um pouco mais as estruturas de Flying Club Cup, como suas diferentes camadas de percussão, e os movimentos diferentes entre o estrondo do naipe de metais tocando todo junto, ou nos fragmentos de um solo de trombone ou uma virada no ukulele.

Aliás, os metais são a verdadeira voz de March of the Zapotec, já que Zach Condon soa mais e mais como parte da melodia, apenas. Sax, trombone, trompete, clarine e tuba soam mais alto que qualquer coisa em um disco que é quase um tributo ao desconhecido folclore mexicano. Eu não sei como uma orquestra tradicional de 17 músicos soa num funeral em Teotitlán del Valle, mas imagino que não seja muito diferente do que ouvimos em “On a Bayonet”. E se Zach não revolucionou a música ou chacoalhou mundinhos alternativos, através do que fica pra trás com March of the Zapotec, ele ainda pôde nos servir um aperitivo igualmente curioso e emocionante do que não devemos esperar para o próximo disco.

* O EP March of the Zapotec é distribuído lado-a-lado com Holland, EP atribuído ao alter-ego solo eletrônico vintage de Zach Condon, realpeople, que preferimos considerar uma auto-indulgência adolescente e deixá-lo de lado.

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