Texto que acabou não indo ao ar na cobertura que fiz pro IG, então publico exclusivamente aqui.
RIO DE JANEIRO – “Disseram que foi ousadia fazer o Viradão em dois meses, mas isso é um jeito mais leve de dizer ‘pura loucura’”, afirmou Jandira Feghali, sobre a correria durante o breve tempo de produção da festa. Sucesso inesperado no Rio de Janeiro, o evento inspirado por São Paulo foi feito “à carioca”, e acabou dando muito certo. Entre as propostas adotadas para o Viradão Carioca estava a idéia de literalmente “virar” a cidade ao avesso, fazendo que artistas da Zona Norte se apresentem na Zona Sul e vice-versa, ao mesmo tempo em que misturava todo mundo no Centro e Zona Oeste.
O residente de Ramos e cronista do popular, Dicró, se apresentou para o elitizado público do Leblon, no mesmo dia em que a velha guarda do samba tocava no Arpoador, entre Ipanema e Copacabana. Pelo outro lado, Marcelo Camelo se apresentou na Praça XV entre DJ Marlboro e Martinália. O Galpão do Aplauso, em Santo Cristo, recebeu show de Tom Zé, além de jams sessions entre banda de jazz e músicos do forró, do samba e do hip hop carioca – entre eles, Dudu Nobre, que também tocou no palco principal. E duas festas tradicionais da Zona Sul, a rockeira Maldita e a malemolente Brazooka (que acontecem tradicionalmente na Casa da Matriz, em Botafogo), foram parar na Lona de Jacarepaguá.
As Lonas Culturais, aliás, foram um dos espetáculos a parte do Viradão. Com estrutura bastante decente, tornando shows de médio porte em experiências íntimas de contato com o artista, os subúrbios possuidores de Lonas Culturais receberam programação cuidadosa e criativa. A Lona de Santa Cruz foi premiada com um Tributo a Tim Maia, com Sandra de Sá, Toni Garrido e Hyldon. Já em Vista Alegre, os moradores puderam assistir ao Tributo a Wilson Simonal, com Elza Soares e Farofa Carioca, além de show de Gérson King Combo.
O centro do Rio contou com programação diversificada, trazendo desde leitura de peça no Teatro Carlos Gomes (lotado) à meia-noite, passando por Batalha de MCs e Baile Funk, até chegar em sarau de poesia e concerto homenageando Villa-Lobos. O DJ Dodô Azevedo foi outra grande atração alternativa do Viradão, se apresentando nas jukeboxes da Praça Tiradentes (ponto tradicional de prostituição no Rio), e no Planetário da Gávea – em uma psicodélica busca por OVNIs ao som de Pixies.
Entre as principais críticas feitas pela população carioca ao viradão, estavam, além da divulgação apressada e em cima da hora, a necessidade de manter os pólos culturais funcionando ao longo do ano. Enquanto a prefeitura ameaça privatizar a administração de instituições da cultura carioca, como o Teatro Municipal, o povo do Rio de Janeiro responde através da lotação esgotada das apresentações da Orquestra Sinfônica Brasileira na Igreja da Candelária. Mais uma prova de que a cultura dita “de elite” só não é massificada pelo desinteresse da prefeitura em democratizar seu acesso.