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Rosbife ao molho de cebola caramelizada com purê de batata

Por quê?
Ok, mais uma receita de carne vermelha essa semana. Afinal de contas, você mora no Brasil (provavelmente), e tem a sua disposição algumas das melhores carnes do mundo. E por um preço bem mais razoável que em qualquer lugar da Europa, por exemplo. É praticamente o nosso Petróleo. E rosbife… Bom, rosbife é certamente Top 5 pratos com carne bovina da história. Portanto, respeitemos.

Quanto?

  • uma peça de filet mignon inteira, “limpa” (o que quer dizer só com aquela parte central do filet, que é redonda e comprida)
  • meia cabeça de alho, com os dentes descascados e picados
  • meia cebola, picada
  • meio litro de caldo de carne
  • um tomate pequeno, sem as sementes, picado – ou uma colher (de sobremesa, cheia) de extrato de tomate
  • uma dose de uísque ou conhaque
  • 2 colheres (de sopa, cheias) de mostarda
  • 5 colheres (de sopa) de azeite
  • 3 colheres (de sopa) de manteiga
  • tomilho seco (umas duas pitadas, tipo uma colher de chá cheia)
  • sal e pimenta-do-reino

Como?
Comece temperando o filet na noite anterior, sobre um pirex, com sal, pimenta-do-reino, a mostarda, e o alho picado. Não exagere no sal, porque de um dia pro outro ele tem tempo suficiente pra pegar na carne toda. E nada de furar a peça pra enfiar pedacinhos de alho, que isso só vai acabar com a suculência do rosbife. Cubra o pirex com filme plástico (pode ser uma panela com tampa) e deixe na geladeira até o dia seguinte.

no tempero

Antes de começar o preparo, tire o rosbife da geladeira, e deixe o forno pré-aquecendo em temperatura média por meia hora. Faltando 3 minutos, pegue um tabuleiro pequeno, desses de levar ao forno, e deixe ele pré-aquecendo em fogo alto – no fogão, mesmo, como se fosse uma frigideira. Passados os 3 minutos, cubra cada lado do rosbife com duas colheres de azeite (ou duas talagadas, se você preferir usar direto da garrafa), e leve o rosbife ao tabuleiro quente, para selar.

selando

Deixe a peça fritar por cerca de um minuto pra cada lado (ou até a carne desgrudar sem dificuldade do fundo do tabuleiro). Enquanto isso, cuide sempre para que os pedaços de dente de alho picados que estavam sobre a carne não grudem no tabuleiro, evitando que eles queimem. Você pode ir soltando os pedaços com uma colher.

ao forno

Quando os dois lados da carne estiverem dourados, desligue o fogo, junte o alho com a colher e cubra novamente a carne. Feche o tabuleiro com papel-alumínio, e leve-o ao forno (em potência média-alta) por 15 a 20 minutos (dependendo da potência do seu forno, e do quão mal-passada você curte a sua carne).

Enquanto o rosbife começa a assar, pique a meia cebola, e prepare duas panelinhas no fogão. Na primeira, você põe o caldo de carne com o tomilho e uma pitada de pimenta-do-reino. Deixe o caldo dar uma reduzida – isso significa mantê-lo em um estado de quase-fervura, em fogo médio-baixo (se for caldo desses em cubinhos, leve primeiro até a fervura completa, em fogo alto, e imediatamente abaixe o fogo).

cebola picada

Em seguida, na segunda panela, acrescente a cebola, a manteiga, e uma colher de azeite, e deixe a cebola refogando também em fogo médio-baixo, até começar a dourar. Quando ela já estiver dourada, caramelizando (quase marrom, mas antes de começar a queimar nas pontinhas), junte o tomate picado e abaixe o fogo para potência mínima. Se você for usar o extrato de tomate, apenas abaixe o fogo, porque o extrato entra em outra etapa.

quase pronto

Passados os 15-20 minutos, retire o papel-alumínio de cima do tabuleiro do rosbife, e leve-o novamente ao forno, agora em potência alta, por mais uns 3 a 5 minutos, para que ele termine de dourar. Se o alho picado ainda está todo em cima do rosbife, você pode aproveitar e derrubar mais ou menos a metade para o fundo do tabuleiro. Depois dessa segunda ida ao forno, retire o rosbife e devolva a peça de carne ao pirex ou a uma tábua, onde você possa fatiá-la.

caldo

Enquanto isso, leve o tabuleiro com todo o caldo e os temperos que ficaram no fundo de volta ao fogão. Acrescente o uísque ou conhaque, o caldo de carne da panela e, em fogo médio, deixe o líquido começar a reduzir. Com uma colher-de-pau, aproveite para soltar toda a “sujeira” do fundo do tabuleiro. Essa “sujeira”, que nada mais é que uma mistura dos temperos da carne com sua gordura caramelizada, vai soltar do fundo do tabuleiro e se dissolver no caldo. Aproveite ela ao máximo!

Em seguida, você deve transferir o caldo do fundo do tabuleiro para a panela das cebolas caramelizadas. Só que primeiro é necessário coar esse caldo – ou seja, passá-lo por uma peneira. Se você tiver uma peneira larga e resistente, dá pra simplesmente desligar o fogo da panela da cebola, e botar a peneira diretamente em cima da panela. Em todo o caso, use um jarro ou uma leiteira (essas panelas de ferver água e, obviamente, leite) fria, pra evitar que a peneira derreta.

molho de cebola

Depois de coado, junte o caldo de carne à panela das cebolas, e aumente o fogo para temperatura média, até que o molho dê uma reduzida e fique mais grossinho e encorpado, parecendo um molho madeira, quase. Se você optou pelo extrato de tomate ao invés do tomate picado, essa é a hora, também. Regule o sal e a pimenta-do-reino do molho – dependendo do tempero da carne, e do caldo usado, talvez nem seja necessário. Cubra o rosbife já fatiado com o molho, e delicie-se.

Onde?
Meu acompanhamento favorito pra esse rosbife com esse molho é um purê de batatas aromatizado com azeite (azeite de ervas, ou azeite trufado, ficam ainda melhor) e levemente gratinado com um bom queijo parmesão ou pecorino ralado por cima. Purê de mandioquinha também fica bom, ou um risotinho bem simples.

purê de batata com azeite e parmesão

Ferramentas: duas panelas pequenas, um pirex, um tabuleiro, colher-de-pau, papel-alumínio
Dificuldade: média – apesar do molho parecer complicado e ter várias etapas, o processo todo depois de tirar o rosbife do forno só deve levar uns 5 minutos
Rendimento: serve de 4 a 6 pessoas, dependendo do tamanho do filet mignon e da fome da galera

Para fazer ouvindo: Doces Bárbaros – “Fé Cega, Faca Amolada”

mousse de chocolate com café

Acreditem ou não, estamos de volta, encerrando enfim nosso longuíssimo Menu Mediterrâneo.

Por quê?
Acho que mousse de chocolate é um lance meio auto-explicativo, né? Mousse, que traduz como “deliciosa almofada aerada de sabores que dissolvem na boca causando prazer semi-orgásmico”, e chocolate, que dispensa apresentações. Também tunguei a receita do Bourdain, mas mais o modo de fazer do que os sabores… Então dá pra assumir como minha. Hehehehe… Sem contar que é a ultimate receita pra pegar mulher: tão perigosa que se você executar bem demais a mousse, corre sérios riscos dela querer casar contigo. Existem casos registrados.

Quanto?

  • algo entre 150 e 180g de chocolate meio-amargo picado (mire em 180g, e desconte os pedaços que você vai comer enquanto corta o chocolate)
  • uma dose (do tamanho de uma dose de tequila… um shot) de café de primeiríssima, BEM FORTE
  • 4 colheres (de sopa) de manteiga de qualidade decente e a mais fresca possível (no sentido de data de produção, mas se você tomar isso como “vou comprar uma manteiga francesa”, também tá valendo)
  • 1 xícara de creme de leite fresco – se você mora na roça, como eu, procure no rótulo das latas de creme de leite a que tiver o percentual MAIS ALTO de gordura, normalmente algo em torno de 25%, e compre essa (e use sem o soro e ligeiramente resfriada)
  • 4 ovos, gemas e claras separadas
  • se você usar um chocolate importado e REALMENTE amargo, acrescente duas colheres (de sopa) de açúcar de confeiteiro à receita – se o chocolate é brasileiro e “tradicional” (nestlé, garoto e congêneres), desencane, eles são doces o suficiente
  • chantilly para decorar

Como?
Vamos finalmente exigir um certo nível de complexidade e apreço dos nossos leitores. Afinal, essa é uma sobremesa refinada pacas, um bastião da culinária francesa tornado mundial. Tome como exemplo todos aqueles milhares de franceses guilhotinados na revolução por tentarem fazer mousse sem bater as claras direito, ou por usarem chocolate vagabundo que era pura gordura vegetal hidrogenada. Serão três etapas. A primeira é…

1 – DERRETENDO O CHOCOLATE
Prepare um banho-maria com o chocolate picado. Se você não sabe o que é um banho-maria, você provavelmente precisa passar mais tempo com a sua avó, seu neto mal-agradecido. Mas consiste basicamente em uma panela grande com água mantida entre morna e quente, em fogo baixo, com uma panela menor por cima, com o fundo tocando a água quente para que esquente indiretamente. É nessa panela menor que vai o chocolate. Tente fazer com que a panela maior não fique boiando pra evitar que entre água. E por “tente fazer” eu quero dizer “dá o teu jeito”. Porque se entrar água fudeu.

Misture ocasionalmente o chocolate com uma espátula, pra que ele derreta por igual. Retire do banho-maria, e acrescente então o café, e misture. Agora a manteiga, uma colherada de cada vez, misturando sempre. Finalmente, acrescente as gemas, incorporando bem cada uma delas antes de acrescentar a próxima. E tenha certeza de que seu chocolate está derrentendo lentamente, sem esquentar muito – se for preciso, apague o fogo por alguns minutos e depois volte a ligá-lo. Se o chocolate estiver quente demais, as gemas vão cozinhar, o que não é exatamente o que queremos aqui.

2 – AS CLARAS EM NEVE
Bata o creme de leite numa batedeira até que ele fique cremoso, quase em ponto de chantilly – você sabe que está no ponto quando consegue esculpir montanhas de creme de leite com a espátula e elas se mantém relativamente firmes. Misture delicadamente metade desse creme de leite batido ao chocolate. Existe uma técnica específica pra esse “misture delicadamente”, que consiste em despejar o creme de leite no meio do chocolate, e gentilmente, com uma espátula, ir raspando o chocolate pelas laterais para cobrir o creme no meio, como se você estivesse “dobrando” o chocolate sobre o creme.

Na seqüência, use a batedeira ou uma daquelas paradas específicas de bater claras em neve (foto no fim do post) para mandar ver nas suas 4 claras, acrescentando o açúcar pouco-a-pouco, se for necessário. As claras estarão “em neve” quando estiverem completamente brancas e parecendo uma espuma bem densa, daquelas de baile funk no fim dos anos 80 na baixada fluminense. Misture delicadamente as claras ao chocolate, da mesma forma que você fez com o creme de leite, e finalmente refrigere o mousse, em um pote grande ou potes individuais menores.

3- O CHANTILLY
Como mousse é uma sobremesa que é muito doce até quando não é muito doce, por causa da base de chocolate e a ausência de outros elementos que dêem uma quebrada na textura, o chantilly acaba sendo um de seus melhores companheiros. Antes de servir, bata a metade que sobrou do creme de leite fresco na batedeira até que ele fique bem cremoso, em ponto de chantilly, mesmo Ou apele para um daqueles de tubinho, que têm gosto de manteiga e vão dar uma detonada no refinado sabor da sua sobremesa. A escolha é sua.

Onde?
Depois do rango. Qualquer rango.

Ferramentas: uma panela e um pote (ou duas panelas) para fazer o banho-maria; uma espátula e uma batedeira e/ou batedor de claras em neve; e mais dois potes para bater o creme de leite e o chantilly separadamente

Dificuldade: Existe. Você precisa aprender os pontos certos das claras e do creme de leite, além de aprender a manusear com o devido cuidado um banho-maria e as claras em neve
Rendimento: 6 porções, ou “quatro porções mais os meus”

Para fazer ouvindo: Keziah Jones – “My Kinda Girl”

risoto de champagne*

Ok, sei que atrasei de novo, mas ainda em tempo (mesma semana pelo menos, pô), segue a receita do risoto!

* é, a foto ficou desfocada… ainda assim, essa foi a melhor de todas.

Por quê?
Um acompanhamento tradiça e de primeira linha, ou um prato principal simples, nutritivo e saboroso. Risoto é fácil de fazer e permite que você viaje pacas nos sabores, só exige alguma paciência pra ficar mexendo direto. Mas agrada pacas a mulherada… Vamos passar aqui uma receita bem básica pra um risoto branco, e umas sugestões de piração. Fique a vontade pra desenvolver sua versão.

Quanto?

  • 1 litro e meio de caldo de galinha (você pode seguir essa receita, ou dissolver uns 3 cubinhos do caldo pronto na água)
  • 2 xícaras bem cheias de arroz arbóreo ou carnarolli
  • meia cebola média picada
  • dois dentes de alho grande triturados (no espremedor, ou amassados e picados)
  • dois copos pequenos (tipo o de nutella, 200ml cada) de champagne ou vinho branco – claro que se você usar vinho branco, a receita deixa de ser “risoto de champagne” pra ser só “risoto”
  • manteiga, azeite, e sal; noz-moscada e pimenta-do-reino branca são opcionais

Como?
O lance do risoto é ficar mexendo o tempo todo. Diferentemente do arroz, que você evita mexer senão ele gruda, o risoto precisa ser mexido constantemente – e servido imediatamente, assim que pronto – pra não virar uma bola gigante de arroz empapado.

Comece fazendo mais ou menos um litro e meio de caldo de galinha (uns 3 cubinhos) e deixe ferver. Quando ferver, reduza o fogo para o mais baixo, e em outra panela (grande), refogue as duas xícaras de arroz com a meia cebola picadinha, azeite, um pouquinho de manteiga, e os dentes de alho triturados (comece com a cebola e deixe ela ficar clarinha, só acrescentando o alho no bem no final).

Assim que refogar, e antes do alho e da cebola começarem a dourar, acrescente o champagne, uma concha do caldo de galinha que continua no fogo baixo ao lado da panela do risoto, e mexa o arroz com os líquidos até que eles sejam incorporados e a panela comece a dar uma secada… Depois é só continuar mexendo sem parar, regando com umas duas conchas de caldo a cada vez que o arroz começar a secar, mantendo sempre esse esquema “secou/põe mais”.

No finzinho, quando o arroz tiver al dente (você provavelmente vai deixar quase 1/4 do caldo sobrar na panela), é ora de temperar o risoto. Sal a gosto – umas três boas pitadas devem bastar – e noz-moscada ralada na hora, com um pouquinho de pimenta-do-reino branca moída, também dá um toque especial. Essa é a hora de tunar o seu risoto com mais algumas coisas, ou você pode simplesmente acrescentar mais um último cálice de champagne, e servir assim que ele secar, deixando o gostinho da bebida um pouco mais forte. Já no prato, decore com duas folhinhas de manjericão fresco, e sirva.

TUNANDO SEU RISOTO
Já comi uma vez um risoto com paio fritinho em rodelas, couve refogada e bacon torradinho, que ficou inacreditável. Dá pra fazer também sem a couve, com qualquer lingüiça e bacon, o importante é que eles já estejam fritinhos (a lingüiça fatiada fininha e douradinha como de petisco, o bacon torrado quase preto, pra ficar bem crocante e esfarelar na boca, mesmo com a umidade do risoto). Salpicar uns queijos juntos também já fica bonzão, mesmo que seja só um parmesão (de boa qualidade) ralado na hora, ou uma gorgonzola esfarelada – você acrescenta os queijos já no finzinho, na mesma hora do sal. Cogumelos também caem bem…

Onde?
Puro, ou acompanhando uma carne qualquer: boi, peixe, frango, cordeiro, coelho… Risoto é quase tão prático e versátil quanto arroz – mas não vai ficar tão bom com feijão e farofa.

Ferramentas: duas panelas, colher de pau e concha
Dificuldade: tipo fazer arroz, mas com acompanhamento mais intenso
Rendimento: 4 porções grandes

Para fazer ouvindo: Curtis Mayfield & Lauryn Hill – “Here but I’m Gone”

Por quê?
Aproveitem: agora que o inverno acabou, capaz de rolar uns diazinhos de frio. Sei que essa semana chove até quarta-feira. Pô, então… sopa.

Quanto?

  • 3 ou 4 cebolas grandes
  • 350g a 500g de champignon (acrescente mais 100g – opcionais – pra jogar no meio da sopa depois)
  • caldo de galinha
  • 1 dente de alho grande
  • água
  • azeite, sal, pimenta-do-reino
  • queijo gruyére pra ralar em cima
  • creme de leite e noz-moscada são opcionais

Como?
- O CALDO DE GALINHA
(não se preocupe, essa etapa é nível PROFISSA, mas substituível por uma muito mais simples e rápida, nível TEEN AMATEURS)
Eventualmente, isso vai ter que virar um post à parte e tudo. O caldo de galinha é um lance que a gente subestima na culinária cotidiana, ficou fácil desde que inventaram aqueles cubinhos de gordura e sal temperados. Mas a real é que um caldo feito na unha, desde o começo, pode dar (muito) mais trabalho, mas o resultado final fica absurdamente superior. Só prepare-se: esse tu provavelmente vai ter que começar a fazer um dia antes.

Como eu moro na roça, não tive problemas em descolar um aviário – fui andando, inclusive – pra comprar a peça fundamental pra um caldo de galinha: as carcaças. [Admita: isso que é um blog de culinária. Duvido que nesses sites de receitinha vegan por aí você encontra a palavra CARCAÇA em algum post.] Se você é vítima da urbanização que assola nossas capitais estaduais, provavelmente vai ser mais fácil pedir pra um açougueiro, ou mesmo usar frangos inteiros – sem a carne, obviamente.

Fazer o caldo é simples: você deixa umas 3 carcaças de frango num panelão gigantesco com uns 10 litros de água (filtrado, de preferência, já que o caldo não deve efetivamente FERVER), mais umas 3 cebolas, cenouras, uns dois dentes de alho grandes, uma ou duas folhas de louro, e uma boa pitada de tomilho e salsinha (seca, se for verde, um punhado), e ainda umas 3 cebolinhas picadas grosseiramente (sem a raiz, mas com o talo) e uma colher (de sopa) cheia de pimenta-do-reino em grão. Aí você deixa elas ali em fogo alto por uma hora, ou até chegar bem perto de começar a ferver. Nesse momento, você abaixo o fogo pro mínimo e vai dormir. Não, sacanagem, como brigadista de incêndio treinado eu nunca poderia dar essa sugestão. Mas sério, descola um livro e uma cadeira confortável (e um botijão de gás reserva), porque esse caldo ainda vai ficar no fogo por umas 6 horas, no mínimo. O nome disso é REDUÇÃO.

No final a parada já vai estar bem mais densa (que a água, lembre-se), e num leve tom translúcido de dourado. Sério, é lindo. E cheiroso, tem aquele cheirinho de caldo knorr só que mil vezes mais sutil e apetitoso. Daí você joga as carcaças fora, os legumes e ervas, coa tudo no coador, depois coa de novo num filtro de café, volte o caldo pra uma panela menor, e deixa em fogo baixo de novo até a hora de usar (assumindo que você vai terminar o caldo e começar a fazer a sopa imediatamente). Esse caldo você pode usar em sopas, molhos brancos e risotos, deixando tudo muito mais inacreditavelmente espetacular.

- CALDO – Método Preguiça
Dilua três cubinhos de caldo de galinha em uma panela com pouco mais de 1 litro e meio de água. Leve ao fogo até que ferva, e imediatamente abaixe a temperatura para o mínimo. Deixe ali até a hora de usar, e tire uns minutinhos pra sentar no banquinho da cozinha e chorar porque seu caldo não vai ficar tão bom quanto o de quem se prestou a começar a fazer o jantar no dia anterior.

- A SOPA
Primeiro, pique as cebolas e, em uma panela grande, refogue-as no azeite. Jogue umas pitadas de sal pra cebola não soltar muita água, e se você quiser pagar de abusado, mesmo, uma colher (de sopa) de manteiga. Numa panelinha menor, coloque os champignons (lavados) em um pouco de água (até cobrir os cogumelos), e leve ao fogo até que ferva. Na panela das cebolas, por último, acrescente o dente de alho picado. Retire as cebolas (e alho) do fogo quando começarem a dourar – antes que escureçam, por favor. Espere que esfriem por uns minutos.

Essa próxima etapa exige algum cuidado pra você não se queimar: jogue as cebolas e o champignon num copo de liquidificador. Elas provavelmente ainda estarão quentes. Acrescente uma concha do caldo de galinha. Que também está quente. A essa altura, você já deve ter alguma idéia do quão resistente ao calor o copo do seu liquidificador é. Agora testaremos o motor e as lâminas: tampe bem o copo e, segurando a tampa com a mão, ligue o liquidificador. Entenda a seguinte equação:

LÍQUIDO QUENTE + ENERGIA + RECIPIENTE FECHADO = PRESSÃO

Agora que superamos o alarmismo, é CLARO que a pressão gerada por umas cebolas refogadas e uma mísera concha de caldo, mais a energia de um motorzinho vagabundo de liquidificador, é fraca demais pra causar qualquer estrago muito grave. Não, seu liquidificador não vai explodir (acho). Mas se você não segurar na porra da tampa direito, é capaz de espirrar caldo quente no seu braço e na sua cara, mané. Bata aumentando a velocidade progressivamente, até alcançar uma mistura clara e homogênea. Pode ser necessário acrescentar mais uma ou duas conchas de caldo pro liquidificador conseguir bater as cebolas direito.

Finalmente, leve a mistura grossa das cebolas com o champignon de volta à panela grande. Adicione pouco menos de um litro do caldo de galinha e misture bem até que quase ferva, e então abaixe o fogo. Acrescente sal e pimenta-do-reino a gosto, e se quiser, misture mais uma porção de champignons pra eles ficarem meio que boiando perdidos por ali. Ou batatas cozidas. Ou nada, só a sopa já deve estar delícia. Pra transformá-la em creme, acrescente mais meia (ou uma) lata de creme de leite sem soro, já quase na hora de servir (pro creme de leite não talhar). E aí também tem a ver umas duas pitadas de noz moscada ralada na hora (evite usar da moída, mas ok, serve). Ao servir, cubra a sopa (já nos pratos) com raspas de queijo gruyére, que você faz usando um descascador de legumes. Um pouquinho de azeite, umas torradinhas, e é isso. Finalmente.

Onde?
Bom, sopa é sopa, né? Eu termino de comer, e uma hora depois já tô catando um hambúrguer pra fritar. Mas curto altos, no frio não tem coisa melhor.

Ferramentas: um liquidificador e, se você for fazer o caldo todo, um coador tipo peneira e um coador de café
Dificuldade: TEEN AMATEUR (com caldo de galinha em cubinho) / PROFISSA (fazendo o caldo TRU)
Rendimento: 2 porções duplas (não é a mesma coisa que 4 porções, fica esperto)
Créditos: Essa é uma invenção minha, feita em cima de duas receitas diferentes do Les Halles Cookbook, do Anthony Bourdain: a sopa de cogumelos, e a sopa gratinada de cebola. A receita do caldo também é de lá, com pequenas alterações – mas receita de caldo é quase a mesma coisa sempre.

Para fazer ouvindo: Ella Fitzgerald & Louis Jordan – “Baby It’s Cold Outside”

Vamos tirar alguns minutinhos pra responder aos questionamentos da galera que chegou aqui pelos sites de busca nessa semana.

- dica macarrão não empapar
R: use muita água, espere ela ferver antes de colocar o macarrão, mexa bem durante o cozimento – principalmente nos primeiros minutos, e não ultrapasse o tempo de cozimento indicado na embalagem. Mais dicas AQUI.

- o que fazer se a feijoada ficar salgada
R: se ficar só um pouco salgada, acrescente umas 3 colheres de sopa de catchup, ou umas duas de extrato de tomate; se ficar muito salgada, acrescente um tomate inteiro, sem sementes, cortado em pedaços grandes, e deixe o feijão cozinhar mais um pouco, até que o tomate desapareça (pode ser necessário acrescentar mais água, também). E da próxima vez, use menos carnes salgadas, ou pelo menos, deixe-as de molho de um dia pro outro, pô.

- torresmo é feito de
R: porco. Principalmente pele e gordura.

- george foreman grill carne macia
R: saca aquele papo de que “elimina a gordura dos alimentos”? Então, lá se foi sua maciez… A dica? Use uma frigideira.

- como fritar bife de hamburguer?
R: com a frigideira bem quente, e sem espremer os hambúrgueres.

- um aperitivo feito de puro amor
R: qualquer coisa com álcool.

- carnes na chapa quente
R: é o jeito certo, parabéns.

- azeitonas para curtir
R: sempre achei as azeitonas roxas com jeito de mais saidinhas. As verdes tem um ar austero de nobreza, acho que elas não sabem curtir tanto.

- empadao de margarina
R: que nojo, bróder.

- do que é feita a salsinha?
R: clorofila. Você tá ligado que salsinha é uma planta, né? Acredite.

- como alho todo dia
R: manda bem, também curto altos, e minha tia-avó sempre diz que faz bem pro sangue. Só não recomendo se você tiver gastrite. De qualquer forma, consulte um nutricionista. E um Filet à Oswaldo Aranha.

- como é feita a manteiga pastosa
R: tira a manteiga da geladeira.

- como fazer bacon frito
R: com a frigideira bem quente, deixando ele lá um tempo sem medo de deixar o garotão tostar. E ao invés de jogá-lo em cima de um papel-toalha depois, leve-o direto ao prato e perceba a magnificência de sua crocância.

- qual o melhor oleo para usar na comida
R: azeite.

- rolas crocantes receita
R: alguém anda levando sua fixação oral longe demais…

Tudo começou quando um amigo, o Gas, veio com a idéia de uma trilha sonora pra um almoço mediterrâneo. Ele estava terminando de preparar uma coletânea do violonista espanhol Andrés Segovia, e veio me perguntar se eu não tinha uma sugestão de menu ou coisa assim.

Decidi fazer melhor: agitamos um almoço mediterrâneo aqui em Paracambi, no interior do RJ, e depois de uma corrida semana de preparação, ele finalmente aconteceu no último sábado, dia 6.

O menu segue abaixo, e nos próximos dias, vou postar as receitas de todos os pratos – foram 10!


1- Amuse-bouche
Pancetta na bruschetta


2- Aperitivo
Canapés de azeitona


3- Salada
Tomates recheados


4- Consommé
Sopa de cebola e champignon com queijo gruyére


5- Entrada quente
Polenta cremosa com funghi e prosciutto


6- Pré-prato
Pappardelle com ragú de alcatra e costela


7- Prato principal
Costeletas de cordeiro no crocante de mostarda, com risoto de champagne


8- Entremet (pré-sobremesa)
Cassata


9- Sobremesa
Mousse de chocolate meio-amargo com café

10- Café
Café premium; prato tricolor de frutas com uvas verdes, morangos e chantilly

Ninguém chegou no décimo prato, que acabou não acontecendo, e ficou na geladeira pra eu comer mais tarde. A real é que, entre galera chegando, fazer a social e beber cerveja, o “almoço” só acabou depois de meia-noite – mesmo eu tendo começado os preparativos na véspera. Acho que 10 pratos foi um pouco de ousadia demais. Por outro lado, também faz sentido precisarmos desse tempo todo – não só pra cozinhar, mas pra comer!

* Fotos: Letty

3 descobertas importantes dos últimos dias na internet:

1) Pelo blog Bebidinhas, da galera amiga do Rango TRU Ligia Helena e Tiago Agostini, conheci importantes informações sobre a quantidade média de álcool em uma dose ao redor do mundo.

2) Também pelo Bebidinhas, cheguei ao blog do Daniel – que também fala de birita – e a esse importantíssimo (e breve) guia sobre tipos, tamanhos e utilização dos copos de drink.

3) Ainda no Drink Drinker, um belo guia sobre uma das minhas bebidas favoritas: o Rum – com receitas de drinks!

Imperdíveis.

Pra dar um final bonito pra esse imenso tutorial sobre a feijoada, vamos fechar a série de posts hoje com duas coisas pra você fazer na cozinha depois da feijoada: a sobremesa, e um caldinho de feijão! Afinal, a galera vai voltar a biritar, e uma hora nego vai sentir fome de novo…

A primeira receita foi tungada do Jamie Oliver, e devidamente subvertida. A segunda é só aplicação prática da lógica do reaproveitamento em seu mais saboroso. Vamos a elas:

SORBET DE LIMÃO COM HORTELÃ

Por quê?
Antes que alguém comece a dizer “nossa Fred, que pederastia esse lance de sorbet…”, explico: é um sorvete sem leite. E uma palavra em francês a mais pra você tirar uma onda com as gatas. E uma sobremesa refinada (mais onda com as gatas). E é refrescante pacas, ideal pra esse nosso inverno subsaariano.

Quanto?

  • 2 copos (desses pequenos, tipo de Nutella) de açúcar
  • 1 copo (também pequeno) de suco de limão
  • 1 copo (idem) de água
  • raspas de 6 limões (raspas significam “a parte verde” da casca – com um ralador de queijo manual você consegue)
  • 1 punhado de hortelã (a original é com manjericão, que apesar de aparentemente estranho, também fica saboroso)
  • raspas de chocolate meio-amargo pra “decorar”

Como?
Pique o hortelã bem fininho, ou triture-o num miniprocessador – só as folhas, sem os galhinhos – e reserve (deve render umas duas colheres de sopa rasas). Em seguida, numa panela, misture a água e o açúcar e leve ao fogo médio-alto até a fervura, mexendo sempre. Assim que ferver, acrescente as raspas de limão, abaixe o fogo para manter a fervura, e continue mexendo por uns 4-5 minutos. Desligue o fogo e deixe esfriar por uns 5 minutos. Em seguida, acrescente o suco de limão, o hortelã picado, e misture bem.

Deixe a panela descansando em temperatura ambiente por mais uma hora ou um pouquinho mais. Passe o líquido pelo coador para um pote com tampa, e de preferência com alguma profundidade, e leve o pote ao congelador. Cerca de duas horas por lá até ficar bom, mas se você de meia em meia hora abrir o pote pra dar uma mexida lá dentro com a colher, em pouco mais de duas horas fica ótimo.

Onde?
Depois de um rango pesado, num dia quente, um sorbet de limão desses cai quase como um suquinho. Se você tiver afim de ousar, dá pra servir jogando uma bola em cima de uma fatia de brownie quente, ou simplesmente com umas raspas de chocolate meio-amargo por cima. Também fica bom com salada de frutas, especialmente as muito doces, ou até com brigadeirão (cuja receita deve aparecer por aqui a qualquer momento, já que é um velho favorito da casa, e fica pronto em menos de 15 minutos).

Ferramentas:

ralador de queijo

Dificuldade: Facinho, se você não esquecer das etapas e se perder no tempo
Rendimento: 4 porções

CALDINHO DE FEIJÃO

Por quê?
Porque sobrou feijão da feijoada. E a galera já tá bêbada, e com fome de novo.

Quanto?
Quanto sobrou de feijão (caldo e caroço) + bacon cortado em cubinhos + azeite.

Como?
Esquente uma panela, e com ela bem quente, jogue os cubinhos de bacon pra fritar. Enquanto isso, no liquidificador, bata o que sobrou do feijão até que ele se torne um creme. Se ainda estiver pastoso demais, acrescente um copo de água e bata mais um pouco.

De volta à panela do bacon, essa é a hora que você pode botar mais alho no feijão se achou que foi pouco da primeira vez: acrescente o alho triturado ali mesmo, junto do bacon torrando, e regue a panela com azeite. Quando o alho dourar, junte o feijão batido. Se já tava ok de alho, só o feijão e mais azeite, mesmo.

Misture com a colher de pau até ferver, e sirva em copinhos de shot (se você ainda tiver muita gente pra alimentar) ou em canecas (se a fome da galera estiver animalesca). Você ainda pode “decorar” a parada com mais bacon torradinho por cima, ou umas folhinhas de salsinha picadinhas, e claro, acompanhado sempre de mais azeite e uma boa pimenta pra quem é de boa pimenta.

Onde?
No fim do porre. Ou na ressaca. Puro.

Ferramentas: liquidificador
Dificuldade: dá pra fazer até bêbado
Rendimento: só depende de quanto feijão sobrou

Para fazer ouvindo: Marvin Gaye – “Trouble Man”

Ok, atrasei um pouco, mas ainda tá valendo. Hoje nosso tutorial da Feijoada chega a seu ponto máximo com a receita da feijoada. Se você é carioca, ou simplesmente curte um feijão preto no dia-a-dia, essa receita também é facilmente adaptável pro feijão caseiro, bastando usar apenas um pedacinho de carne qualquer – uma calabresa, ou um pedaço de bacon – pra dar aquele gostinho especial no feijão. Não esqueça de conferir nossas sugestões de acompanhamentos no outro post, e volte amanhã pra pegar as dicas do after-feijoada!

1) ESCOLHENDO AS CARNES, SEPARANDO O FEIJÃO

Existem três tipos básicos de carnes que vão numa feijoada: as salgadas, as muito salgadas, e as bizarras. Se você não tem tempo pra deixar as carnes de molho de um dia pro outro, pra sua sorte, as muito salgadas são minoria. Eu recomendaria escolher apenas uma dessas (costelinha!), que incluem carne-seca, costelinha defumada, e lombo suíno entre suas estrelas. As bizarras são aquelas partes do porco que você só percebe em detalhes num desenho animado, tipo rabo e orelha. Vamos deixar elas pra uma próxima vez e começar com algo que vai agradar mais ao senso comum nessa nossa sociedade tão urbanizada que esquece de comunicar-se com e reconhecer seu alimento no prato.

O que vai nos sobrar (e já faça desta sua lista de ingredientes) é:
- bacon
- lingüiças calabresa e portuguesa
- paio (bom pacas, e uma lingüiça subestimada no geral)
- eu já disse bacon?
- toucinho… que é a mesma coisa que BACON

Aliás, vocês não acham que o McSalad Bacon devia se chamar MCSALADA TOUCINHO DE FUMEIRA? Acho muito mais istáile.

Voltando à feijoada. Então você escolheu comprar umas costelinhas defumadas pra pôr na sua feijoada. Ótima escolha, garotão. Pra ser sincero, não curto muito carne seca na feijoada, por causa dos fiapos. Gosto de dar às pessoas a opção de comer um feijão limpo, e ter as carnes à parte. Assim que você chegar do mercado, ponha essas costelinhas num escorredor e deixe elas sob água corrente por um tempo. Sério, uns 3 minutos, no mínimo. Desperdício de água? Será? Mas essa água não volta praticamente limpa para os esgotos ajudando a diluir a sujeira antes que ela volte pro mar e pro seu ciclo de evaporação? Sério, queria ser meteorologista pra estudar essa parada.

Agora sua costelinha tá de molho numa bacia d’água, e você vai sentar na mesa pra separar o feijão. Precisa ser muito fresco? Não mesmo. A única coisa que não dá pra passar é pedra e aqueles com cara de PODRE e MOFADO. Carocinho quebrado, de outra cor, outro tamanho… tudo passa. Selecionados os feijões, eles vão para o fundo da panela de pressão. Claro que uma feijoada com feijões que dormem de molho de um dia pro outro fica mais macia, e coisa e tal. Mas sejamos realistas e analisemos a coisa friamente: uma noite de molho numa bacia d’água = 15 minutos a mais de panela de pressão. Calor ganha sempre, por isso que não tem fogo no pedra-papel-e-tesoura. Se bem que dependendo da pedra… Ok, divagação demais. Vamos logo pra próxima etapa.

2) NA PANELA DE PRESSÃO

Vamos usar meio saco de feijão (meio quilo, pra ser específico) numa feijoada pra 4 pessoas. As carnes você distribui de acordo com o que supõe ser o apetite da galera, mas vale lembrar que não se deve encher uma panela de pressão muito além de 3/4 da sua profundidade. Não queremos levar a culpa por panela nenhuma explodindo na sua cozinha, afinal.

Depois de botar o feijão na panela e acrescentar as carnes (inclusive aquela costelinha que tava de molho, lembra?), vamos cobrir essa galera toda com uns 3 dedos (generosos) de água a mais, 4 se você planeja deixar o feijão cozinhando por bastante tempo. Momento preciosista: costumo usar água filtrada, mesmo sabendo que tudo vai ferver. Só pela utopia de um caldinho mais leve mesmo, de sabores mais ricos… Enfim, paranóia.

De tempero, até agora, nada. Quer dizer, antes de tampar a panela, você pode (deve) acrescentar umas 3 folhinhas de louro, e só. Afinal, se você seguiu minhas instruções direito até aqui, dentro dessa panela tem pelo menos uns dois pedaços de bacon, o que já deve dar conta do recado pra começar. Se você realmente precisa tirar uma ondinha, jogue uns 3 ou 4 dentes de alho inteiros dentro da panela, que eles depois poderão ser comidos na boa, sem queimar a língüa.

Panela de pressão em fogo alto até que a pressão comece (a panela vai ficar naquele assovio fino ininterrupto). Isso deve levar uns 15 minutos, e depois é so abaixar o fogo pro mínimo, só pra manter a pressão e deixar aquelas duras sementes vegetais se transformarem no mais macio suco de porco já inventado em terras brasileiras. Por mais uma hora e meia, pelo menos.

Aí você apaga o fogo e espera até a pressão ir embora sozinha. Nada de jogar debaixo d’água ou ficar forçando a barra e levantando o pino de segurança pro vapor sair mais rápido. Espera, leva só uns 10 minutos, e o feijão continua cozinhando ali dentro. E aí chegamos na etapa final.

3) REFOGANDO O FEIJÃO

Com a panela de pressão destampada de volta ao fogo baixo, é hora de preparar o refogado numa panela à parte, que pode ser menorzinha. Vamos começar com azeite até cobrir o fundo da panela, e alho, muito alho. Alho é o que faz uma feijoada ficar com aquele gostinho fabuloso. O alho deve estár bem picadinho ou mesmo moído/triturado. E claro, quanto mais feijão, mais alho. Acho que uma cabeça bem pequena de alho tá razoável pra nossa receita. Mas eu gosto MUITO de alho. Se te parecer demais, tire uns dentes que já deve ficar ok.

Rola de pôr um pouquinho de cebola ralada, também – tipo, meia cebola pequena. Mas ralada, nada de pedacinhos: isso é feijoada, não é molho de tomate. E com o refogado no fogo alto, vamos esperar o alho dourar por completo. Atencão: dourar, não queimar. O limite de tempo entre as duas coisas é curto, mas existe. E também não rola de fazer com o alho muito cru, o feijão fica meio azedo. Com o alho dourado, acrescente umas 4 conchas do feijão, caprichadas em caldo, na panela do refogado. Mexa bem enquanto o feijão começa a ferver com o tempero, e volte a mistura temperada para a panela maior, diluindo no resto do feijão. Vale até jogar um meio copinho de água na panela do refogado pra soltar os pedacinhos de alho grudados no fundo e também misturar na feijoada.

Depois, é só ele continuar fervendo por mais uns 15 minutos em fogo baixo, com a panela semi-tampada, pra pegar bem o gostinho de alho. E é aqui que, quanto mais tempo o feijão ficar cozinhando, mais gostoso ele fica. Só fique ligado na quantidade de caldo – se ele ficar muito grosso ou começar a sumir, é melhor desligar logo o fogo para não correr o risco de queimar o feijão. Essa também é a hora de regular o sal do feijão: se você pegou leve nas carnes, ele vai pedir um pouco de sal (e uma pimentinha-do-reino moída também cai bem). Se te parecer salgado demais, uma dica aparentemente bizarra, mas funcional e inofensiva, é acrescentar umas duas colheres de ketchup no feijão. Sério, não mexe com o gosto da feijoada, e ajuda a cortar o sal.

Aí, galera, tá pronto. Apesar do longo tempo de preparo, e de alguns cuidados valiosos que devemos tomar na hora de fazer o feijão, a real é que é uma receita simples e moleza de fazer. E não dá pra ser mais brasileiro que isso!

Ferramentas: panela-de-pressão
Dificuldade: preguiçosa
Rendimento: 1/2 kg = 3-4 pessoas

Para fazer ouvindo: Cartola – “Alvorada”

Pra segunda parte do nosso tutorial da Feijoada, algumas receitas de drinks e petiscos cruciais e de fácil preparo para você ganhar tempo caso a galera chegue muito cedo e o feijão ainda nem esteja no fogo. Pra ninguém achar que tô tapeando vocês com esse lance de post seriado, uma das receitas de petiscos abaixo foi concebida HOJE, especialmente para esse blog e esse post em particular, com direito à sessão de fotos e tudo! E amanhã o Guia da Feijoada finalmente chega a seu ápice! Preparem suas panelas-de-pressão.

PETISCOS

Calabresa acebolada: Fatie a calabresa em rodelas finas. Se a tripa por fora da lingüiça atrapalhar demais a cortar, retire-a, mas depois é preciso passar a faca com mais cuidado e – por que não? – carinho com a lingüiça. Aqueça bem uma frigideira grande (ou uma panela larga), e acrescente as calabresas com um fio de azeite, até que elas cubram o fundo do recipiente. Assim que a calabresa começar a curvar e queimar as bordas, abaixe o fogo e passe uma espátula na frigideira, soltando e virando as fatias de lingüiça o melhor possível. Deixe elas assim mais uns minutos, e de vez em quando dê uma mexida pra garantir que ela vai dourar por igual.

Quando elas já estiverem bem vermelhinhas e com as bordas crocantes, tire as fatias de lingüiça da panela com uma escumadeira, deixando no fundo dela a mistura do azeite com a gordura da própria lingüiça. Acrescente a esse óleo as rodelas de cebola (que você fatiou enquanto a lingüiça fritava, obviamente), um pouco de sal e um pouquinho mais de azeite (se necessário), e aumente o fogo novamente. Frite as cebolas até que elas parem de soltar água, mas sem deixar que elas queimem ou dourem demais. Jogue as cebolas com óleo e tudo por cima das lingüiças, e sirva com pedaços de pão, torradas, e farinha de mesa. Ah, sim: prefira a calabresa vendida solta no mercado – mesmo as de marca famosa, tipo Sadia ou Perdigão, são mais frescas naturais.
- Quantidades: 2 lingüiças calabresas grandes / 5-6 pessoas

Salsichas crocantes: Leve as salsichas ao fogo em uma panela de água, e espere até que ferva. Escoe as salsichas, e reserve. Abra um pedaço da massa folhada (sem cortá-la) sobre uma tábua de carne ou sobre a pia levemente enfarinhada (farinha de trigo, obviamente). Se a massa estiver com aquele plástico por fora, nem é necessário a farinha, basta não retirá-lo por enquanto. Posicione as salsichas sobre a massa – normalmente, cabem duas salsichas em pé, uma em cima da outra, formando uma linha vertical na ponta da massa esticada na horizontal. Deu pra visualizar? Bom, enrole as salsichas na massa até que um lado dela toque o outro, e depois corte a massa com uma faca rente a essa junção. Pressione bem os cantinhos para que as salsichas fiquem bem enroladinhas na massa, soltando de leve o plástico da massa.

Fatie as salsichas com massa ainda sobre o plástico, em rodelas finas. Em seguida, coloque-as numa assadeira, ocupando todo o fundo dela, mas sem deixar que as rodelinhas de salsicha se encostem (a massa ainda vai crescer um pouco). Faça isso até que a massa ou as salsichas acabem, e leve a assadeira ao forno pré-aquecido. Confira na embalagem da massa o tempo de cozimento – não costuma ser mais que meia hora. Com uns 15 minutos de forno, já vale conferir, e se a massa tiver crescido e estiver dourada, já tá pronto. Sirva com potinhos de ketchup e mostarda.
- Quantidades: 1 pacote de massa folhada + 1 dúzia de salsichas / 6-8 pessoas (capaz de sobrar massa, até)

Bolinha de aipim com alho: Descasque e cozinhe o aipim* até que ele fique bem macio; reserve. Para cada dente de alho, corte metade dele em rodelinhas finas-mas-não-muito, e pique outra metade em cubinhos pequenos mas que você ainda consiga pegar com os dedos; reserve também. Amasse bem o aipim morno com um garfo, e acrescente a farinha de trigo e o sal. Misture bem com as mãos até formar uma bola de massa que você consiga modelar com as mãos. ATENÇÃO: se você colocar farinha demais, a massa vai ficar se despedaçando. Se você colocar farinha de menos, também. Então vai devagar…

Com o polegar e o indicador, retire pedacinhos de massa e faça bolinhas pequenas, apertando-as com os dedos para dar forma. Enrole leve e rapidamente as bolinhas entre as palmas das mãos, e ajeite ela sobre uns pedacinhos de alho. Faça primeiro todas as bolinhas, e depois empurre uns cubinhos e rodelinhas de alho contra a massa, com cuidado para não destruir as bolinhas. Essa é a hora de ser criativo: você pode até espetar as fatias de alho pra dentro da bolinha, deixando só as pontinhas de fora. Dá até pra rolar as bolinhas pelo alho, como um brigadeiro no granulado, mas tenha cuidado e depois dê mais uns apertões na bolinha pra ter certeza de que o alho vai ficar no lugar.

Aceite: parte do alho ainda deve descolar quando você mergulhar as bolinhas no óleo. E sendo super minucioso agora, uns 6-8 pedacinhos de alho picado, mais uma rodelinha pra cada bolinha, são o suficiente pra bolinhas pequenas, da largura de um polegar. Frite as bolinhas em óleo bem quente, de preferência usando uma dessas redes de fritadeira ou uma escumadeira grande para mergulhar o máximo de bolinhas possível no óleo AO MESMO TEMPO. O tempo de fritura é MUITO RÁPIDO, por isso o aipim precisa estar bem cozido e o óleo, bem quente. O alho começa a dourar em coisa de 15 segundos, e nuns 30 segundos a bolinha já tá praticamente pronta. Bateu em 1 minuto, parabéns, você queimou o alho todo.

Macete final: 95% das frituras ficam murchas se você tira do óleo e joga no papel-toalha. O ideal é que elas sequem primeiro num lance tipo aqueles do McDonald’s de fritar batatas (cês tão ligados, tenho certeza). Em casa, você pode substituir isso por um daqueles escorredores de macarrão de alumínio – não vai jogar no coador de plástico! Depois de uns minutos, aí sim você transfere o rango pra um pratinho.
- Quantidades: 1/2 kg de aipim (cru) + 2 colheres de sopa (nem rasa, nem montanhosa) de farinha de trigo + 1 colherzinha de sal + 8 dentes de alho = bolinhas pacas (5-6 pessoas)
*aipim = mandioca, macaxeira… você sabe.

DRINKS

Tangerina: 1 dose de vodca + 3 doses de suco de tangerina + gelo (confesso: curto Tanjal, aquele suco que vem na lata)
- refrescante, delicioso, e um ícone do underground carioca
*tungado da Casa da Matriz

Faux-Red Bull: 1 dose de vodca Smirnoff sabor Frutas Vermelhas + 3 doses de Guaraná Antarctica + gelo
- o drink fica com gosto de vodca com Red Bull

Cuba Libre: 1 ou 2 doses de rum + coca-cola até completar o copo + gelo
- um clássico eterno, ao menos enquanto Fidel não morre

Caipirinha: cachaça + açúcar + limão + gelo
- proporções? Te vira. Dá até pra fazer no balde

Para fazer ouvindo: Nina Simone – “Love Me or Leave Me”