A formação musical de Cartola (segunda parte) 1

*continuação daquele outro post

Ao se recuperar, ele voltou a exercer a profissão de pedreiro, que começara a praticar quando tinha 15 anos. Nas horas de folga trabalhava como compositor e violonista nos bares locais, ao lado do amigo Carlos Cachaça e Gradim. Pelo livro, as horas vagas eram muitas, pois Cartola largava tudo “para ir ficar na esquina, tomando umas e outras, tocando um violão ou fazendo um samba”. Nessa época, ele e os amigos se juntaram no Bloco dos Arengueiros para sair por aí e arranjar confusão, brigar mesmo, para competir com os blocos de outros morros.

Depois de certo tempo, cansado de toda aquela bagunça, Cartola fez o samba “Chega de Demanda” para juntar todos os blocos da Mangueira e dar um tempo nas confusões. Ele viu que era melhor fazer música que briga e se reuniu com os amigos, no dia 28 de abril de 1928, e fundou a Estação Primeira de Mangueira. O nome Estação Primeira foi porque a Mangueira era o primeiro morro depois da Central do Brasil que tinha samba. As escolas de samba foram fundamentais para a divulgação desse ritmo (cuja origem ainda é incerta, pois uns dizem que é carioca e outros, baiano) em todo o Brasil.

Nessa época o samba era cantado no fundo da casas, porque era tido como coisa de marginal, de malandro, e mesmo assim a polícia aparecia sempre aparecia para estragar a festa. Pouco tempo depois foi organizado concurso de samba com a Portela e a Estácio, que também tinham as suas agremiações de música. O samba logo ganhou a cidade e os músicos passaram a descer o morro para mostrar suas composições.

Cartola, orgulhoso, não descia. Se estavam interessados em suas músicas, que subissem o morro, dizia. Mário Reis então subiu e comprou Infeliz Sorte, que foi gravada não por ele, mas Francisco Alves, um dos maiores cantores populares brasileiros (famoso com Aquarela do Brasil). Depois disso, ele passou a vender mais músicas (Não faz amor, Tenho um novo amor, Divina Dama, Diz que foi o mal que fiz – todos em parceria com Francisco Alves), com a condição que fosse creditado como o compositor delas.

“Comecei a ficar conhecido lá embaixo, comecei a fazer negócio. Comigo e o Chico (Alves) sempre deu tudo certo. A confusão foi com Na Floresta, mas foi lá entre o Chico e o Sílvio Caldas. O Bucy Moreira tinha um samba que o Chico gostava da letra, mas não gostava da música. E a música do meu samba Na floresta encaixava direitinho na letra do Bucy, que se chamava Foi em sonho. Em cima dessa letra o Chico botou a música do meu Na Floresta. Aí minha letra ficou jogada fora. O Sílvio Caldas conhecia a letra e, um dia, resolveu botar uma música. E gravou. O Chico saltou, quis interditar o disco, coisa e tal. Mas o Sílvio convenceu o Chico de que ele só tinha comprado a melodia: ‘Você deixou a letra de lado e o Cartola precisa ganhar dinheiro1′. Aí o Chico resolveu deixar pra lá”.

O músico logo se tornou aproximou de Noel Rosa por causa de uma treta com José Gonçalves (ou Zé Com Fome) sobre a música Não Quero Mais. Em 1932, ele passou a dar uma canja no grupo Com que Roupa, criado por alguns sambistas em homenagem ao poeta da Vila. Ele tocava cavaquinho,  fazia o acompanhamento das músicas e era tido como um bom solista. Nessa época começaram a surgir várias escolas de samba, tanto em que em 1934 foi fundada a União Geral das Escolas de Samba (UGES). Para sobreviver, Cartola trabalhava com qualquer função que aparecia. Era pedreiro, peixeiro, sorveteiro e teve diversas outras profissões. Encarava qualquer expediente para ganhar dinheiro.

O ano de 1933 foi aquele que teve a gravação do primeiro sucesso de Cartola: Divina Dama, por Francisco Alves, na etiqueta Odeon. No mesmo ano Angenor formou com o compositor Wilson Batista e Oliveira da Cuíca (o primeiro cuiqueiro da era do rádio) um trio vocal-instrumental que chegou a excursionar a Barra do Piraí mas se desfez logos depois.

Angenor estava sempre estudando o violão, aprimorando a sua técnica. Seu parceiro, Carlos Cachaça, era um grande letrista e orador oficial da escola. Os dois juntos se complementavam, mas Cartola viu que precisava melhorar as suas letras e passou a estudar poesia. Leu Castro Alves, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Guerra Junqueiro (seu preferido, segundo a autora) e algumas coisas de Camões até se dar por satisfeito. Carlos Cachaça contava que Cartola era chato para parcerias musicais. Fora ele, Angenor só foi ter outros parceiros no fim da vida. “A gente compunha assim: a letra vinha com uma música. Um fazia e o outro aperfeiçoava. Era recíproco”, disse certa vez.

Em 1935, o samba passou a fazer oficialmente parte do Carnaval carioca, por decreto do então prefeito Pedro Ernesto Batista. De certa forma, esse foi o primeiro reconhecimento oficial do trabalho feito por Cartola e de outros sambistas. Sua vida no entanto não mudou. O músico continuou compondo e vivendo na penúria. Ele, que era mestre de harmonia da Mangueira e compunha para a escola de samba, chegou a penhorar as medalhas que ganhou em um concurso de samba para se manter.

* continua em um terceiro post

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