Quando parece que não há mais tempo para lançamentos em 2012, aparece este ótimo disco do pernambucano/carioca Matheus Mota, ‘Desenho’ , que sai hoje em CD pela Cloud Chapel. Mas você ouve de graça aí embaixo:
Em 2009, fiz uma das piores entrevistas da minha vida, com o David Longstreth do Dirty Projectors. Estava no meu primeiro emprego, não conhecia direito a banda, e as perguntas não eram das melhores, mas ele não parecia muito disposto e respondeu ‘não sei’ para tudo. Este ano, fiz uma das melhores entrevistas da vida com o David Longstreth, do Dirty Projectors. Tirando as partes que eu fui meio boboca deslumbrada, ou quando cometi a gafe de fazer piada com o furacão Sandy, ou meio desconhecimento da Bíblia. Mas ele estava de ótimo humor, como você pode conferir abaixo.
Os álbuns anteriores do Dirty Projectors tinham um conceito definido, mas em ‘Swing Lo Magellan’ você se focou em fazer canções ‘individuais’. Como foi a experiência de ter essa liberdade para compor? E quais assuntos te inspiraram a escrever cada música?
Foi incrível. Não era uma regra no passado, que eu fizesse um trabalho unificado por um conceito, é só que eu estava gravitando em torno [daqueles assuntos]. Mas estava interessado, desta vez, em colocar esse conceito unificado em cada música que fizesse, colocar um mundo inteiro ou uma história em cada música. Isso foi muito legal. Os assuntos que acabaram entrando no álbum foram muitas canções de amor e sobre a morte. Amor e morte.
Percebi que você escrevia sobre a morte de uma maneira não exatamente mórbida, mas como se cantasse de uma perspectiva distante.
Acho que entendo o que você diz. Estava tentando entrar em contato com o fato de que todos nós vamos morrer. É um momento que todos vamos experimentar. Podemos controlar como vamos viver, podemos viver mais apaixonadamente ou propositadamente.
Você se sentiu mais à vontade para escrever sobre coisas pessoais, como nas canções de amor?
Acho que sim. Não é algo que eu confiava em mim mesmo para fazer antes, tentar escrever um sentimento profundo. E não colocar camadas ambivalentes ou esquisitas digressões ou coisa do tipo. Fazer a coisa mais simples é a mais difícil de fazer, quando você está escrevendo sobre amor, ou um sentimento que você tem. Transformar isso numa canção é algo que nem tinha pensado em fazer até agora.
‘Offspring Are Blank’ parece uma canção bíblica, é verdade que você estava lendo a Bíblia quando compôs ‘Swing Lo Magellan’?
Sim. Como parece bíblico para você?
Eu estava realmente pensando sobre Adão e Eva, depois li você dizendo que era sobre superpopulação, e fiquei confusa.
É sobre as duas coisas. É sobre as pessoas se amando, e se entendendo. Não sei, às vezes uma canção é só uma canção, não quero sentar no sofá e ficar interpretando as coisas que escrevi. Você sabe como é.
Não conheço muito bem a Bíblia…
Você deveria conferir! É bom.
Tá na minha to-do list faz tempo. Fiquei pensando sobre Gênesis, e aqueles filhos todos que Adão e Eva tiveram, um mata outro, essas coisas.
Você meio que sacou. Confie em você.
Em ‘Unto Caesar’, podemos ouvir Amber perguntando umas coisas no fundo, é como se estivéssemos assistindo vocês gravando no estúdio. Você adicionou alguns takes de ensaios na gravação? Qual era a sua intenção?
Isso foi como uma janela no jeito que estávamos gravando. Basicamente estávamos gravando o tempo todo, de uma maneira bem informal, ao invés de tentar capturar uma representação platônica perfeita de uma canção e suas partes. Como produtor, queria que o álbum fosse mais solto. Sabe, você pode ouvir a gente tocando aquelas coisas. Uma coisa que eu não gosto da gravação digital é que você tem todo controle e pode deixar tudo perfeito. Mas quando há um espaço entre isso, é bom. Foi muito bom gravar do jeito que gravamos, e queria deixar esse sentimento no disco. Gravamos muitas músicas enquanto estávamos no Upstate. na última semana de gravação estávamos voltando lá para fazermos uns overdubs, harmonias, essas coisas. Estávamos fazendo isso de música em música, e pensamos ‘que droga, tem mais uma, ‘Unto Caeser’. Estávamos cantando tanto que a vibe ficou meio boba. Eu fiz uma mixagem grosseira e esqueci de tirar aquela bobeira, mas todos nós amamos, então eu deixei na música.
Ouvi dizer que você gravou umas 70 músicas para este álbum. Você tem um plano para o que fazer com as sobras?
Vou colocá-las num bunker subterrâneo, vou separá-las em prateleiras para o caso do inverno nuclear chegar. E aí poderei me alimentar delas pelos próximos oito anos.
Talvez no próximo furacão Sandy.
Ah, isso foi horrível. Acho que vamos fazer um show beneficente. Nós estávamos na Europa quando Sandy chegou. Alguns amigos meus estão envolvidos na limpeza, na área de Rockaways e em Nova Jersey. O trabalho que eles estão fazendo é tão inspirador. Eu queria poder fazer parte disso. Mas estávamos na Europa, depois na Islândia, depois viemos para Los Angeles, então não estávamos em casa.
Você tem notícias de como está Nova York?
Está ok. Tem muitas cidades funcionando normalmente agora. Long Island, você conhece? É uma extensa ilha onde fica o Brooklyn, Queens, tem uma área bem depois, fora do Brooklyn, chamada The Rockaways, onde você pode surfar. Mas lá ficou bem prejudicado. O colorista do filme que fizemos, Hi Custodian, o estúdio dele foi totalmente devastado pelo furacão.
É realmente muito triste, vamos mudar de assunto. Sobre o filme, o que você tinha em mente quando escreveu o roteiro?
Eu queria que parecesse um sonho. Não queria que fosse necessariamente um enredo linear, ou ter moral, coisa do tipo. Queria uma série de imagens que se relacionassem com as músicas. Também queria tirar pedacinhos das músicas, explodi-las e depois juntá-las, mas de um jeito diferente que o álbum faz. É do mesmo DNA, do mesmo tecido que o álbum, mas costurado de uma maneira diferente, de um estilo diferente, uma outra peça de roupa.
É bem interessante ouvir os takes separados, só as meninas cantando…
Adoro fazer isso. Enquanto um arranjador e compositor, quanto mais eu faço mais eu fico fascinado com os componentes individuais. Amo que quanto menos [peças] tem, soa maior, e mais esmagador. É uma atitude estranha, mas para mim poder me focar em apenas uma coisa é tão satisfatório. Amo fazer isso, como só as garotas em ‘Gun Has No Trigger’, fico feliz que você tenha gostado disso.
Eu ouvi bastante ‘Swing Lo Magellan’ durante o ano, então o vídeo era como o disco, mas diferente, gostava de ficar ouvindo as partes diferentes, uma coisa meio nerd de se fazer.
Totalmente nerd! [risos]. Legal.
Eu sei que você se inspirou em ‘Runaway’ do Kanye West, mas você acha que agora as bandas vão começar a fazer isso, uma espécie de vídeo complementar ao álbum, tudo parte da mesma obra de arte?
Espero que sim. Eu quero ir mais nessa direção. Foi muito divertido fazer o filme, e as amizades que fizemos com as pessoas do filme… e também a experiência de traduzir a música em imagens. Foi muito empolgante para mim, eu definitivamente quero fazer mais isso com o Dirty Projectors.
Eu estava no show do Dirty Projectors no Rio em 2009, e Caetano Veloso estava assistindo o show perto de mim. Depois eu vi que ele entrando no backstage e conhecendo vocês. Você já conhecia o trabalho dele? Como foi o encontro? Fiquei curiosa para saber o que vocês conversaram.
Caetano tem sido um herói musical meu por anos, eu comecei a ouvir a música dele pelos discos auto-intitulados de 68 e 69. Acho que ouvi esses pela primeira vez quando tinha 22 anos, por aí. Composição soberba, gravação incrível, ótimos arranjos, um cantor simplesmente maravilhoso. Acho a música dele tão inventiva e selvagem, foi tão empolgante conhecer Caetano. E ele foi encantador, foi incrível. Ele amou muito as garotas [risos]. Ele foi bem legal. Ele estava todo beijoqueiro, foi engraçado. Acho que nosso amigo David Byrne falou da gente para Caetano, e ele foi lá, acho que ele gostou do show.
É, ele estava com essa jovem garota, mas ela era amiga da banda de abertura. Mas ele estava interessado no show de vocês. Quais são suas lembranças daquela época no Brasil?
Nós amamos o Brasil. Rio, São Paulo. Amamos os shows, e amamos ficar lá no Rio, conhecendo os caras do Holger, as comidas… como se diz, capirinrras?
O quê?
[risos] Desculpe. O drink, como se pronuncia?
Caipirinhas.
Ah sim. E ir às praias. Foi muito legal, estamos realmente empolgados para voltar e tocar para vocês.
Eu vi um show no Youtube e vocês tocavam basicamente ‘Swing Lo Magellan’ e uma ou outra dos discos anteriores, é assim que estão fazendo nesta turnê?
Sim, é isso que vemos tocando. Estamos realmente focados no material novo, porque estamos muito empolgados com ele. E algumas músicas de Bitte [Orca]. Acho que você pode esperar essas coisas.
Você acha que este é seu melhor trabalho até agora?
Com certeza. Tem algo verdadeiro nas músicas mais do que tudo que fiz no passado. E também sinto que a banda está melhor do que antes, estamos nos divertindo mais tocando do que antes.
Tenho muita curiosidade sobre seu processo de criação. Você compõe tudo e apenas passa para o resto da banda, ou chega com uma ideia e vão fazendo juntos, como é?
Eu escrevo tudo. Cada vez é diferente, mas geralmente eu levo as canções e as orquestrações, todo mundo aprende e tocamos juntos. Tentamos achar o groove, essas coisas. Tocar ao vivo é bem diferente da gravação. Ainda mais quando você está fazendo loops na gravação, tentando descobrir como aquilo vai respirar ao vivo. Isso é tocar, sabe.
A mídia costuma chamar o Dirty Projectors de uma banda ‘arty’, mas também dizem que ‘Swing Lo Magellan’ é seu álbum mais acessível. Você pensa sobre essas coisas, sobre ser ‘arty’, e como as pessoas veem a banda?
Não sei. Eu só escrevo as músicas que se fazem necessárias para mim. E aí penso no que ela parece depois disso. Acho que fomos chamados de uma banda arty porque há muita inventividade musical no Dirty Projectors, é sobre tentar coisas que não foram feitas antes, e talvez que não foram feitas na música pop desde o século 14. Então provavelmente sempre vão se referir a nós como uma banda arty. Mas em termos do tipo de música que eu escuto, eu gosto de todos os tipos de música. Eu escuto sem fronteiras. E acho que muitas pessoas escutam desse jeito…
É, acho que todo mundo é assim agora.
É… Quando estou compondo, penso em tudo que tem apelo para mim e transformo em uma coisa só. Enquanto tem outros músicos que pensam ‘vou tentar ser indie’, ‘vou fazer uma música americana’. Isso nunca fez sentido para mim.
Que artistas contemporâneos você está curtindo ultimamente?
Eu sempre gostei de luz, sempre gostei de cor, e como a cor te faz sentir, a luz te fazer sentir. Comecei a pensar nisso quando estava fazendo os vídeos, ‘Hi Custodian’ e o clipe de ‘Gun Has No Trigger’. Ele é todo sobre combinar as cores com as harmonias. As harmonias que as garotas cantam nesta música especificamente eram cores. Recentemente me interessei por James Turrell, o artista da luz, e Olafur Eliasson. Quando estávamos na Europa, Olafur Eliasson tinha uma nova exposição chamada ‘Your Rainbow Panorama’, que estava instalada em cima do Aarhus Museum, na Dinamarca. É essa passarela de 360º coberta por todos os lados por um vidro colorido. Tem todas as cores do espectro, então você fica andando por um arco-íris infinito, olhando para a cidade. É incrível como você se sente. Muda um pouco quando você está na parte azul, na parte vermelha ou na parte verde do espectro. É uma coisa poderosa. Acho que esses são os artistas visuais que ando pensando ultimamente, os artistas da luz.
Vocês vão tocar no Carnegie Hall em janeiro, isso tem um significado especial para a banda? Por ser um lugar grande e famoso.
Não tem a maior capacidade de Nova York. Os dois últimos shows que fizemos lá foram em lugares maiores que o Carnegie Hall. Mas é um lugar lindo, com uma acústica maravilhosa. Provavelmente quando formos ao Brasil vamos agitar muito, mas existe um outro lado do Dirty Projectors que é mais quieto, acústico, que é mais cantar e tocas instrumentos acústicos. Vamos fazer mais coisas desse tipo do Carnegie, porque a acústica de lá é ótima para esse tipo de coisa, para o cantar natural.
É isso, obrigada pelo seu tempo, e te vejo em breve no Brasil.
Ah sim, você vai aos shows?
Sim, no show de São Paulo.
Demais! Foi legal conversar com você, obrigada por curtir o que a gente faz.
Tudo bem. Obrigada você por fazer o que eu gosto, eu acho [risos].
Faz dois anos que o Holger fez essa festa na piscina para gravar o programinha do Vincent Moon. Agora, que eles acabam de lançar ‘Ilhabela’, saiu o vídeo para relembrar as músicas do primeiro álbum.
Pelo movimento (falta de) nesse blog, vocês conseguiam imaginar o atraso né. Mas tá aí, a mixtape de outubro, com oito ótimas quase novas músicas.
Metade da mixtape é de artistas brasileiros, mas todos cantando em inglês (Holger, Filipe C.) ou não cantando nada (Guerrinha, The Good Loop). Entre os gringos, tem indie, fofuras e 8-bit.
1. Cayucas – ‘Cayucos’
2. Holger – ‘Another One’
3. Ducktails – ‘The Flower Lane’
4. La Sera – ‘Break My Heart’
5. Filipe C. – ‘Crack of Love’
6. The Good Loop – ‘Meltdown’
7. Constrobuz – ‘Video Games Are A Waste Of Time’
8. Guerrinha – ‘A Catadora de Smodees’
Entregando mixtape de setembro quase na hora de publicar a de outubro. Dureza, né? Mas vamos pular a parte das desculpas e lamentações e ir ao que interessa.
Este mês temos a nova cantorinha hipster do momento, MØ, o Matthew Friedberger sendo gênio e meio Caretaker, um unicórnio de Natal e outras doideirinhas.
1. Casa del Mirto – Faces
2. Memory Tapes – Sheila
3. Death Grips – Black Dice
4. Ruddyp & Taquwami – Hold
5. Matthew Friedberger – Matricidal Sons of Bitches
6. Sufjan Stevens – Christmas Unicorn
7. MØ – Maiden
8. Happy Jawbone Family Band – At the Hotel Double Tragedy
O Dirty Projectors, aquela banda que lançou o melhor disco de 2012 e toca em SP no final de novembro, divulgou uma música inédita, ‘While You’re Here’. Sem percussão e orquestrada, a triste canção é para um amigo(a) que morreu, e vai estar no EP About to Die.
Fazer um clipe zoeirinha/protesto é a cara do Trail of Dead. Então faz todo o sentido que, em época de eleições por todo lado, o clipe de ‘Catatonic’ seja o Jason Reece, bobão como é, fazendo sotaque texano e interpretando um político que se mete em altas aventuras que deixariam Aécio Neves com inveja.
Vocês também estão sentindo que esse disco novo do Trail of Dead vai ser maravilhoso?