"They say we can love who we trust / But what is love without lust? / Two hearts with accurate devotions / but what are feelings without emotions?"

27th
JUN

A Chapter Was Closed

Por marciok em Música, Pessoal às 12:37 am

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Minha relação com Michael Jackson começa pontualmente, incisivamente. 1984, ano em que “Thriller” atingiu temperatura máxima; o disco é de 1982, mas cresceu em 1983 – e em dezembro deste ano, após uma semana inteira de teasers nos intervalos, Cid Moreira anunciou para retirarem as crianças da sala, pois o vídeo que seria mostrado a seguir no Fantástico poderia assustar algumas pessoas. Era a primeira vez que o vídeo de “Thriller”, a música, era exibido no Brasil, pouco depois de seu lançamento no exterior. Naquela momento, a Música Pop mudou. E eu vi esse momento, ao vivo, no alto dos meus 13 anos de idade.

Mas não tinha absolutamente nenhuma idéia disso.

Já gostava de música, mas ainda não era uma prioridade – era, como ainda é para a imensa maioria das pessoas (e muitas vezes esquecemos disso), apenas um complemento; algo para se ouvir em festas, com os amigos, ou no rádio ligado para quebrar o silêncio da casa. Rádio, esse era o rei: gostávamos do que ele gostava, conhecíamos o que ele transmitia. E com isso, por exemplo, o punk não existiu por lá – exceto pelas imagens do festival O Começo do Fim do Mundo, no SESC Pompéia, em 1982, horrorizando a família brasileira (bem mais que o clipe de Thriller, diga-se – também vi isso ao vivo, na TV). E Michael Jackson surgiu praticamente do nada, para mim – claro que as músicas do Jackson 5 tocavam aqui e ali (mas me lembro mais do desenho animado), e o Off The Wall tocou bastante, mas ainda era só música, aquilo para quebrar silêncio, para gostar em alguns momentos. O caminho foi outro.

Poucos lembram, mas Paul McCartney lançou um disco em 1983 chamado Pipes of Piece, que na época fez muito sucesso. Eu gostava muito desse disco – não me lembro se era minha irmã que tinha ele, ou o Henry, meu vizinho. Paul e Beatles não eram uma associação imediata para mim; Pipes of Peace me chamou a atenção pois eu conhecia o Paul mais de Tug of War, disco dele de 1982, que estourou com o dueto de Paul com Stevie Wonder, “Ebony and Ivory”, que tocou massivamente nas rádios (eu também gostava da canção título, quase certeza que era influência da minha irmã). E em Pipes of Piece, Paul gravou “Say Say Say”, que também tocou bastante nas rádios – então eu conhecia Micheal mais por este dueto (Paul foi espertinho nos duetos, naquela época).

13 para 14 anos, aquela época em se ligava a chave da adolescência, que os pais deixavam de ser heróis, e as meninas deixavam de ser nada para serem…algo que a gente ainda não sabia bem, ou sabia, mas não como lidar (se é que aprendemos a fazer isso algum dia) – eram tempos inocentes. E nos reuníamos não só mais para brincar de carrinho ou jogar bola, mas para conversar – sobre todas aquelas idéias novas, aquelas impressões estranhas, aquele mundo que subitamente tinha ficado diferente. A palavra amigo também mudava de significado – não era mais um parceiro somente de brincadeiras, mas sim da estranheza do mundo.

E dentro destes novos assuntos, música começou a ser um ponto importante. Íamos nas casas uns dos outros para ouvir discos, durante estas trocas de impressões estranhas – e a música se tornava um denominador comum, uma ligação. Gravávamos fitas K7 para ouvir em casa, com fones – era a maneira remota de estarmos com os nossos parceiros. Cantávamos juntos, em círculos de amigos em salas de estar, muitas vezes sem prestar atenção – acho que a palavra para isso é comunhão. Todos juntos, para enfrentar uma nova época, com uma nova trilha sonora – se o mundo agora era nosso, e não o de nossos pais, a música também teria de ser diferente.

Lembro quando o assunto de uma dessas conversas com os amigos foi justamente o vídeo de “Thriller”. Foi um dos acontecimentos do ano, e definitivamente inseriu Michael Jackson entre nossas prioridades. Henry comprou o disco, todos nós gravamos fitas. E Micheal dançava. Muito. E passamos a dançar também. E com a dança, as reuniões de amigos começaram a virar festinhas. E com as festinhas, começamos a reparar mais nas meninas. Seus movimentos. E tínhamos um pretexto para ficar olhando os rostos delas diretamente – estávamos dançando. E, nas baladas, o calor do corpo delas dançando junto, trazia todo um novo caminhão de sensações. Rostos tocando, cheiros de cabelos, contato de braços.

Mais assunto para conversar com os amigos, no dia seguinte.

Não é exagero, então, dizer que conheci a paixão com Jacko sendo um dos apresentadores. O sentimento que me guiou, e me guia, até hoje, em quase tudo: amores, amigos, música, trabalho, família, casa…naquele momento que você se identifica como pessoa, como indivíduo. Não é um impacto pequeno.

E ontem, Michael se foi. E, estranhamente, mesmo sentindo uma certa tristeza, não me conectei ao fato, como muitos dos meus amigos, que ficaram arrasados. Por quê?

Talvez porquê ele tinha se desconectado da minha vida, e da maioria das pessoas, há muito tempo. Na verdade, ele mesmo havia se desconectado da vida dele fazia tempo – eu achava extremamente triste o estado final físico e psicológico da pessoa que mudou todos os conceitos da cultura pop. Não se reconhecia ali mais aquela pessoa que me apresentou a paixão – aliás, nele não se via mais a paixão, que era latente no seu auge: era uma pessoa que adorava o palco, que o dominava como nenhum outro.

Não se reconhecia a pessoa que fez de “Thriller” o álbum mais vendido de todos os tempos; que foi o primeiro negro a ter seu vídeo exibido na MTV – antes de “Billie Jean”, a emissora somente transmitia vídeos de artistas brancos, com medo da rejeição do público. Seu clip não foi somente exibido, como ele foi o artista que elevou esse formato à categoria de arte, justamente com “Thriller”, “Billie Jean” e “Beat It”. A imagem dos artistas sempre foi algo importante, mas com a revolução que ele desencadeou, passou a ser tão, e algumas vezes mais, importante que a música.

Não se reconhecia o, talvez, mais genial dançarino da história do showbizz. Que resgatou a tradição americana dos “entretainers” – os artistas completos, que cantavam e dançavam; nele se reconhecia a distante linhagem dos sapateadores, com seus movimentos de pé; o deslizar dos sapatos, como se flutuasse, com movimentos quebrados de pernas, direto de Mr. Dynamite, uma geração atrás; os movimentos robóticos e quebrados da break dance, que ainda estava contida nos guetos. Cab Calloway, Sammy Davis Jr, Fred Astaire, James Brown, B-Boys, estão todos lá.

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Não se reconhecia o cantor de imensa voz – mostrada desde a infância, com os Jackson 5, e que acabou meio relegada à segundo plano nas atenções pela performance visual na carreira solo. O mito sobrepujou o cantor.

Restava somente uma figura bizarra, carregando nas costas um imenso peso. Peso do seu início de carreira sob a mão de ferro do pai, que não poucas vezes lhe esbofeteou, e roubou boa parte de uma infância, que ele sempre tentou viver tardiamente. De ter se tornado o artista solo de maior sucesso da história, e de como tentar sustentar isso – e falhado, o ícone sobreviveu, mas o artista nunca mais foi o mesmo. De ter gastado sua fortuna em busca de uma felicidade que nunca veio. Das acusações de pedofilia, de suas plásticas, de suas paranóias.

Não era mais Michael Jackson. Era um corpo carregando um legado. Ao menos, o peso se foi.

Mas, involuntariamente (afinal, nada indica que foi suicídio), ele acertou no timing mais uma vez. A morte dele é tratada como o encerramento de uma era, pela importância dele como ícone; e, na verdade, realmente uma era está se encerrando, mas com a morte de Michael é que vai cair a ficha para a maioria das pessoas. Pois a cultura pop que Michael Jackson catalisou também está morrendo; o artista dominador e duradouro, líder das paradas, o megaastro, é um formato em extinção. Os discos, cujas vendas marcavam os reinados, estão desaparecendo, junto com as gravadoras, os videoclipes milionários, as mansões excêntricas.

Era um mundo diferente para Jacko, esse dominado por MP3 e um artista sensação por mês. Não há mais heróis, não há mais supergrupos e superastros, não há mais aquele artista que baliza os rumos de um ano, com presença massiva. Os anos 00 representaram o início do fim das instituições musicais, sejam os artistas ou as gravadoras; ainda existem alguns megagrupos, com megaturnês, mas todos são ainda sobreviventes da era passada: Stones, U2, Madonna. Existem grupos e artistas mais novos que ainda fazem grandes shows e causam algum impacto (Radiohead, Kanye West, Nine Inch Nails, etc), mas atingem somente alguns segmentos do público de cultura pop – não têm a abrangência que Jacko possuía em seu auge. E provavelmente nunca mais terão, pois agora não é mais o rádio, ou a MTV, que comanda os gostos – a música está ao alcance de um clique. As pessoas podem escolher do que gostar, basta quererem.

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Assim, Micheal Jackson fez seu último ato: fechou sua vida junto com um ciclo que ele mesmo ajudou a criar, como se junto com ele levasse o modelo de cultura pop do qual ele era o maior representante. Nada mais marcante que um rei morrer junto com seu próprio reino.

E eu, agora, não me lembro do Michael Jackson freak do final da vida. Nem mesmo do Rei do Pop que manteve o posto mesmo depois de parar de produzir, simplesmente porquê não teve herdeiros. Eu me lembro do cara lá do início do texto, que estava junto quando deixei de ser criança. O que não deixa de ser curioso, pois aparentemente ele terminou a vida sempre tentando voltar à infância que não teve, ao seu passado, à quando ele sorria, cantando, em cima de um palco.

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E você conseguiu, Michael. Trouxe uma conexão comigo de novo, lá no tempo que você gostava, no passado. Onde perdemos a inocência, em escalas diferentes; quando você mudou a cultura pop, eu mudei a minha vida. Talvez, ambos, nos dando conta que a inocência não era tão ruim assim, olhando pra trás e vendo todos os erros e acertos de todos esses anos – e se dando conta, no final, que nunca deixamos de ser adolescentes procurando entender a vida, querendo somente uma roda de amigos na sala que nos entendam. Mas acho que não tinha como ser diferente, nem para mim, nem pra você.

E tivesse sido, eu não seria o que sou. E se você não tivesse sido, o mundo não seria como é. Acho que valeu.

Descansa em paz, parceiro. E canta aí pra nós.

Comentários:

  1. ReKabke |

    Baita post, Maninho. Em tamanho e em qualidade. Kuddos!
    E, sim, eu tinha (tenho!) em “bolachão” e em CD o “Pipes of Peace” (não tinha como não ter depois do “Tug of War”). Os dois LPs tocavam direto no prato Technics do pai na sala de estar. Shared memories of ours… ;)
    MJ marcou a minha adolescência e a minha vida também. Ele foi a trilha sonora dos meus “ETFPel years” e por isso assino embaixo: eu também não seria quem sou e o mundo não seria o que é sem aquele tempo e sem MJ. Valeu SIM.
    Beijão!

  2. Simone |

    Eu também lembro da estréia do clip no Fantástico, assisti com medo de tanto assustarem, ia fazer oito anos. Claro que gosto bem mais do clip hoje, bjo.

  3. Coleta Mensal do Wilsera 06 « wilsera |

    [...] tenho o que falar do assunto, já se falou muito. Mas textos legais que li foram do Marcio K, do Matias e da Superinteressante. E dos relatos mais tristes, o do Uri Geller, e o da Lisa Marie [...]

  4. Na última edição do Capitalismo Punk… « Capitalismo Punk |

    [...] Michael Jackson morreu, e por pouco não leva a Internet junto. Convenhamos, Jacko era doido e podia não ter mais nariz, mas soube como sair com estilo. E com ele se vai mais um braço da já muito leprosa indústria musical, e vale a pena entender que isso nunca mais vai se repetir. [...]

  5. Maria José |

    O legado deixado por Michael Jackson é de uma qualidade incontestável. Ele, mesmo distante da mídia continuava no nosso imaginário, introjetado na nossa memória musical, por sua dança, por seus gestos, vestuário, inventividade, magnetismo, etc, etc, etc… A sua incrível criatividade foi e será sempre um presente divino para todos nós. Parafraseando o romancista Rubem Fonseca, não existe entre os seis bilhões que habitam o planeta terra alguém que se assemelhe ao MJ. Com sua arte ele rompeu limites e mudou paradigmas. Michael fez e sempre fará parte da nossa história. Uma imensurável saudade…

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