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Duas dissertações sobre Carnaval

Dia desses a Agência Brasil publicou uma matéria informando que a Uerj está selecionando interessados em curso de mestrado e doutorado no Carnaval. Ao mesmo tempo vi esse post do blog Farofafá, hospedado no site da Carta Capital:

Duas dissertações de mestrado, uma da Universidade Federal do Rio de Janeiro e outra da Universidade de São Paulo, jogam por terra as esperanças de quem sonha que o carnaval volte a produzir sambas-enredos memoráveis. O desfile e tudo o que gira em torno dele acabaram virando um “negócio promissor”, parte de uma indústria cultural que transforma a obra artística num produto con fins lucrativos.

“Tal mercadoria produzida por essas escolas, seja nos seus barracões – agora apropriadamente chamado de indústria do samba – seja, nas suas quadras, é constantemente observada por verdadeiros oligopólios do capital, principalmente, mas não somente, na área de hotelaria e turismo e, é claro, na mídia”, escreve Fábio da Silva Calleia, autor de “Folias de Carnaval e Lucros do Capital” (UFRJ, 2010).

O texto também fala da dissertação “O Enredo do Carnaval nos Enredos da Cidade – Dinâmica Territorial das Escolas de Samba em São Paulo” (USP, 2008), da geógrafa Vanir de Lima Belo.

Achei bacana o post pela menção a essas duas teses, que vou tentar ler porque me interesso sobre o assunto. Mas discordo um pouco dele porque parece que o ‘o povo do samba’ só se adaptou às regras do mercado, quando na verdade quis se beneficiar delas, vendo ali uma maneira de ser reconhecido por uma parcela da sociedade que até então os recriminava (e também ganhar um bom dinheiro). Mas concordo que o foco do samba hoje, principalmente o que é visto nos Sambódromos é pensado principalmente no viés comercial dele e está cada vez menos ligado às raízes.

É como disseram no comentário do blog: “‘Nós não somos mais, somos apenas coadjuvantes. Não sei se você sabe que esse negócio de artista a Globo impôs.’ resumiu tudo! é um pena que as grandes estrelas do carnaval ficam empurrando os carros…

Eu já escrevi sobre a relação do Poder Público e o Carnaval aqui e aqui, se alguém quiser dar uma olhada.

Alguns documentários sobre Carnaval do RJ

Alguns documentários sobre o carnaval do Rio de Janeiro. Uns falam dos blocos de empolgação, tipo o Cacique de Ramos e Bafo da Onça, e outros falam das Mulatas e dos Bate-Bolas. Esse aqui é da TV Brasil, com Bira Presidente, Beth Carvalho, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Marcelo D2…

Esse aqui sobre os 50 anos do Cacique:

Esse aqui sobre o Bafo da Onça (da TV Brasil tb):

Mulatas! Um tufão nos quadris: Estrelas anônimas da nossa maior festa, as mulatas são o emblema supremo do Carnaval. Ostentam, no passo impecável, a magia e sensualidade que hipnotizam a plateia e garantem a audiência planetária do espetáculo das escolas de samba do Rio. Muito além dos holofotes da folia e da brincadeira, suas trajetórias, paradoxalmente, conjugam melancolia, solidão e humor — além, claro, do mais profundo amor pelo Carnaval. “Mulatas! Um tufão nos quadris” contará as histórias das personagens mais cobiçadas da avenida.

Carnaval, bexiga, funk e sombrinha: sobre os clóvis ou bate-bolas no Carnaval (completo)

A história da relação entre o carnaval e o poder público

* Esse texto foi feito para a disciplina Projetos Experimentais 4, da Estácio de Sá, Curso de Comunicação Social – Jornalismo. Ele é a continuação do post anterior; Para ver o trabalho completo e diagramado é só clicar aqui;

Sobre a origem do carnaval
No ano de 604, o papa Gregório I determinou que os fiéis deveriam deixar de lado a vida cotidiana para se dedicar à vida espiritual durante 40 dias ao ano, como fez Jesus em sua peregrinação do deserto. Criou-se assim a Quaresma, em que o consumo de carne vermelha era proibido e a abstinência, o comedimento e a temperança eram incentivados. Em 1091 o papa Urbano II decretou a data oficial do período, que começaria com a Quarta-Feira de Cinzas e duraria até o domingo de Páscoa.

Na véspera da Quarta-Feira de Cinzas, as pessoas então começaram a se esbaldar nas carnes que não poderiam comer durante a quaresma. Faziam isso com festas, cantando, dançando e bebendo. Na Itália esse período era chamado de dias da “carne vale” ou do “carnevale”. Assim, nessa época as pessoas tomavam as ruas fazendo tudo que não podiam fazer durante a quaresma. Felipe Ferreira no livro O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro diz que as pessoas brincavam essas festas cada um a sua maneira.

Nesse primeiro momento, o Carnaval não é uma festa diferente das outras que aconteciam durante o ano, com seus excessos e descontroles. O que dava o caráter especial ao Carnaval, o que o distinguia das outras festividades, era a grande concentração de brincadeiras num mesmo período, a proximidade com a longa abstinência da Quaresma e o fato de a coisa toda ter dia e hora marcados para acabar, pois à meia-noite da Terça-feira Gorda – ou seja, ao primeiro minuto da Quarta-feira de Cinzas – tudo terminava e o mundo parecia reencontrar seu eixo”, escreveu Ferreira. A pesquisadora Martine Grimberg definiu no livro Carnavals et masquerades que “o Carnaval, antes de ser uma festa, é uma data”. A igreja, apesar de preocupada com os excessos da população nesse período, aceitava essas liberdades em troca delas seguirem a temperança da quaresma.

Ainda segundo Ferreira, a maioria das brincadeiras dessas pessoas contava com pessoas mascaradas e fantasiadas, como nas festas pagãs. Por volta do séc. XII estudiosos e pesquisadores começaram a escrever peças teatrais e contos humorísticos da briga entre o Senhor Carnaval, que tem os mais pobres ao seu lado, e a Dona Quaresma, que conta com o apoio dos ricos, grandes proprietários e da igreja. Ao longo do tempo, o Carnaval foi assumindo uma posição cada vez mais libertina e a Quaresma ficando mais magra e ossuda. De certa forma, é essa briga entre a libertinagem e a disciplina, que vai se estender por toda a história do Carnaval.

Em cada cidade, haviam grupos carnavalescos reunidos por idade, profissão ou interesses na folia. Essas turmas passaram a se chamar de sociedades alegres e se tornaram o padrão do carnaval da Idade Média. Cada vez mais organizados, passaram a cobrar taxas para organizar o desfile. Parte dessas taxas eram repassadas ao governo das cidades, que passaram a dar o aval oficial a essas festas. Em 1475, na Alemanha, ocorre o primeiro desfile de um carro alegórico que se tem notícia.

Durante a Renascença os nobres começaram a participar mais ativamente do Carnaval, financiando os desfiles e compondo versos para serem cantados pelos foliões. Eles vestiam luxuosas fantasias e saiam em grupos, como a Brigada dos Galés ou a Brigada das Flores. Até artistas como Michelangelo participaram do Carnaval executando as alegorias pensadas pelos nobres.

Depois do Renascimento, as festas foram ficando cada vez mais comerciais. As cidades tinha interesse em atrair os visitantes que queriam participar das comemorações. Bailes cada vez mais suntuosos são organizados para refletir o luxo das cortes européias e o Carnaval foi se tornando cada vez mais ritualizado e menos espontâneo. Bailes de máscaras, leituras de poesias e duelos se tornaram o Carnaval “oficial”. A festa de rua continuava a mesma bagunça, chegando a ser violenta. Segundo Ferreira, entre 1741 e 1763 o povo rechaçou a pedradas as cavalgadas e bailes de máscaras da nobreza da cidade francesa Salonde-Provence. Mas não era sempre assim. Em algumas cidades o povo se unia a nobreza para realizar os desfiles, até mesmo com a participação de africanos que acompanhavam o cortejo tocando tambores. Foi nessa dicotomia, entre o popular e o elitismo que o Carnaval foi se transformando ao longo do tempo.

O começo do Carnaval no Brasil
No Brasil, o Carnaval era como o de Portugal e consistia em diversas festas populares. Havia a folia-de-reis, procissão com caráter religioso, e os entrudos, que eram brigas de água, pó, cinzas, perfumes e todos os tipos de líquidos, além de brincadeiras como servir sopa cheia de pimenta, colar uma moeda no chão para as pessoas tentarem pegá-la em vão ou bezuntar escadas e maçanetas com líquidos escorregadios. Havia também queima de bonecos na véspera da Quarta-feira de Cinzas. Há relatos que havia entrudo em terras brasileiras já em 1553.

A maioria dos jogos de entrudo consistia basicamente em brigas de líquidos, pós e limões-de-cheiro (espécie de bola de cera recheada com líquidos). Havia os entrudos “familiares” praticados de dentro das casas pela elite econômica e os “populares”, feito pelas pessoas mais pobres e pelos escravos. Só os patriarcas das famílias eram poupados da bagunça. Havia também uma hierarquia a ser obedecida. Escravos não podiam jogar líquidos contra seus patrões, assim como escravos menos influentes não podiam tacar coisas contra os mais influentes. O contrário era permitido. Os jovens também aproveitavam os períodos de entrudo para o flerte menos formal, tocando os ombros e até o colo (ousadia das ousadias) das moças, como diz Machado de Assis no conto Um Dia de Entrudo.

Durante os “entrudos populares” os escravos jogavam qualquer coisa que tinham em mãos, inclusive urina e fezes, que carregavam para serem jogadas no mar. Alguns praticavam o ofício de fazer limões-de-cheiro e assim, ganhar algum trocado.

A chegada da Família Real muda o Carnaval brasileiro
De acordo com estudiosos, antes da vinda da Família Real portuguesa para terras brasileiras, os escravos africanos faziam suas festas e cerimônias para celebrar sua cultura e seus deuses junto com o restante da sociedade, que também tinha a suas procissões na época do Natal. Essas festas eram chamadas de “Festa de Congos” ou “Congadas”.

Mas com a chegada da realeza, em 1808, esses escravos foram proibidos de continuar com seus desfiles no Campo de Santana e em qualquer rua do Centro da cidade. Segundo as autoridades da corte, não ficava bem para a cidade que era a capital do reino português a reunião de milhares de negros promovendo “algazarra”, mas, na realidade, elas temiam que os negros acabassem se unindo contra o regime da escravidão.

entrudo

Restaram então aos negros, escravos e libertos, aproveitarem a confusão dos dias de folia para promoverem as cerimônias de coroação de seus reis e os desfiles de séquitos reais africanos pelas ruas do centro da cidade. Assim, todos os povos de origem africana (angolas, congos, moçambiques, gêges, iorubás, cabindas) promoviam o desfile de seus próprios reis. Essas procissões partiam das igrejas de cada irmandade e seguiam para o palácio do governo, na atual Praça XV, passando pela rua do Ouvidor.

No começo do século XIX, a sociedade influente se mobilizou pela imprensa e pela polícia contra os entrudos. Em 1831, a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro fez um estudo para apontar os males do entrudo para a saúde pública. Em 1832, a Câmara Municipal de Cidade de Desterro (atual Florianópolis) publicou um ofício que proibia o jogo de entrudo nos limites do município. Quem participasse do jogo levaria uma multa, se fosse cidadão, ou levaria 50 açoites, se fosse escravo. Dentro das casas, no entanto, a brincadeira familiar continuava permitida.

Apesar das proibições, das ameaças e das campanhas, o governo não conseguiu evitar que as pessoas fossem para as ruas brincar de entrudo. A alternativa para a algazarra veio com a burguesia, que importou o Carnaval elitista praticado na Europa, mais especificamente o da França. Assim, chegou o baile de máscaras chegava ao Brasil. Isso ocorreu por volta de 1840.

Como conta Felipe Ferreira, os bailes eram eventos sofisticados com regras rígidas de comportamento. Orquestras eram responsáveis pelas músicas. Era a oportunidade perfeita para os “novos ricos” se exibirem diante de toda a sociedade. Começaram a surgir lojas de fantasias. Aos poucos, como aconteceu na Europa, o termo “Carnaval” foi sendo usado pela imprensa para designar somente os bailes nos salões, enquanto “Entrudo” era a baderna na rua.

entrudo - debret

Esses alegres eventos foram as primeiras tentativas que a elite brasileira faria para substituir a brincadeira do Entrudo, considerada antiga e grosseira, por uma festa mais galante e adequada à nova posição que o Brasil pretendia ocupar entre as nações do mundo civilizado”, escreveu Ferreira.

Em 1855, foi criado o Congresso das Sumidades Carnavalescas que basicamente consistia em um desfile de nobres que iam de baile em baile para brigar usando “buquê de flores” e “confetes” com quem estava nessas festas. Era a ocupação da elite das ruas da cidade durante o Carnaval. De acordo com jornal Correio Mercantil, isso seria uma espécie de educação das massas sobre o que realmente era o período carnavalesco.

O uso de máscaras em lugares públicos, no entanto, era proibido por questões de segurança. Mas isso não impediu o desfile do Congresso. No ano seguinte, duas novas ‘sociedades carnavalescas’ desfilaram pelas ruas da cidade: O Clube Carnavalesco e a Sociedade Carnavalesca União Veneziana. Depois, várias outras cidades brasileiras ao longo dos anos tiveram suas próprias agremiações desse tipo. Aos poucos, elas ganharam seu espaço no Carnaval e o Entrudo foi perdendo a força, mas ainda estava presente e era alvo de reclamação.

Segundo o livro Rancho – Estilo e Época, “Neste ano (1885), a imprensa, liderada pelo jornal ‘O Paiz’, dava ressonância aos reclamas de camadas sociais influentes e abria campanha contra o entrudo. A polícia o reprime, e põe fim ao arremesso de baldes d’água, limões-de-cheiro e farinha de trigo sobre passantes, nos dias de carnaval”. Hoje em dia, a briga da imprensa contra o Carnaval consiste em atender a reclamação de moradores quanto ao trânsito caótico e foliões fazendo xixi nas ruas.

A volta da popularização do Carnaval
A classe-média começou a imitar os desfiles da elite e as sociedades carnavalescas se multiplicaram. Os mais pobres e os negros também se identificaram com os desfiles, pois eles tinham suas procissões religiosas, na qual usavam fantasias. Por causa disso, ocorreram brigas pelas vias do Centro da cidade, onde haviam os desfiles. Como ocorre hoje, várias agremiações queriam sair nos mesmos lugares e no mesmos horários, o que causava extrema balbúrdia. A imprensa começou a sugerir dicas de organização de passeio, mas o poder público nada fazia. As autoridades resumiam as suas atividades em reprimir o Entrudo.

As sociedades carnavalescas passaram a fazer uso de carros alegóricos puxados por cavalos. Para se destacar de outras sociedades, em 1875, os Tenentes do Diabo desfilaram com 253 carros. Como se pode ver, essa competição entre as sociedades complicava ainda mais o Carnaval, que havia se sofisticado para ser menos bagunçado. De olho nos lucros, os comerciantes, ao contrário de hoje em dia, brigavam pelo direito de suas ruas sediarem desfiles. Eles inclusive ornamentavam as ruas para atrair as sociedades carnavalescas. Hoje, a arrumação cabe somente ao poder público, ou pela empresa que quer patrocinar o Carnaval. Seria interessante se a prefeitura incentivasse que a própria sociedade civil se organizasse para enfeitar as suas ruas para a folia.

sociedade - tenentes fenicianos

Depois da passagem da última sociedade, começava a debandada [das ruas]. Enchiam-se os teatros e os salões das sociedades e o regresso aos lares longíquos tornava-se um problema. Os bondes subiam com gente até a tolda, e o desfile a pé por essas ruas era lento”, escreveu Coelho Neto na Revista Ilustrada de 18 de fevereiro em 1888. Bem parecido com o que ocorre hoje em dia, quando os transportes públicos ficam lotados. No Carnaval de 2010, a estação do metrô da General Osório, em Ipanema, fechou as portas por algumas horas por causa do excesso de passageiros.

Com a bagunça cada vez maior do Carnaval no final do século XIX, o entrudo ganhou força novamente. Os negros, agora libertos, também tinham maior liberdade de se expressar (mas a polícia ainda reprimia algumas de suas manifestações culturais). A elite quis mudar então o local dos desfiles, do Centro para Botafogo, que era longe dos desfiles populares. Mas não teve sucesso. A folia carioca ficava cada vez mais popular. Algumas sociedades carnavalescas, como o Clube Democráticos, chegaram a ameaçar não desfilar por causa da confusão. Ameaça esta que não foi cumprida. Pelo menos não imediatamente. Aos poucos, com a popularização do Carnaval, essas agremiações foram desaparecendo da folia, mas não antes de desfilarem na av. Central (hoje av. Rio Branco) sob olhares de populares em palanques que eram construídos temporariamente para o Carnaval, numa espécie de pré-Sambódromo.

Para piorar o quadro, surgiram os ‘Zé Pereiras’. A origem dessa manifestação foi com um português, José Nogueira, que desfilou pelas ruas do Rio batendo um grande bumbo. Diz-se que essa prática já ocorria em Portugal. Outros foliões começaram a imitar o lusitano e logo a cidade estava cheia de Zé Pereiras. Nessa mesma época, os chamados ranchos ganharam força.

As festas negras ganham força
Como diz o livro Rancho – Estilo e Época, “Situar a origem dos ranchos, no tempo e espaço, é correr o risco da imprecisão, mas a maior parte das informações disponíveis aponta como berço o atual Morro da Conceição no bairro da Saúde. Ali, na localidade conhecida como Pedra do Sal, reuniam-se pretos e mulatos baianos, depois do trabalho na estiva, para reviverem seus cantos, suas histórias, danças, ritos e outros traços da cultura baiana, resultante de um largo processo de sincretismo afro-ameríndio”.

congadas - debret

De acordo com a publicação, os ranchos por serem uma espécie de continuidade dos pastoris (manifestação religiosa mais primitiva), tinham influência totêmica em seus nomes (Flor do Abacate, Recreio das Flores, Rouxinol, Flor da Lira, Lírio Clube, Recreio do Jacaré), nas cores, nas danças negras e em seus símbolos (que eram desenhos de animais e plantas). Eram manifestações inicialmente mais simples, ao contrário das sociedades carnavalescas, que eram mais sofisticadas.

Em todo desfile dos ranchos, as Tias (como a famosa Tia Ciata) eram homenageadas pelos negros. Era na casa delas que eles faziam suas festas, seus sambas, que eram proibidos pela polícia. Com o tempo, os ranchos se sofisticaram e passaram a ser aceitos pela sociedade. Faziam desfiles pela av. Central e passaram a entrar oficialmente no calendário da folia carioca. Ao competir por melhores desfiles, os organizadores dos ranchos passaram a recorrer aos artistas da sociedade. Pintores famosos executavam trabalhos nos carros alegóricos dos ranchos, como Michelangelo fez muito tempo atrás.

Por causa dessa profissionalização do desfile, a imprensa passou a apoiar os seus desfiles e realizar concursos de melhor alegoria, enredo, dentre outras categorias. Segundo o sambista Nei Lopes, no livro O Samba na realidade…, explica que o rancho carnavalesco Ameno Rosedá (1907-1941) foi “quem primeiro levou o carnaval-espetáculo às últimas consequências, pois nasceu para representar ‘óperas ambulantes’, inclusive com coro e orquestra, buscando para tanto a contribuição da fina flor dos artistas e intelectuais da época, por pretender deliberadamente (e numa clara busca de ascensão social por parte da maioria de negros e mulatos que o compunham) uma ruptura com as tradições populares”.

Com a urbanização do Centro da cidade no começo do século XX, os ranchos sofreram um duro impacto, pois muitos negros tiveram suas casas demolidas para a construção da futura avenida Presidente Vargas. Assim, alguns ranchos perderam parte de suas raízes e laços familiares. Mas, com o aval do poder público, essas agremiações, como as ‘sociedades carnavalescas’ passaram também a desfilar na av. Central. Isso foi o início de seu fim.

De acordo com o livro Ranchos, estilo e época, “o que contribuiu para a lenta descaracterização e gradual perda de prestígio popular foi a oficialização dos desfiles. Os ranchos, além da contribuição dos sócios, passavam o livro de ouro entre comerciantes e populares, arrecadando dinheiro para investir na confecção e armação de seus desfiles. A oficialização inibiu esse recurso, já que o poder público acenou com apoio financeiro, que nem sempre chegava, devido a entraves burocráticos”.

Como foi lembrado por Eneida de Moraes no livro História do Carnaval Carioca, o presidente do rancho ‘Aliados de Quintino’, Radamés D’Ávila, em entrevista aos jornais, em 1957, disse que “a subvenção que a prefeitura dá aos ranchos, mas que é paga no Carnaval do ano seguinte, mal chega de ano para ano, para as despesas com os ensaios e o desfile no dia do certame”.

O fundador dos Decididos de Quintino, Waldemar Pereira, disse ao Jornal do Brasil em 04/02/78: “Rancho acabou quando começou a oficialização. Antes havia o Livro de Ouro, quem financiavam eram o povo e os comerciantes”. Ele explicou também que o Carnaval era divertimento das famílias e das comunidades. O primeiro desfile dos ranchos, no domingo de carnaval, ocorria nos bairros que surgiram, e no dia seguinte, na avenida.

ranchos

Por volta de meados do séc. XX, cada vez mais pomposos, os ranchos começaram a perder lugar para as escolas de samba, que na época eram agremiações carnavalescas mais simples. Um dos poucos ranchos que ainda desfilam hoje é o ‘Flor do Sereno’ em Laranjeiras, criado para resgatar essa tradição do carnaval carioca.

Assim diz Nei Lopes, citando Francisco Duarte, sobre a Deixa Falar (que depois viria a se tornar a Escola de Samba da Estácio): “No chão, o Bloco Carnavalesco Deixa Falar tomava formação de um rancho, com origem nos sujos ou embaixadas de então. Se os sujos eram a desordem e a briga, e o rancho o máximo em dança e coreografia disciplinada, o novo tipo de sociedade negra valeu-se de três elementos intermediários para alterar esse quadro de extremos: a dança espontânea, o canto das baianas e a nova harmonia dos sambas criados no Estácio. Com a dança espontânea e desinibida dos sambas de roda, mistura da improvisação dos lundus e sambas de umbigada com passos dos batuqueiros, eles se contrapunham à coreografia rígida dos ranchos e davam mais mobilidade ao desfile. O canto das baianas substituía o coro das pastoras, sustentando os estribilhos dos sambas de partidoalto enquanto os tiradores ou improvisadores aguentavam no gogó o canto para a harmonia do desfile”.

Esse tipo de agremiação passou a atrair atenção da mídia, que organizou concursos. Depois, com a profissionalização cada vez maior, os terreiros deram lugar à quadra de escola de samba. Os sambistas começam então a flertar com as classes mais favorecidas e com o Estado, criando sambas-enredo com temas nacionais e ufanistas, conforme o gosto dessas elites. Isso interessava ao povo do samba, pois com o aval do governo, a polícia parou de persegui-los. Órgãos do governo passaram a organizar os desfiles e os concursos, ditando os regulamentos que tinham que ser seguidos por essas agremiações.

Segundo a publicação, em 1962 os órgãos de turismo fecharam parte da avenida Rio Branco e instalaram arquibancadas em frente à Biblioteca Nacional e cobraram ingressos para o desfile das Escolas de Samba. Ainda segundo o livro, em 1970, a pretexto de acabar com os atrasos, esses órgãos limitaram o tempo de desfile de cada escola. Nesse mesmo ano, a televisão, que antes tomava apenas algumas cenas do desfile, passou a transmiti-lo integralmente.

Em novembro de 1975, as 44 Escolas de Samba assinaram um contrato de prestação de serviços que as obrigava a participar de todas as atividades programadas pela Riotur mediante a remuneração que era dividida entre os participantes. As agremiações recebiam 28% da renda do espetáculo, a Associação das Escolas de Samba, 12% e a Riotur, 60%. Em 1984, o governador Leonel Brizola criou o Sambódromo e tirou as Escolas de Samba das ruas.

Durante o século XX, continuou haver na cidade outras manifestações de folia, como os afoxés, e surgiram outros, como os blocos de embalo e de empolgação, que muita gente entende hoje como bloco de carnaval de rua, como o Carmelitas e o Cacique de Ramos.

Podemos ver então, como o poder público e a imprensa podem interferir, ajudar e prejudicar de diversas formas o Carnaval de rua carioca. Eles podem simplesmente reprimir, como o ocorreu com o Entrudo. Ignorar, como houve com as Sociedades Carnavalescas. E oficializar, o que pode ajudar a suprimir, no caso dos Ranchos, ou capitalizar, como foi o caso das Escolas de Samba. Resta saber qual vai ser o caso dos blocos de carnaval de rua do Rio de Janeiro.

* todas as imagens são do Debret ou são fotos tiradas da internet;

O choque de ordem e o carnaval de rua carioca

Crédito: Sandra de Souza / Flickr
Crédito: Sandra de Souza / Flickr

Como ocorreu pelo menos três vezes na história do Rio de Janeiro, o poder público está participando mais ativamente do carnaval de rua da cidade. A cada ano que passa, cresce cada vez mais o número de blocos de carnaval, assim como o de foliões. Isso aumenta a desorganização da cidade, com denúncias de roubos, bagunça, sujeira e xixi na rua, o que revolta os moradores que não curtem o período carnavalesco. Com a escolha do Rio como um dos lugares que vai sediar a Copa do Mundo de 2014 e a cidade-sede das Olimpíadas de 2016, a prefeitura passou a querer organizar o carnaval carioca e dotar o município de uma melhor infraestrutura para receber os blocos de rua.

Essa reorganização do espaço público vinha ocorrendo primeiro em outras esferas sociais da cidade, como nos chamados “choques de ordem”, que até ganhou uma Secretaria Municipal própria. Com os “choques de ordem”, moradores de rua são recolhidos para abrigos, materiais ilegais vendidos nas ruas são apreendidos, publicidade irregular é retirada e guardadores de carro sem licença são presos.

No carnaval de 2010, o “choque de ordem” consistiu em prender quem urinava na rua (reclamação constante de associações de moradores e de comerciantes), cadastrar todos os ambulantes que queriam vender cerveja e água durante o carnaval (e apreender o produto daqueles que não estavam cadastrados) e ordenar o horário e o local que os blocos de carnaval iriam sair, para que não houvesse desfile simultâneo, e assim, não tumultuando o trânsito. Como explicou secretário Especial de Turismo e presidente da Riotur, Antonio Pedro Figueira de Mello, no evento Desenrolando a Serpentina – organizado em agosto pela Sebastiana (Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro), que reúne alguns dos mais tradicionais blocos de carnaval de rua do Rio – até 2009, a ação da prefeitura para o carnaval era conceder, pelas subprefeituras, o “nada opor” (documento que permite algum evento acontecer em área pública) e colocar banheiros químicos nas ruas no percurso dos blocos de carnaval.

Crédito: G1
Crédito: G1

Não fazia sentido pra mim como presidente da Riotur administrar o carnaval de rua da maneira como ele vinha crescendo, ou seja, só com a colocação de banheiros químicos. A gente ficava sabendo onde o Suvaco de Cristo saia. O Cordão do Boitatá a gente tinha conhecimento do percurso, assim como a Banda de Ipanema, mas vários outros blocos a gente não sabia onde eles estavam. Esse mapeamento foi fundamental para que pela primeira vez a gente colocar infraestrutura na cidade”, disse ele.

O primeiro ato tomado por essa nova gestão da prefeitura no sentido de ordenar o carnaval foi baixar o chamado “decreto dos blocos”, em maio de 2009, que determinou o tempo máximo que um bloco pode ficar na concentração e desfilar e que ele tem que pagar direitos autorais ao ECAD (Escritório Central de Arrecadação), dentre outras coisas, pois caso contrário, poderão ter o pedido de desfile indeferido no ano seguinte. Apesar disso, “não teve nenhum bloco que a Riotur chegou e disse ‘você não vai poder sair’. Nenhum. O que a gente fez foi organizar os desfiles”, frisou o secretário.

Eles também tem que fazer o cadastramento de todos as agremiações que queriam sair no carnaval do Rio. “Nesse momento, muitos acharam que era uma ação repressora da prefeitura, que ela queria intervir na vida dos blocos. A prefeitura tinha que ter um raio-x desse carnaval para entendê-lo. Quase 99,9% dos blocos se cadastraram. Isso foi importante para a gente saber onde íamos colocar os nossos serviços e orientar a Comlurb, Cet-Rio, Guarda Municipal”, afirmou Antônio Pedro.

Com isso estabelecido, a cidade adotou para o carnaval o “caderno de encargos”, normalmente usado para o Reveillón. Com esse caderno de encargos, a empresa ganhadora de uma licitação ganha a permissão de patrocinar algum evento em troca de dotá-lo de infraestrutura como banheiros públicos, atendimento médico (como ambulâncias), controle de comércio ambulante, programação visual (de filipetas e site turístico) e decoração visual com motivos carnavalescos da avenida Rio Branco. Segundo Antônio Pedro, só com esse caderno de encargos, a prefeitura conseguiu economizar R$ 5 milhões em 2010.

Foi criado então uma Coordenadoria de Blocos de Carnaval com 40 funcionários espalhados em toda a cidade acompanhando a festa de rua para saber se o caderno de encargos está sendo cumprido e assessorar os blocos e a cidade. “Era muito mais fácil deixar na mão da subprefeitura que vai ali e dá o ‘nada opor’ a quem quiser, mas eu tinha grande medo que o carnaval de rua acabasse por causa de alguma briga. A ideia foi dar o máximo de conforto para os foliões, os não-foliões e os turistas”, disse o secretário.

De acordo com a estatísticas da Riotur, em 2010 foram 465 blocos de rua realizando 670 desfiles que juntaram 2,491 milhões de foliões, sendo que cerca de 800 mil eram turistas estrangeiros e de outras cidades do Brasil. Para o ano que vem, o patrocinador vai ter que dotar a cidade de uma infraestrutura ainda maior. Segundo o caderno de encargos do carnaval de 2011, a quantidades mínimas de 6.400 banheiros químicos (o dobro em relação a esse ano); 800 diárias de controladores de tráfego (300 a mais que em 2010); 50 faixas e 250 galhardetes de sinalização de trânsito; 80 diárias de UTI móvel e a publicação de um guia com o roteiro dos blocos com tiragem mínima de um milhão de exemplares (o dobro do exigido anteriormente). Além da avenida Rio Branco, a avenida Princesa Isabel também será decorada com motivos carnavalescos.

Fora dotar a cidade com maior infraestrutura, através do caderno de encargos, outra mudança para o carnaval do ano que vem foi o veto da prefeitura ao desfile de blocos de carnaval na rua Dias Ferreira, atendendo a reclamações de moradores do local.

Este ano ela ficou completamente interditada pois dois blocos desfilaram ao mesmo tempo na via. Em um extremo dela estava o ‘Azeitona Sem Caroço’, que há 13 anos sai no carnaval. No outro, o ‘Sapucapeto’, que desfilava pela primeira vez. Isso impediu completamente a circulação de moradores porque atraiu uma quantidade enorme de foliões (muito mais do que quando era apenas o Azeitona), causando nas palavras do presidente da Associação de Moradores e Proprietários de Prédios do Leblon, Augusto Boisson, “um apocalipse urinário”. Antonio Pedro, no entanto, disse que ainda há possibilidade de haver bloco na rua contanto que eles não passem pela rua General Venâncio Flores, pois ela liga o bairro à praia.

“Não teve nenhum bloco que a Riotur chegou e disse ‘você não vai poder sair’. Nenhum. O que a gente fez foi organizar os desfiles”, frisou o secretário.

Esse veto acaba com o percurso tradicional do ‘Azeitona Sem Caroço’, formado por amigos frequentadores do Bar Azeitona, na Dias Ferreira. Há 13 anos eles saem do bar, desfilam pela rua General Venâncio Flores, passam para a avenida Ataulfo de Paiva, depois seguem para a rua Bartolomeu Mitre e retornam para a rua Dias Ferreira, onde ocorre dispersão. Dessa forma, talvez o bloco tenha que ficar só na concentração. O ‘Sapucapeto’ é um bloco formado pelo sambista Leandro Sapucahy e pela estilista Isabela Capeto. Sua estréia ocorreu no Vivo Rio Summer e ele costuma fazer shows em eventos em lugares como o Jockey Club que são frequentados por artistas e famosos em geral e conta com discotecagem de Djs famosos como o DJ Marlboro. Ele se concentrou em frente à loja da estilista, Isabela Capeto, na Dias Ferreira.

Crédito: Philippe Machado / Flickr
Crédito: Philippe Machado / Flickr

Esse é um exemplo claro de como os novos blocos podem acabar interferindo no carnaval feito pelos antigos blocos da cidade se não houver uma organização maior da data e horário de desfile. O ‘Sapucapeto’ não pediu licença para desfilar em 2011, disse Alex Martins titular da Coordenadoria de Blocos, lembrando que o estabelecimento da estilista mudou de endereço este ano.

A proibição de desfilar na rua General Venâncio Flores e possivelmente na Dias Ferreira foi a segunda mudança de percurso imposta pela prefeitura em 2010 a um bloco. No começo do ano, o bloco do Afroreggae, que iria desfilar no domingo de carnaval na orla da Zona Sul, foi transferido para a Ilha do Governador pois já havia um desfile programado para aquele dia. O regente do grupo, Altair Martins disse ao jornal O Globo que não viu problemas na mudança. “Escolhemos um lugar pouco visto pela mídia, com alto índice de infestação do mosquito da dengue. A gente veio aqui trazer toda a energia do AfroReggae para conscientizar a população sobre esse problema”, afirmou.

Em 2010, foram 465 blocos de rua em 670 desfiles que juntaram 2,491 milhões de foliões. Cerca de 800 mil eram turistas estrangeiros e de outras cidades do Brasil.

Segundo o secretário de Turismo, outras mudanças como essa podem acontecer para distribuir a quantidade de blocos por toda a cidade, já que a maioria (73,29%) deles desfila hoje pela Zona Sul. Em segundo lugar, em número de desfiles, veio a Zona Norte (9,54%) Barra da Tijuca (7,33%), Zona Oeste (5,68%) e Tijuca e Centro (4,16%) de acordo com dados da Riotur.

Para mudar essa porcentagem, o então secretário especial de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, disse ao Globo logo depois do carnaval de 2010 que, para melhor distribuir a quantidade de blocos pela cidade, poderia haver fusão de agremiações. Essa sugestão foi repudiada por Antônio Pedro e por Rita Fernandes, presidente da Sebastiana. “Fusão de blocos, nem pensar. O Bethlem trata de ordem pública. Fusão, só se os blocos quiserem. A prefeitura não vai interferir”, afirmou Antonio Pedro. “Fusão de bloco não existe. Eles são autônomos, têm identidade. Pode haver redistribuição geográfica”, concordou Rita Fernandes.

Essa redistribuição geográfica, no entanto, não vale para todos. Muitos blocos têm uma ligação com o lugar que desfilam, como o ‘Nem Muda Nem Sai de Cima’, que sai no bairro da Muda, na Zona Norte, formado por frequentadores do bar Dona Maria (também na Muda) e atrai bambas do samba como Aldir Blanc, Beth Carvalho e Moacyr Luz. Já outros, como o ‘Chora, Me Liga’, criado em 2010 e que desfilou no Leblon, não tem tradição nenhuma e, pela lógica que blocos antigos e tradicionais tem prioridade no desfile sobre os novos, pode ser transferido para qualquer parte do Rio. Esse bloco é formado pela dupla sertaneja goiana Guilherme & Santiago que também organizou o bloco ‘E daí?’ que desfilou na Barra da Tijuca e cuja “marchinha” foi adaptada para forró e axé. Pode causar estranheza um bloco de músicos sertanejos, mas há tempos a cidade do Rio abraça qualquer tipo de manifestação artística em seu carnaval.

Apesar dessa liberdade, alguns foliões e parte da imprensa reclamaram da “baianização” do carnaval carioca (enquanto na Bahia, a folia é feita em cima de trios elétricos e arregimentam multidões, no Rio, a maioria dos blocos desfila na rua) e o aumento da utilização da folia para capitalizar a própria carreira artística. Preta Gil lançou o bloco ‘A Noite Tá Preta’ onde cantou “axé music”. Carlinhos de Jesus desfilou com o ‘Dois pra Lá, Dois pra Cá’ e foi criticado elo uso das cordas que circulavam a banda e quem havia comprado a camisa do bloco (ou abadá, como lembraram alguns). O ‘Empurra que Pega’ também usou o mesmo artifício e o Cordão do Boitatá também tinha uma área reservada para quem havia comprado a sua camisa.

Essa prática de privatizar o espaço público com cordas não é nova no carnaval carioca. Durante o Desenrolando a Serpentina, uma foliã reclamou para Antônio Pedro sobre uso de cordas por famílias para reservar um espaço onde podem assistir o desfile do ‘Cordão do Bola Preta’ com suas famílias que ocorre há tempos. Ela explica que essa prática dificulta os foliões acompanharem o desfile do bloco. Antônio Pedro disse que os órgãos de fiscalização vão atuar para acabar com isso pois muitas pessoas lucram com tal prática, o que é proibido.

Outra fonte de conflito é entre a empresa ganhadora da licitação do caderno de encargos (que em 2010 foi uma cervejaria e em 2011 foi a mesma empresa e uma companhia bancária) e os blocos e seus patrocinadores (que também são cervejarias). A organizadora de um dos blocos de carnaval reclamou no Desenrolando que alguns patrocinadores reclamam de disputar espaço com a patrocinadora oficial do carnaval (que ganhou a licitação) o que pode ajudar a diminuir a verba para algumas agremiações e sufocar o carnaval. Representante da companhia cervejeira, no entanto, afirmou que ela continua patrocinando os blocos que já tinha parceria normalmente.

Os blocos também reclamam que a prefeitura os vê como parte de um ‘evento carnavalesco’ que ajuda a capitalizar a imagem da empresa no exterior. Eles querem acabar com essa visão e serem vistos como uma manifestação cultural. Um folião, da ‘Desliga dos Blocos’ (organização de blocos que são contra essas novas regras da prefeitura, pois consideram que a burocracia acaba com a espontaneidade do carnaval, o que consideram como a essência da folia) inclusive disse que a Secretaria de Cultura devia participar nesse ordenamento, não só a de Turismo.

Crédito: Bruno Pessoa / Flickr
Crédito: Bruno Pessoa / Flickr

O “choque de ordem” também acabou com algumas rodas de samba como as que ocorriam há seis anos na praça São Salvador, em Laranjeiras. Era a venda de cervejas para o público que ajudavam a bancar o desfile do ‘Bagunça Meu Coreto’. Isso ocorreu porque moradores da localidade reclamavam do barulho feito pelos sambistas. A prefeitura está no meio de um cabo-de-guerra entre moradores “do bem” e os foliões “baderneiros”. A corda ora pende para um lado, ora para outro. Se pender mais para os foliões, pode acabar dando o aval para a crescente bagunça da cidades e de dos Jogos Olímpicos de 2016 e da final da Copa do Mundo de 2014. Se pender para os moradores pode sufocar uma das manifestações culturais mais genuínas dos cariocas, como ocorreram diversas vezes na história do município.

* Esse texto foi feito como trabalho para a disciplina Projetos Experimentais 4, da Universidade Estácio de Sá, curso Comunicação Social – Jornalismo; No próximo post você pode ver a continuação deste texto; Para ver o trabalho completo e diagramado, é só clicar aqui;

* As fotos eu tirei daqui, daqui e daqui.

Olha a onda iáiá

Por muitos anos, desde o início da década de 60 até o final dos anos 80, o Bafo da Onça e o Cacique de Ramos disputaram o direito de fazer o melhor carnaval de rua do Rio de Janeiro. Hoje os dois encaram destinos completamente diferentes. Em setembro de 2010, o prefeito Eduardo Paes inaugurou a nova sede do Cacique, após reforma que custou R$ 1 milhão aos cofres prefeitura. A sede agora conta com um centro cultural e uma quadra de esportes. Em maio deste ano, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) concedeu ao Cacique a medalha Tiradentes – a mais alta condecoração do legislativo estadual do Rio – em homenagem aos seus 50 anos. Também em 2011 a escola de samba Estação Primeira da Mangueira escolheu o bloco como tema do seu carnaval de 2012. E o Bafo da Onça? Não teve todo esse destaque mas continua na ativa e está ensaiando a sua volta.

Segundo relatos de um jornalista especializado em carnaval (que não quis se identificar), na disputa pelo melhor carnaval de rua da cidade geralmente o Bafo ganhava, arregimentava mais pessoas e tinha os sambas mais empolgantes. Ele foi fundado no Catumbi, bairro no centro do Rio, depois que o bloco de carnaval Gonçalves, que desfilava na rua de mesmo nome, também na região, parou de desfilar. O Bafo foi criado em 12 de dezembro de 1956 em um botequim do bairro. Um de seus fundadores era o ex-policial e o ex-carpinteiro Sebastião Maria (mais conhecido como Tião Maria), que durante a folia saia vestido de onça pintada em uma espécie de “bloco do eu sozinho”.

A matéria “Bafo da Onça comemora 30 anos” da falecida jornalista Mara Caballero publicada em 8 de janeiro 1987 no Jornal do Brasil, diz que Tião era uma espécie de líder da comunidade, promovendo as festas para as crianças no Catumbi. Em um barzinho local, costumava beber leite-de-onça (um drink que mistura rum com leite condensado, que, segundo a jornalista, causa ressacas memoráveis), que foi a inspiração para o nome do bloco de carnaval. Com suas habilidades de marceneiro, foi ele quem criou o primeiro carro abre-alas do grupo.

Como conta Roberto Saldanha (mais conhecido como Capilé), presidente do Bafo há quase 40 anos, com o fim do Gonçalves surgiram dois blocos: o Bafo e o Vai Quem Quer. “Saio no Bafo da Onça desde sua fundação. Eu saia no Gonçalves, era o maior bloco de sujo da cidade (NOTA: bloco de sujo eram manifestações carnavalescas com fantasias e instrumentos improvisados onde os foliões tocavam marchinhas e sambas-enredo). Quando acabou o Gonçalves, veio o Bafo da Onça e depois o Vai Quem Quer”.

Segundo ele, foi com o Bafo que surgiram os blocos com fantasias uniformizadas. “Antes o povo saia com qualquer roupa, de qualquer jeito, vestido de mulher, aqueles negócios… Aí o Bafo não. O Bafo colocou aquele short de onça (nos homens) e as meninas iam de sainha (de onça). O lado esquerdo era mulher e o lado direito era homem. Eram duas filas que saiam juntas. Não misturava. As crianças saiam (juntas). Minha mãe saia com a criançada toda, meu irmão, filha da vizinha. Era uma ala quase, porque a família toda saia”. Sete anos mais tarde, o Cacique de Ramos surgiria com fantasias inspiradas nos índios (daí o nome “Cacique”).

Foto Antônio do Vale, acervo Antônio José.
Foto Antônio do Vale, acervo Antônio José.

Tião colocou as mais belas mulatas do bairro na frente do bloco, o que foi logo seguido por outras agremiações. O radialista e empresário Oswaldo Sargentelli recrutou algumas dançarinas do Bafo e inventou as “Mulatas do Sargentelli”. Em 1970 elas eram parte da atração de sua casa de espetáculos Sambão, criada em Copacabana um ano antes. O “mulatólogo” e suas dançarinas participavam dos ensaios e desfiles do bloco. Uma das mais famosas foi a espetacular Adele de Fátima, que foi coroada rainha da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel e participou de algumas chanchadas no cinema (como “Histórias que Nossas Babás não Contavam”) e programas de televisão. Outra foi Solange Couto, que mais tarde viria a estrelar diversas telenovelas da Globo (ficou famosa com o bordão “Não é brinquedo não?” na novela O Clone).

Adele de Fátima, Histórias que Nossas Babás Não Contavam

Como escreveu Mara Caballero, outra inovação de Tião foi um trejeito para a frente nos quadris das mulatas na hora de dançar, o que era uma ousadia tremenda no inocente começo dos anos 60 (mas que depois se popularizou em programas de televisão como o do Chacrinha). Ele também obrigava os compositores que vencessem as competições de sambam que seriam cantados pelo bloco a dividirem com a agremiação os direitos autorais ganhos com a gravação do disco.

O mais famoso compositor do Bafo da Onça foi Oswaldo Nunes, autor do samba de maior sucesso do bloco, o Oba, criado em 1962: Olha a rapaziada (oba) / Vem dizendo no pé (oba) / As cabrochas gingando (oba) / Como tem mulher (oba) / Todo mundo presente (oba) / Olha a empolgação (oba) / Esse é o Bafo da Onça / Que eu trago guardado no meu coração / Eu vou, eu vou, eu vou / Essa onda que eu vou / Olha a onda Iaiá / É o Bafo da Onça que acabou de chegar / Essa onda que eu vou / Olha a onda Iaiá / É o Bafo da Onça que acabou de chegar. Outro famoso foi Dominguinhos do Estácio, que começou a carreira no Bafo como ritmista e só depois partiu para as composições próprias. Passou por várias escolas de samba (Estácio, Viradouro, Inocentes de Belford Roxo) e hoje é intérprete da Imperatriz Leopoldinense. O bloco chegou a lançar no começo dos anos 60 um LP com seus sambas-empolgação pelo selo Mocambo, em parceria com a fábrica de discos Rozenblit.

Em 1961, surgiu o Cacique de Ramos. Segundo o mestre em História Social e pesquisador da cultura popular carioca, Luiz Antonio Simas, o próprio presidente do bloco, Bira, teria admitido que o Cacique foi criado para competir com o Bafo da Onça no carnaval de rua. Como Simas certa vez escreveu: “Bafo e Cacique cansaram de transformar a avenida Rio Branco, nos dias de Momo, em um verdadeiro Maracanã em domingo de Fla X Flu”. Capilé diz que o Bafo chegava a mobilizar até 30 mil foliões. “Quem fazia aquele desfile de sábado, era o Bafo e o Cacique. Nós é que fazíamos a abertura do carnaval junto com o Rei Momo. Rapaz, era muita gente. Vê o Bola Preta agora? Era o Bafo da Onça”, exagera.

Ele lembra de brigas homéricas entre os dois grupos no fim dos anos 60 e início dos 70, causadas algumas vezes, segundo ele, pelo desrespeito do Cacique à ordem do desfile estabelecida pela prefeitura. “No primeiro ano que desfilamos pela av. Presidente Vargas fui em uma reunião na Riotur e ficou acertado que o Bafo passava na frente do Cacique. Aí quando cheguei no balanço (com um jipe carregando o abre-alas), metade do Cacique já tava dentro do desfile. Mas era garoto novo, era brigão pra caralho, continuei, cortei eles no meio e botei (o abre-alas) lá na frente. Mermão… saiu uma porrada…”. Outra vez, quando o desfile já era na Marquês de Sapucaí, o Cacique ia de novo passando na frente do Bafo. Os dois caíram no braço de novo. “Só vi os Caciques subirem pela grade cemitério (do Catumbi). Mas era uma briga saudável”, conta rindo.

Um Cacique nos anos 70, fotografia de Carlos Vergara
Um Cacique nos anos 70, fotografia de Carlos Vergara

Mudanças estruturais
Em 1971, ocorreu a primeira grande mudança urbanística no Catumbi: a abertura do túnel Santa Barbara e a construção do elevado Paulo de Frontin, que dividiu o bairro do Catumbi em dois, demoliu diversas casas centenárias (43 para ser exato, segundo a Wikipedia), desfigurou a região e acabou com a área de ensaio do bloco. Como diz o historiador Hiram Araújo: “O Bafo não tem mais a localidade que tinha na comunidade. O túnel cortou a comunidade”.

A segunda mudança foi em 1984: a construção do Sambódromo. A obra desalojou diversas famílias do bairro e aumentou ainda mais a descaracterização da comunidade. Ela também acabou com a quadra do bafo e de outros blocos que ficavam no local e no entorno. “Foi a maior idiotice (a construção do Sambódromo). Eles acabaram com o Catumbi”, afirma Capilé, categórico. Como forma de compensação, o Bafo ganhou o direito de ser a primeira agremiação a desfilar pela Marquês de Sapucaí.

As escolas de samba pressionam
Hiram Araújo diz que oito anos depois, por pressão das escolas de samba do grupo especial, blocos como o Bafo e o Cacique foram proibidos de desfilar na avenida do samba. “Quando começou o Sambódromo, os blocos carnavalescos desfilavam na frente das escolas de samba no sábado. Não eram uma força muito grande, mas eram blocos que o poder público tinha que respeitar. As escolas não tiraram de imediato os blocos do desfile do sambódromo porque eles tinham ainda poder. As próprias escolas de samba forçaram essa posição. Não queriam competição e nem havia público para (os blocos), entendeu? A grande atração era a escola de samba”.

Os blocos então voltaram a desfilar pela avenida Rio Branco, onde permanecem até hoje, só que mais esvaziados. Como aconteceu com os ranchos carnavalescos, desde a década de 60 eles foram perdendo espaço para as escolas de samba, que cada vez mais recebia apoio do poder público e espaço na mídia. “O poder público em vez de fortalecer, procurou dizimar. Priorizou só as escolas de sambas e deixou os blocos de lado. Agora (os blocos) estão voltando e eu acredito que eles vão ter mais condições que as escolas de samba”, diz Capilé. Por causa da falta de apoio, as agremiações de carnaval de rua, que somavam mais de 300 na década de 60, caíram para pouco mais de 20 no fim dos anos 90.

Isso ocorreu em parte por causa do apoio da prefeitura às escolas de samba. Com infraestrutura e subvenção pública, estas agremiações haviam formado em 1934 a AESCRJ (Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro). Com o Sambódromo, em 1984, representantes da Acadêmicos do Salgueiro, Beija-Flor de Nilópolis, Caprichosos de Pilares, Estação Primeira de Mangueira, Imperatriz Leopoldinense, Império Serrano, Mocidade Independente de Padre Miguel, Portela, União da Ilha do Governador e Unidos de Vila Isabel formaram a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba). Eram as agremiações com maior destaque e maior alcance midiático.

Como explica Hiram Araújo, após perderem suas dez maiores escolas, a AESCRJ negociou com a prefeitura maior subvenção para o carnaval de seus 34 filiados restantes, o que foi concedido. Eles usaram isso como forma de atração dos blocos que desfilavam no subúrbio, como Acadêmicos do Dendê, Flor da Mina do Andaraí, Arame Ricardo, dentre vários outros, para aumentar suas fileiras. Estes grupos deixaram de ser blocos e passaram a ser escolas de samba que desfilam na estrada Intendente Magalhães, na Vila Valqueire, zona oeste da cidade.

Esses blocos carnavalescos carregavam de mil a duas mil pessoas. Eram grandes blocos carnavalescos e hoje são pequenas escolas que arregimentam 200 a 300 pessoas. Viraram escolas de samba sem valor. Isso contribui para acabar com aquela pujança de blocos. Foi um passo atrás. Aquilo ali virou profissão. Você, como presidente de pequena escola de samba, tinha dinheiro e o presidente da associação também ganhava dinheiro com isso. Todas saíram dos bairros de subúrbio e foram desfilar na Intendente Magalhães”, conta.

Decadência
Ele diz que o Bafo e o Cacique não quiseram entrar nessa associação pois tinham perfil diferente. Não eram blocos de enredo (que tocavam sambas-enredo) como os outros, mas blocos de empolgação (que tocavam sambas-empolgação, músicas mais rápidas, curtas e animadas). Só que decaíram também com o tempo por descaso do poder público. Um jornalista especializado em carnaval, que não quis se identificar, disse (e repetiu) que o Bafo foi mal administrado e por isso perdeu a pujança de outrora.

O que também ajudou a esvaziar a agremiação foi a briga entre Capilé e algumas alas do Bafo que queriam levar o bloco para Madureira. Ele tinha alas espalhadas por toda a cidade e até mesmo na Baixada Fluminense. As pessoas vinham de todas as partes para pular carnaval com o grupo do Catumbi. Era gente tanto de Nova Iguaçu e Duque de Caxias quanto do Leme, Copacabana, Piedade e até Ramos, reduto de seu maior rival.

Após uma confusão no Sambódromo, no último ano que os blocos desfilaram ali (o Bafo teria desfilado a noite toda e não teria deixado o Cacique entrar na Marquês de Sapucaí), Capilé perdeu seu posto de presidente, cargo que tinha desde que Tião Maria faleceu. Ficou dois anos fora (Vanderley Barbosa foi eleito em seu lugar) e quando voltou, houve a cisão entre as alas. “As alas queriam pegar o Bafo e levar para Madureira, porque tinha mais ala em Madureira do que aqui no Catumbi. Botei todo mundo para fora. Uma das alas principais que queria fazer isso era o Pagodão de Madureira que até fundou aquele bloco (de mesmo nome)”. Hiram Araújo acha que foi a decisão correta: “O Bafo foi (criado) na comunidade do Catumbi e tem que continuar a existir lá”.

Capilé aponta outro culpado que ajudou a levar o Bafo para a decadência: o tráfico de drogas, que teve sua maior ascensão nos anos 80. “Posso dizer que há uns 30 anos atrás começou a ficar brabo. Porque o pessoal vinha do morro (NOTA: a quadra do Bafo da Onça fica perto do morro do Turano) e eu tinha que ficar com eles até clarear o dia. Os caras não tinham como voltar para casa. Agora não. Tô até me sentindo bem agora, porque não tem mais tiro”. Com a instalação da UPP da região, no morro do Turano, em setembro de 2010, Capilé disse que voltaria a organizar ensaios na quadra do Bafo com mais tranqüilidade e tem esperança de reviver as glórias antigas do bloco.

Considerações
O primeiro contato que tive com o Bafo foi pelo artigo de Luiz Antonio Simas publicado em O Globo. Fiquei curioso e quis conhecer mais sobre o bloco. No carnaval fiz questão de ver o desfile, o que aconteceu por sorte (estava no Centro da cidade quando ele ia começar a entrar na avenida Rio Branco). Foi lá que vi Capilé pela primeira vez. Era um senhor que escalou o trio elétrico onde a banda estava tocando e a mulata dançando. Foi falar algo para a banda. A segunda e última vez foi na própria quadra do Bafo, na rua Doutor Agra, no Catumbi (ao lado do elevado Paulo de Frontin). Ele estava sujo de graxa (como na reportagem da Mara Caballero, na época, afastado da presidência) enquanto ajudava a arrumar um carro. Pelo que vi, a história dele e do Bafo se confundem. Não dá pra falar do Bafo sem falar do Capilé e vice-versa. “Sou a última raizinha que essa merda tem”, disse. O que provavelmente é verdade.

Vi, no entanto, na comunidade do Orkut do grupo (e dizem que o Orkut está ultrapassado) que várias pessoas estão se organizando pra ajudar o bloco a se reerguer. E sem querer pender pro lado do governador Sérgio Cabral, com a UPP do Turano, isso bem pode acontecer mais facilmente. Pelo Orkut, as pessoas estão organizando o site do Bafo e relembrando histórias antigas. São moradores do Catumbi e familiares cuja própria história está entrelaçada com o grande rival do Cacique de Ramos.

Percebi que os dois grupos têm o perfil completamente diferente. O Bafo teve história marcada pelo mito Tião Maria, pelas “Mulatas de Sargentelli” e pelo compositor Oswaldo Nunes. Tudo isso já ficou no passado. As pessoas mais famosas relacionadas ao Cacique de Ramos ainda estão por aí: Arlindo Cruz, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho. O que muitos não sabem é que estes dois últimos também tiveram passagem pelo Bafo (participaram também de rodas de samba no Catumbi), assim como Cauby Peixoto e vários sambistas.

O Cacique tem o grupo Fundo de Quintal, que continua na ativa mas com novos rostos. Sua tamarindeira, que assume aura mitológica (como Tião Maria com o Bafo) ainda faz a sombra para as rodas de samba que ocorrem na quadra do grupo de Ramos. Leila Diniz desfilou no Cacique e o artista plástico Carlos Vergara fez várias fotos sensuais dos foliões vestidos de índio nos anos 70, o que ajudou a eternizar o bloco.

Além disso, foi no Cacique que, segundo André Diniz (no livro Almanaque do Samba), surgiu o pagode (que depois teria sido desvirtuado por paulistas, de acordo com Diniz). Podemos perceber que a história do Cacique teve menos percalços que a do Bafo. Não perdeu um centímetro de sua comunidade e ainda foi o berço de grandes compositores. Ele atrai até hoje entusiastas do samba de toda a parte da cidade, como o filho do governador Sérgio Cabral, Marco Antonio Cabral, que convenceu o prefeito Eduardo Paes a tombar a quadra da agremiação. O Bafo, com todos os problemas que sofreu, não teve tanta sorte e caiu no esquecimento. Hiram Araújo mesmo disse: “O Cacique hoje é uma marca”. Não perguntei o que é o Bafo, mas pelo que vi no Orkut, ele pode ser uma comunidade que quer voltar fazer festa com força. Como é o Rio de Janeiro hoje e seu carnaval de rua.