RÉQUIEM PARA A TV A CABO

A TV por assinatura, conhecida há muito como TV a cabo, morreu.

Isso não é uma previsão. É certo que a internet é o “cabo” definitivo deste século.

Esta notícia me fez escrever este post:

Na realidade, todas as prestadoras de pay TV do mundo ainda existem apenas para cuidar dos clientes que não têm ou não migraram totalmente para a internet como principal provedor de conteúdo. Até lá, assistiremos a decomposição do morto: o que alguns preferirão chamar de “sobrevida”.

Há diversos motivos que nos trouxeram a essa realidade. Vamos resumí-los.

Quem matou a TV a cabo por mérito

Tecnologias, entre as quais:

  • Youtube e similares: nunca na história desta humanidade se teve tanta oferta de conteúdo aberto para, pelo menos, entretenimento. O Youtube e seus concorrentes servem mais conteúdo e são assistidos sob demanda por muito mais pessoas do que toda a TV por assinatura em sua história. São bilhões de opções, para todos os segmentos de consumo, as quais se somam milhares de novos conteúdos a cada dia.
    Nesse quesito, a TV paga é esmagada como uma reles formiga de cozinha.
  • P2P: a internet por si só já seria motivo suficiente, mas vamos especificar essa iniciativa fundamental. As redes P2P nasceram para ensinar ao mundo como prover conteúdo dentro das modernas exigências dos consumidores. Primeiro foi a indústria da música, que teve seu modelo de negócios extinto pela troca de arquivos. Essa indústria soube colher apenas lucros e inovou nem 1 milímetro enquanto esteve no auge. A internet, formatada entre as décadas de 60 e 70, e o MP3, criado nos anos 80, convergiram no final dos anos 90 e tomaram de assalto um espaço que existia por total negligência da própria indústria.
    Agora foi com a TV por assinatura: e por razões bem parecidas. Digamos que o mesmo tsunami que afogou os executivos da música ganhou uma proporção maior com um novo terremoto e acaba de alcançar a TV por assinatura.
  • Live Stream Torrent: entre as redes P2P, a de maior destaque é a baseada no protocolo BitTorrent, principalmente pela sua tecnologia disruptiva, que permite distribuir os arquivos entre os usuários ativos, dispensando um servidor central, ao mesmo tempo em que se baixa vários pedaços diferentes de usuários diferentes, otimizando o download e a disponibilidade do que se procura. Por isso, quanto mais gente estiver baixando, mais rápido fica o download, pois mais usuários passam a ser fontes para cada trecho do arquivo.
    O criador do protocolo, Bram Cohen, está trabalhando em um novo projeto, chamado Pheon, que dará mais um passo revolucionário na distribuição de conteúdo online. Tive oportunidade de participar de um teste e funcionou excepcionalmente bem. Seguindo os moldes de uma distribuição Torrent tradicional, serão possíveis transmissões de dados ao vivo, ou seja, sem a necessidade de que cada usuário hospede localmente o arquivo antes ou enquanto consome o conteúdo.
    Explico: um vídeo no Youtube está hospedado nos servidores da Google, e para que você o assista é necessário que o arquivo desse vídeo esteja disponível nesses servidores. Se for removido ou o serviço estiver fora do ar, ele não tem como ser acessado.
    Um arquivo Torrent convencional exige que pelo menos 1 usuário o forneça para outros e só é consumido depois de ser baixado. Os dados são copiados e também passam a ser entregues por outros usuários. Se o usuário original apagar o conteúdo de seu disco rígido, o arquivo continua acessível via Torrent enquanto outros usuários com os mesmos dados salvos em seus computadores continuarem a oferecê-lo para download. Mas com o Pheon será possível, por exemplo, assistir a um filme sem a necessidade de baixar o arquivo completo primeiro. A partir dos outros usuários que consomem o mesmo conteúdo, será possível intercambiar esses dados sem salvá-los no disco rígido.
    Isso existe hoje, sem ser P2P e usando um servidor central, como o Twitcam ou o Justin.tv, ou P2P mas com algum controle. O Veetle é uma companhia que provê uma rede P2P para streaming de vídeos de ótima qualidade entre seus usuários. Porém, as transmissões podem ser encerradas por eles, que arbitram sobre a plataforma. Esse tipo de censura não será possível com o Pheon, onde cada usuário controla o que vai transmitir ou não.

Os culpados que mataram a TV a cabo por omissão e/ou incompetência

A inércia e a inépcia dos envolvidos:

  • Operadoras: as empresas que comercializam TV insistiram num sistema antiquado de pacotização de canais e focaram todos seus esforços em vendas. Para notar isso, nem precisamos olhar pro Brasil (Netflix que o diga 1, Netflix que o diga 2).
    Até determinado momento, se diferenciavam entre si pela composição de canais. Quando isso deixou de fazer diferença, as mais preparadas investiram em complementar o produto com internet. A longo prazo, esse foi o tiro de misericórdia: semear o meio que, pouco a pouco, substituiu com glórias o que justificava pagar por TV. E a web, por ter sua origem em motivações bastante diferentes das da TV a cabo, é muito mais vantajosa, em todos os aspectos (business, preço, inovação, oferta de conteúdo, comodidade, sofisticação etc.).
    Sem esquecer do péssimo atendimento, mas isso é um vírus que se alastra por toda prestação de serviços brasileira (um mal facilitado pela referência negativa pregada pelo funcionalismo público: “Se acha o atendimento do Itaú ruim, tente a Caixa Econômica para saber o que pode ser pior!”).
    A TV por assinatura era tão estanque que conseguiu perder clientes para alternativas online que, se não estivessem na internet, seriam tão canhestras quanto. Combatem essas iniciativas judicialmente, via enfadonho lobby antipirataria, pois para sorte dos advogados elas ainda dependem, como explicamos antes, de uma centralidade: caçado o servidor principal, o conteúdo é retirado do ar. Mas quem enxerga as entrelinhas já percebeu que assim que um protocolo como o do Project Pheon existir, bastará 1 usuário transmitir online um canal de TV para que todos os outros possam assistir ao mesmo conteúdo, simultaneamente e com a mesma qualidade.
    Estamos falando de “um Youtube” descentralizado sustentado organicamente pelos seus próprios consumidores. E bastará uma conexão com a internet para ter acesso a tudo isso.
  • TV Digital Brasileira: o Brasil perdeu uma grande oportunidade no governo Lula. A de, talvez como tentou a TV por assinatura, conseguir justificar um “outro cabo” que não o da internet dentro da casa dos brasileiros.
    Na década passada, o país parou para desenvolver seu próprio padrão de TV Digital de Alta Definição. Ao fim, por motivos vários, a nova TV Digital acabou sendo especificada não só para manter o status quo, como garantí-lo pelas próximas décadas: não houve espaço para inovações além da qualidade de imagem. É de arrancar os cabelos a recepção dos canais depender do mesmo tipo de antena das nossas avós. Uma boa piada de mau gosto.
    “Interatividade” foi a inovação alegada. Que só seria novidade se para acontecer não dependesse… DA INTERNET! Isso mesmo: a interação na “revolucionária tecnologia” de televisão digital brasileira é feita PELA internet. Ora, se o consumidor já tem internet, por que dar um passo atrás e sair dela pra consumir um conteúdo que já está nela, acessível para quando ele quiser consumir, e com interação em profusão?
    Frente a isso, a TV Digital do Brasil é natimorta.

Acompanhamos a morte da indústria da música como ela era conhecida até 98 e daqui, de camarote, veremos no máximo até 2021 a TV por assinatura dar seus últimos suspiros.

A internet é uma assassina de mídias, ou no mínimo uma diluidora de seus impactos e poderes (afinal, alguém ganha dinheiro com música hoje: provável até que mais gente trabalhe com música agora, mas com menos grana do que antigamente – “Música, no século digital, não é produto – é processo.“).

Spoiler dos próximos capítulos:

  • Serviços de telefonia
  • Bancos convencionais

Aguardamos ansiosos.

This entry was posted on Thursday, August 18th, 2011 at 7:23 am and is filed under Uncategorized . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

One Response to “RÉQUIEM PARA A TV A CABO”

  1. Piano Black Says:

    Concordo com tudo, só tenho uma ressalva. A maior parte do conteúdo consumido na internet teve sua origem na TV. Se a TV acabar, o que se irá baixar?

Leave a Reply

rafa spoladore

currículolast.fmfeedemail

Flamenguista, londrinense, vivo em alta entropia e trabalho há mais de dez anos com internet. Passei por UOL, Terra, TVA e Positivo, em áreas, times e projetos de Conteúdo, Produtos, E-commerce, Música, Marketing, TV/Multimídia, Links Patrocinados e Mídias Sociais. Prestei serviços para Drauzio Varella, LabOne, Arvato, entre outros. Entusiasta da humanidade, produzo em equipe, sou prestimoso e tenho espírito crítico.