E mais um aniversário de 10 anos: 17 de abril de 2001 foi a primeira vez que vi um show do Teenage Fanclub, em Londres. Aí eu escrevi uma matéria que saiu na Bizz. Relendo agora, fiquei surpreso de como ainda gosto do texto. Essa é a versão não-editada, sem os cortes que precisaram fazer pra caber na página. Menos os intertítulos, esses eu inventei agora.

Teenage Fanclub 17, 18 e 19 de abril de 2001
Camden Underworld – Londres
Quem quiser descrever os anos 90 vai ser obrigado a mencionar a ironia. Não aquela ironia fina e inteligente que apreciamos, mas a nefasta, de liquidação, acessível a qualquer pobre de espírito armado de sorriso desdenhoso e má fé. Dizer uma coisa dizendo que quer dizer outra e falar sem qualquer compromisso com o que se disse. Aí falar em sentimentos passou a ser brega, defender convicções políticas passou a ser panfletário e retrógrado, acreditar em amizade passou a ser babaca, pedir decência passou a ser patrulha e respeitar o próximo passou a ser coisa de otário. “Romântico”, vejam só, passou a ser pejorativo.
E o Teenage Fanclub? O que tem a ver com isso? Bom, no fim de 2000 eles lançaram um disco chamado Howdy!, que pode ser vagamente traduzido como “oiê”, aquele cumprimento franco, sorridente e desarmado, meio caipirão, quase simplório, como que saudando o novo século. Um disco de peito aberto, sem medo de dar a cara para bater. Se títulos de músicas como “I Need Direction”, “Dumb Dumb Dumb”, “Can’t Find My Way Home”, “Accidental Life”, “My Uptight Life” e “If I Never See You Again” deixavam antever um álbum difícil e confuso, o conteúdo mostra o contrário. Eles sabem aonde querem chegar e fazem questão de aproveitar o caminho.
Mas, pelo jeito, não é todo mundo que quer ir junto. Até hoje, o Teenage Fanclub tem que conviver com a acusação de serem meros recicladores. De Dinosaur Jr, depois de Big Star, depois de Byrds. Grand Prix, o melhor disco dos anos 90, recebeu apenas migalhas da atenção merecida. Fazer o que? Eles sabem que ser sublime é mais importante do que ser inovador. Afinal, o amor é mais antigo do que a humanidade, mas nem por isso deixamos de precisar dele. Assim, chegamos à inusitada situação de uma das bandas mais amáveis que existe fazer uma mini-temporada de três apresentações diferentes no pequeno Camden Underworld, no norte de Londres, pouco mais que um pub com capacidade para menos de 400 pessoas.
Lembranças dos Beatles e Joey Ramone
O primeiro show é o convencional. “Com guitarras”, conforme o anunciado. O perfil da platéia, que continuaria o mesmo nas duas noites seguintes, é curioso: aqueles tiozinhos que ninguém nunca imaginaria se preocupar com coisas como música, exceto em bailes bêbados ao som de “Besame Mucho” ou versões orquestradas de músicas dos Beatles, todos eles com o repertório inteiro na ponta da língua. E que repertório, amigos. A primeira música da primeira noite, para não deixar dúvidas quanto às intenções, é “The Town and the City”, que começa com “é bom estar aqui de novo”. E é mesmo. Mesmo quem nunca esteve num show do Teenage Fanclub antes sente-se familiarizado. Joey Ramone, morto dois dias antes, não é esquecido: Norman Blake puxa uma cover relâmpago de “Blitzkrieg Bop” e a banda acompanha, mas é apenas um “hey, ho, let’s go” rápido.
No bis, a pachorra de tocar “Tell Me What You See” é plenamente justificada, já que a versão original é daquela outra banda que tem um vocalista/guitarrista carismático com pinta de líder, um baixista que escreve as músicas mais pops e docinhas e um guitarrista que começou meio de segundo plano, mas melhora a passos largos a cada disco. No meio do caminho, aulas de pop e baladas como “Radio”, “Some People Try to Fuck With You” e a inédita “Thaw Me”. Pra finalizar, “Star Sign” e a clássica música-de-encerramento “Everything Flows”.
Xilofones, serrote e fé na humanidade
Na noite seguinte, é a vez do show acústico. A banda está ainda mais relaxada e não se importa de começar “That´s All I Need to Know” quatro vezes, por exemplo, e só então acertar. Norman parece determinado a compor algo na hora e aproveita cada intervalo mais prolongado para brincar com um riff simples e cantar “come on, come on”. O aparato de xilofones, bandolins, trumpetes e até um serrote, para acompanhar “Star Sign”, garante arranjos novos eficientes.
O terceiro show, prometido para ser “sem guitarras” começa aparentando mais tensão. “Ain’t That Enough” abre os trabalhos meio solene em seu arranjo de teclado e baixo. Mas a bateria eletrônica de churrascaria e o riso incontido de Norman enquanto toca uma espécie de sanfona de mesa em “Verisimilitude” colocam tudo de volta no seu ritmo normal. Depois, ele avisa, enquanto pendura sua Gibson no pescoço: “O show de hoje é como um sanduíche. As músicas sem guitarra são as fatias de pão e agora é o recheio. Acreditem, vocês vão nos agradecer”. Mal sabe ele o quanto.
A primeira da parte elétrica é “Hang On”, uma das maravilhas do injustamente renegado Thirteen. A partir daí, o repertório é muito mais calcado em músicas antigas, tesouros da juventude, várias do clássico Bandwagonesque. “Faz tempo que a gente não toca essa” é a frase que Norman mais usa. O que choca tanto quanto a simpatia dos escoceses é a desfaçatez com que enfileiram pepitas em forma de melodias.Para eles, tocar “Alcoholiday”, “What You Do to Me”, “Sparky’s Dream”, “About You”, “I Need Direction” e “The Concept” em seguida é tão natural quanto chupar um Chicabon. Seria irritante se não fosse tão lindo. No final, após “Planets” e “Cul de Sac”, novamente desguitarrizados, a banda volta para tocar “Broken”. E a noite termina com os felizardos que lotam o pequeno pub cantando a letra, simplicíssima, “it´s broken, your heart has been broken again” depois que o instrumental acabou. Instante precioso, que a banda faz questão de aplaudir.
Ninguém aqui esqueceu que o mundo é cheio de problemas (na noite do acústico, um mendigo foi queimado na rua diante da fila para entrar no show, ainda à luz do dia), mas também é bom lembrar que o ser humano é capaz de produzir momentos como esses, até para manter em mente que ainda dá para acreditar e nunca deixar de querer melhorar as coisas. A próxima década e o próximo século serão assim? Talvez não, mas a nossa próxima década e o nosso próximo século serão. Pode ser uma viagem para poucos, quase solitária, mas há de valer a pena. Howdy!