Fui buscar um chope, achei uma banda

January 22nd, 2012

Caminhando pela Festa Pomerana, eu reclamava com os amigos de não existir, ou pelo menos eu não conhecer, alguma banda da região que fizesse com bandinhas alemãs mais ou menos a mesma coisa que os Pogues faziam com a música folclórica irlandesa e o Gogol Bordello com a cigana e os lances lá do Leste Europeu. Tem uma influência rock indisfarçável, sei lá, na Cavalinho Branco, mas é outra história.

Pois quando eu ia comprar mais um chope no Biergarten, logo ali pertinho da entrada, vi tocando a banda que eu pensava não existir. Chama-se Die Roeder’s, é de Pomerode mesmo e composta por vários irmãos; coloca punk rock com música das bandinhas alemãs e é bem diferente de como eu imaginava que soaria, se existisse, aquela banda que eu queria. Ou seja, melhor ainda. A diferença é que o lado punk não é tão rasgado assim (ou pelo menos não era naquele show, na Festa Pomerana, com público bem familiar e basicamente a fim de algo mais tradicional. E o lado alemão é mais reto, sei lá.

Não consegui ver o show inteiro porque precisei ir no outro pavilhão receber um prêmio (rá!). Só sei que fiquei felizão de conhecer. Segundo o guitarrista, existe há pouco mais de três meses e dá pra ver que ainda tem bastante o que amadurecer, mas tudo bem. Não vou cravar como promessa porque esse tipo de coisa até dá azar, mas quero muito ver o que eles vão fazer nos próximos meses e anos. Tomara que isso inclua show em Florianópolis.

Ops, achei um clipe:

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Acontece sempre

August 2nd, 2011

I can always tell a musician — because a musician said, “Why the fuck do you play with those guys? I can play that good. Anybody can play that good.”
No — they couldn’t. Nobody can do that — except Billy and Ralph and Poncho. They’re all equally fuckin’ great, and I really would not be able to do what I do without them. It’s an intangible. What can I say? It’s the Horse. Had a major effect on American music — while being musicians that most musicians thought couldn’t play.
— What do you get out of that rhythm section?
It sustains me. Keeps me goin’. It’s not just a rhythm section, either. The guitar player is also very fuckin’ important. Poncho — you look at him and you look at Billy and Ralph and you go, “Oh, fuck, why don’t you get new guys? What’s special about them?” What’s special about Poncho and Billy and Ralph and me is that it’s a band.
Crazy Horse is a great, great thing. You can never go out and play a whole show with a band that’s gonna be more fun through the whole thing than Crazy Horse, because it’s so real.
It’s not that they fuck up that makes them great. That’s a by-product of the abandon that they play with. They’re not organized. No matter how fuckin’ much we practice the song, Billy can get so into the groove he’ll forget to do the change, y’know? And Ralph may turn the beat around. It happens. Or I can start playin’ the guitar, and Ralph can pick it up on the wrong beat and play it backwards — that happens all the time. Never happens with real professional groups. With our band this shit happens all the time. But what really happens all the time is that it grooves — even if it’s not in the groove, it’s in a groove. You hear it and you wanna hear more.

Eu sempre consigo reconhecer um músico — porque um músico diz “por que porra você toca com aqueles caras? Eu toco tão bem quanto eles. Qualquer um toca tão bem quanto.”
Não — não tocam. Ninguém consegue fazer aquilo — exceto Billy e Ralph e Poncho. Eles são todos igualmente bons pra caralho, e eu realmente não conseguiria fazer o que faço sem eles. É intangível. O que eu posso falar? É o Horse. Teve um enorme efeito na música americana — ao mesmo tempo em que são músicos que a maior parte dos músicos diz que não sabem tocar.
— O que você pega dessa seção rítmica?
Me segura. Me faz continuar em frente. Também não é só a seção rítmica. O guitarrista também é importante pra caralho. Poncho — você olha para ele e olha para Billy e Ralph e diz “ah, porra, por que você não arruma caras novos? O que tem de especial neles?” O que tem de especial em Poncho e Billy e Ralph e eu é que é uma banda.
Crazy Horse é um negócio muito, muito foda. Você nunca vai sair pra fazer um show que vai ser mais divertido durante a coisa toda do que com o Crazy Horse, porque é muito real.
Não são as cagadas que fazem eles serem tão bons. Isso é efeito colateral do abandono com que eles tocam. Eles não são organizados. Não interessa quantas vezes a gente ensaie a música, Billy pode entrar tanto no groove que ele vai esquecer de fazer as mudanças, sabe? E Ralph pode inverter a batida. Acontece. Ou eu posso começar a tocar na guitarra e Ralph entra na batida errada e toca de trás para frente — acontece sempre. Nunca acontece com grupos profissionais de verdade. Com a nossa banda, essa merda acontece sempre. Mas o que acontece sempre mesmo é que balança — mesmo se não está no groove, está em um groove. Você escuta e quer escutar mais.

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Trecho de Shakey, recomendadíssima bio do Neil Young escrita por Jimmy McDonough, com tradução do blogueiro. Aparentemente, no site da Cultura tem por menos de 50 pilas. Na Amazon também não ta caro.

Aventuras em dó maior

June 22nd, 2011

Ideia pra um roteiro de aventuras. Pode ser filme, quadrinhos, desenho animado ou seriado.

A aventura começa numa noite chuvosa de inverno, no estacionamento da Ufsc. Dentro de um carro, localizado ao lado do Laboratório de Energia Nuclear da Universidade, o herói está comendo uma bichinha (a Ufsc fica na Trindade; portanto, o cara que está comendo não é gay). Enquanto come, ele segura a bicha pelos ombros, com um encaixe todo particular: o polegar nas costas e os outros dedos, todos juntos, na frente. Como veremos adiante, essa posição é importante.

No meio daquele embalo suarento (dentro de um Corsa ou de um Uno; é importante que a bichinha seja alta e de voz grossa), ocorre uma explosão no laboratório. Fogo. Radioatividade. Pânico. O carro é destruído e seus dois ocupantes são arremessados longe. A bicha, ao ver que o outro está fosforescente de tanta radiação que seu corpo absorveu, pensa que ele morreu. Ajoelha-se na lama chorando, depois deita em posição fetal e pergunta: PÓR QUE? PÓR QUE?

Ainda brilhando, o comedor abre os olhos e levanta-se lentamente. Suas mãos continuam na posição de encaixe, formando dois C. E ficarão assim pra sempre: é efeito da radiação, que modificou seu DNA. Ele então olha para a bichinha e tranquiliza-o: “acontece”, diz. A partir daí, ele desenvolve superpoderes, que utiliza para fazer a justiça. Onde houver o desespero, seus raios farão as pessoas perceberem que essa situação, aparentemente horrorosa, é coisa que… bom, acontece. E onde não houver, passa a acontecer.

O Capitão Acontece (ou Capitão C?) tem um uniforme com dois C no peito, mais ou menos como o demolidor. E a bichinha passa a ser seu parceiro de aventuras. Uma delas pode envolver uma súbita escassez de LEMÃO na cidade, depois que todos foram arremessados contra músicas de dark’n'holl. A carência de vitamina C inicia uma epidemia de gripe e escorbuto, que nosso herói precisa resolver.

O Teenage Fanclub e a alvorada do século

April 17th, 2011

E mais um aniversário de 10 anos: 17 de abril de 2001 foi a primeira vez que vi um show do Teenage Fanclub, em Londres. Aí eu escrevi uma matéria que saiu na Bizz. Relendo agora, fiquei surpreso de como ainda gosto do texto. Essa é a versão não-editada, sem os cortes que precisaram fazer pra caber na página. Menos os intertítulos, esses eu inventei agora.

 

 

Teenage Fanclub 17, 18 e 19 de abril de 2001

Camden Underworld – Londres

Quem quiser descrever os anos 90 vai ser obrigado a mencionar a ironia. Não aquela ironia fina e inteligente que apreciamos, mas a nefasta, de liquidação, acessível a qualquer pobre de espírito armado de sorriso desdenhoso e má fé. Dizer uma coisa dizendo que quer dizer outra e falar sem qualquer compromisso com o que se disse. Aí falar em sentimentos passou a ser brega, defender convicções políticas passou a ser panfletário e retrógrado, acreditar em amizade passou a ser babaca, pedir decência passou a ser patrulha e respeitar o próximo passou a ser coisa de otário. “Romântico”, vejam só, passou a ser pejorativo.

 
E o Teenage Fanclub? O que tem a ver com isso? Bom, no fim de 2000 eles lançaram um disco chamado Howdy!, que pode ser vagamente traduzido como “oiê”, aquele cumprimento franco, sorridente e desarmado, meio caipirão, quase simplório, como que saudando o novo século. Um disco de peito aberto, sem medo de dar a cara para bater. Se títulos de músicas como “I Need Direction”, “Dumb Dumb Dumb”, “Can’t Find My Way Home”, “Accidental Life”, “My Uptight Life” e “If I Never See You Again” deixavam antever um álbum difícil e confuso, o conteúdo mostra o contrário. Eles sabem aonde querem chegar e fazem questão de aproveitar o caminho.

 

Mas, pelo jeito, não é todo mundo que quer ir junto. Até hoje, o Teenage Fanclub tem que conviver com a acusação de serem meros recicladores. De Dinosaur Jr, depois de Big Star, depois de Byrds. Grand Prix, o melhor disco dos anos 90, recebeu apenas migalhas da atenção merecida. Fazer o que? Eles sabem que ser sublime é mais importante do que ser inovador. Afinal, o amor é mais antigo do que a humanidade, mas nem por isso deixamos de precisar dele. Assim, chegamos à inusitada situação de uma das bandas mais amáveis que existe fazer uma mini-temporada de três apresentações diferentes no pequeno Camden Underworld, no norte de Londres, pouco mais que um pub com capacidade para menos de 400 pessoas.

Lembranças dos Beatles e Joey Ramone

O primeiro show é o convencional. “Com guitarras”, conforme o anunciado. O perfil da platéia, que continuaria o mesmo nas duas noites seguintes, é curioso: aqueles tiozinhos que ninguém nunca imaginaria se preocupar com coisas como música, exceto em bailes bêbados ao som de “Besame Mucho” ou versões orquestradas de músicas dos Beatles, todos eles com o repertório inteiro na ponta da língua. E que repertório, amigos. A primeira música da primeira noite, para não deixar dúvidas quanto às intenções, é “The Town and the City”, que começa com “é bom estar aqui de novo”. E é mesmo. Mesmo quem nunca esteve num show do Teenage Fanclub antes sente-se familiarizado. Joey Ramone, morto dois dias antes, não é esquecido: Norman Blake puxa uma cover relâmpago de “Blitzkrieg Bop” e a banda acompanha, mas é apenas um “hey, ho, let’s go” rápido.

No bis, a pachorra de tocar “Tell Me What You See” é plenamente justificada, já que a versão original é daquela outra banda que tem um vocalista/guitarrista carismático com pinta de líder, um baixista que escreve as músicas mais pops e docinhas e um guitarrista que começou meio de segundo plano, mas melhora a passos largos a cada disco. No meio do caminho, aulas de pop e baladas como “Radio”, “Some People Try to Fuck With You” e a inédita “Thaw Me”. Pra finalizar, “Star Sign” e a clássica música-de-encerramento “Everything Flows”.

Xilofones, serrote e fé na humanidade

Na noite seguinte, é a vez do show acústico. A banda está ainda mais relaxada e não se importa de começar “That´s All I Need to Know” quatro vezes, por exemplo, e só então acertar. Norman parece determinado a compor algo na hora e aproveita cada intervalo mais prolongado para brincar com um riff simples e cantar “come on, come on”. O aparato de xilofones, bandolins, trumpetes e até um serrote, para acompanhar “Star Sign”, garante arranjos novos eficientes.

 
O terceiro show, prometido para ser “sem guitarras” começa aparentando mais tensão. “Ain’t That Enough” abre os trabalhos meio solene em seu arranjo de teclado e baixo. Mas a bateria eletrônica de churrascaria e o riso incontido de Norman enquanto toca uma espécie de sanfona de mesa em “Verisimilitude” colocam tudo de volta no seu ritmo normal. Depois, ele avisa, enquanto pendura sua Gibson no pescoço: “O show de hoje é como um sanduíche. As músicas sem guitarra são as fatias de pão e agora é o recheio. Acreditem, vocês vão nos agradecer”. Mal sabe ele o quanto.

 
A primeira da parte elétrica é “Hang On”, uma das maravilhas do injustamente renegado Thirteen. A partir daí, o repertório é muito mais calcado em músicas antigas, tesouros da juventude, várias do clássico Bandwagonesque. “Faz tempo que a gente não toca essa” é a frase que Norman mais usa. O que choca tanto quanto a simpatia dos escoceses é a desfaçatez com que enfileiram pepitas em forma de melodias.Para eles, tocar “Alcoholiday”, “What You Do to Me”, “Sparky’s Dream”, “About You”, “I Need Direction” e “The Concept” em seguida é tão natural quanto chupar um Chicabon. Seria irritante se não fosse tão lindo. No final, após “Planets” e “Cul de Sac”, novamente desguitarrizados, a banda volta para tocar “Broken”. E a noite termina com os felizardos que lotam o pequeno pub cantando a letra, simplicíssima, “it´s broken, your heart has been broken again” depois que o instrumental acabou. Instante precioso, que a banda faz questão de aplaudir.

Ninguém aqui esqueceu que o mundo é cheio de problemas (na noite do acústico, um mendigo foi queimado na rua diante da fila para entrar no show, ainda à luz do dia), mas também é bom lembrar que o ser humano é capaz de produzir momentos como esses, até para manter em mente que ainda dá para acreditar e nunca deixar de querer melhorar as coisas. A próxima década e o próximo século serão assim? Talvez não, mas a nossa próxima década e o nosso próximo século serão. Pode ser uma viagem para poucos, quase solitária, mas há de valer a pena. Howdy!

 

What is that cheerful sound?

March 21st, 2011

A princípio, a perspectiva é apavorante. Não só faltam nove meses (275 dias!) até começar o próximo verão, mas ainda por cima são os piores nove meses do ano, ou seja, aqueles que não são os de verão. Mais: nove meses de um ano que não tem Copa para amaciar as coisas na meiúca.

Mas não é tão ruim assim. A real é que, pelo menos no comecinho, antes de chegar no momento de humilhação e derrota moral em que o sujeito usa cobertor pela primeira vez no ano e assiste na TV matérias com frases de efeito sobre tirar os casacos do armário, o outono é bonzão. E aí, lá por maio, tem o veranico, que, nesse ano, deve transformar em vantagem toda especial o fato de seu índice pluviométrico costumar ser baixíssimo.

No Brasil a gente não costuma dar tanta importância para esse período, apesar do nome afetuoso. Imagino que seja porque ele não faça taaaaaaaaaanta diferença assim na maior parte do país, onde a temperatura não costuma baixar muito do limite civilizado. A única música brasileira de que lembro agora a invocar o período é “Veranico de Maio”, do Nelson Ayres.

Motorbile to cemetery

Nos países de língua inglesa do Hemisfério Norte, é diferente. A versão deles lá tem o nome de Indian Summer e, claro, costuma ser no final de outubro, não em maio. Acabou virando metáfora para um último respiro, mas ainda (ou novamente) viçoso) de… bem, de seja lá o que for, depois que parece ter acabado. Como aquelas semanas em que, após definhar, um relacionamento fica de novo mais romântico, sexy e profundo do que nunca, até acabar num longo e frio inverno.

Aqui nesse site rola umas explicações meteorológicas e etmológicas mais detalhadas sobre como o nome surgiu (já adianto: ninguém tem certeza de muita coisa) e entrou para a cultura anglófona. As menções mais antigas encontradas são do século XVIII.

Picnic on wild berries

E a metáfora, claro, inspirou várias músicas. A “Indian Summer” mais popular é a de Victor Herbert e Al Dubin, que já foi gravada por Duke Ellington, Sidney Bechet, Count Basie, Coleman Hawkins, Ella Fitzgerald, Gene Krupa, Errol Garner, Frank Sinatra, Earl Hines, Ron Carter, John Pizzarelli, Tommy Dorsey, Stan Getz, Glenn Miller e mais um monte de gente.

A música dos Doors com o mesmo nome também é bonitona; se bobear, um dos melhores momentos do irregular Morrison Hotel. Os Manic Street Preachers, Pete Seeger, Mike Auldridge, Roy Orbison, Poco, Tangerine Dream, entre vários outros, também cantaram, se não a microestação, o sentimento de breve renascimento e nostalgia. Ainda assim, todo esse pessoal dos últimos dois parágrafos vai ter que nos desculpar.

No matter what they rain

Porque a melhor “Indian Summer” é mesmo a do Beat Happening, originalmente lançada no disco deles de 1988, Jamboree. A frasezinha de guitarra absurdamente simples com duas notas, a bateria incerta, a letra cheia de imagens idílicas cantadas daquele jeito desconsolado, tudo nela é clássico. Tá, um microclássico, vai

E aí tem algumas versões. Como são todas de um universo musical razoavelmente reduzido, não mudam taaaaaaaaaaaanto assim. Mas as bandas conseguiram, sim, talvez por causa da simplicidade da canção, colocar suas personalidades musicais nela. Minhas preferidas, além da original, que é pura glória… acho que são a do Luna e a dos Manhattan Love Suicides. E a do Sonic Boom. Na real, vejam  aí vocês,  aqui tem algumas pra baixar. Essas da lista aí embaixo:

1. Beat Happening
2. Luna
3. Sonic Boom
4. The Manhattan Love Suicides
5. SWTHRT
6. Ben Gibbard
7. REM
8. Eugenius
9. The Beatings

Banco Redondo, 2008

March 1st, 2011

Lá pela meiúca inicial de 2008, escrevi esse release aqui pra Verano. Depois eu explico por que voltar ao assunto agora.

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O Banco Redondo é um dos pontos de referência informais preferidos e mais típicos de Florianópolis. Espanta por sua franqueza, por ser o que o nome diz: um banco, de sentar, redondo, ao redor de uma árvore em uma minúscula praça. Visitantes e imigrantes às vezes chocam-se. “Pensei que era um prédio redondo de uma instituição bancária”.

A primeira audição pública do EP de estreia da Verano foi na lanchonete que funciona bem na frente do Banco Redondo, por acaso, sem aviso, sem a presença de todos os integrantes e sem o público que acompanha seus shows na cidade. Ao invés disso, Kate Hudson na TV ao lado do freezer decorado com o logo de uma cervejaria. Faz sentido. Não é só porque o assobio do vento ali fora parece querer harmonizar com o órgão da faixa de abertura, “Lune Orange”, ou por causa da noite fria de um inverno que não sabe bem se começa de vez ou não. É também uma questão de origem. A audição foi sem estardalhaço e improvisada como o início do grupo, três anos e meio antes. A maior parte das faixas do EP vem dessa época. E é por isso que o disco privilegia o lado mais lento e contemplativo, melancólico até, da música deles. As outras, mais agitadas, do show, foram compostas depois, quando Verano já era uma banda. Antes dela, havia o desejo de tocar aquelas canções, quase nuas, só com violão e órgão, em que Tiago Vekho e Luiz Henrique Cudo se alternavam para fazer algo diferente das experiências anteriores de ambos (que iam de grindcore a punk-funk).

Foi assim ao longo de todo 2005. Às vezes só os dois, às vezes com amigos que ocasionalmente visitavam esses encontros musicais, na base de “almoçar, beber e tocar” e acrescentavam um ou outro instrumento, mostrando assim possibilidades sonoras, nunca com formação fixa. Durante esse ano, não havia a pretensão de montar uma banda, até que a vontade de mostrar em público o que faziam tornou isso imperativo. Um pouco para dar corpo às canções nos palcos, um pouco para viabilizar as idéias de arranjos que surgiam. Nessa época, enquanto a banda tomava forma, quase ganhou o nome de uma de suas composições, “Casi un Verano”, por sugestão das visitantes, preferiram deixar Verano mesmo. Por conta de detalhes como esses, também resistem a catalogar seu som como folk-rock, apesar do impulso inicial ter vindo do interesse por influências como Mojave 3, Elliot Smith, Palace, Arab Strap, Songs:Ohia e artistas do tipo.

O primeiro show foi em abril de 2006, já como um trio, com o baterista Daniel Pfeiffer. Depois, sem pressa, chegaram, no comecinho de 2007, à formação que começou, por ali, a apresentar-se constantemente na cidade e gravar o EP, mas também sem pressa. Fora a bateria, registrada em estúdio, o processo foi doméstico. “Também por economia, mas principalmente por preciosismo nosso. Queríamos fazer do nosso jeito, tornava a experiência mais real para a gente”, contam. O resultado é que o EP da banda ficou pronto por agora, quando eles já têm mais um monte de outras faixas novas, todas loucas para serem ouvidas. Tudo bem. Foi de respeitar o ritmo dessas coisas que a banda nasceu. Há quem ache que pressa não é necessariamente uma virtude, assim como sempre haverá quem goste mais de sentar-se debaixo de uma árvore do que de agências bancárias.

Sonoridade e autoconhecimento

January 27th, 2011

Ser envolvido em projeto legal sempre é bom pacas. Quando, ainda por cima, o projeto legal é de amigo, só melhora. Por isso eu fiquei todo felizão quando o Isaac me convidou pra participar da divulgação do Mapuche. A primeira coisa que fiz foi o release ali embaixo:

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Mapuche é o novo projeto individual de Isaac Varzim, integrante do Superpose e figura fundamental na cena eletrônica de Florianópolis, como músico, produtor e DJ. Mas o disco de estréia do projeto, previsto para ser lançado em março, privilegia sonoridades introspectivas e intimistas, com arranjos delicados, andamentos mais lentos e atmosfera musical orgânica e calorosa.

Os Mapuche são um povo indígena sul-americano, hoje localizados principalmente no Chile e Oeste da Argentina. Sobreviveram primeiro às guerras com os incas e outros povos, depois a mais de 300 anos de guerras com os espanhóis e, por fim, à anexação de suas terras pelos países em que vivem atualmente; são cerca de 900 mil indivíduos. Uma das razões para essa sobrevivência foi nunca terem aceitado os outros nomes pelos quais demais povos queriam chamá-los. Nunca aceitaram que outros lhes definissem a identidade. Isaac Varzim ainda não sabia disso quando escolheu esse nome para batizar seu novo projeto pessoal. Até então, era só a palavra que viu, em um quadro que encontrou perto de sua casa, na Costa da Lagoa, em Florianópolis, e de cuja sonoridade gostou. Afinal, a sonoridade é um dado fundamental para o projeto.

Atmosfera musical orgânica e pouco ortodoxa

Mas conhecimento sobre a própria identidade também é. Varzim ficou mais conhecido nos últimos anos pelo duo Superpose (que participou do projeto Subtropics, reunindo os três principais nome da música eletrônica da capital catarinense no fim dos anos 00) e pela atuação na noite florianopolitana, como DJ e promotor de festas. O disco de estreia do Mapuche, entretanto, troca as pistas e o som dançante por uma música mais introspectiva e canções com andamento mais lento e “estruturas musicais que não respeitam muito o formato pop, apesar de serem bem easy listening para o ouvido desavisado”, como define. A duração de todas varia entre 4m30seg e 6min36seg.

A ressalva à acessibilidade é importante, porque apesar da pouca ortodoxia e da delicadeza da construção musical de Varzim, a atmosfera musical é orgânica e calorosa, com arranjos que utilizam recursos eletrônicos e acústicos indistintamente. Os violões, bandolins e alguns vocais, por exemplo, foram gravados em Curitiba, no porão de uma igreja luterana centenária “com uma vibe absurda”, conta o músico. O registro de saxofone e bombardino foi feito na sala de ensaio da orquestra de metais Paraná Brass. Sobre o bombardino, se for conversar com Deddos, que é o principal músico brasileiro do instrumento e tocou-o no disco, é recomendável chamar pelo nome certo,  Euphonium, pois há diferença, ainda que sutil. O baixo também foi gravado na capital paranaense, na casa do baixista Kiko, e os demais instrumentos e vozes na casa de Varzim, em Florianópolis, ao longo dos últimos dois anos. Ele é formado em composição e regência na Faculdade de Belas Artes de Curitiba.

Primeiro single: 8 de fevereiro

A liberdade de formatos e a ausência de compromisso com música dançante também serão explorados daqui em diante por Varzim para as próximas criações do Mapuche, tanto em estúdio quanto ao vivo, em diferente formações e possibilidades. O primeiro single do disco, “She Unsaid” (lançamento: 8 de fevereiro, acompanhado de remixes de Edu K, Our Gang, Bloodshake and Muniques ), com sua condução crescente e gentil, a batidas quebrada e a sutileza das camadas de vocais, é a amostra inicial da riqueza do disco, apesar de não encapsulá-lo completamente. O lançamento do álbum é no dia 15 de março. Mas, até lá, pistas, surpresas e outros estarão disponíveis no website do projeto.

Músicas:

1. Islands

2. Lullaby

3. Make It Easier

4. Nothing Here

5. On My Knees

6. Sanctity

7. She Unsaid

Músicos:

Isaac Varzim – programações, vocais, violões, piano e viola caipira

Kiko – baixo e saxofone

Deddos – euphonium

Marcell Steuernagel – violão de nylon e bandolim

Jaguarito – guitarra

Paula Felitto – vocais femininos

Há 10 anos, eu vi Neil Young

January 20th, 2011

Neil Young e o Crazy Horse ao vivo: sangue e intensidade

Os uivos da guitarra e o sangue. É principalmente isso. Naquela noite, Neil Young tinha 55 anos de idade, quase 35 de carreira, uma obra incontestável e definitiva e dedos calejados, sem mais nada a provar. Também não tinha mercadoria alguma a ser promovida: seu disco de estúdio mais recente fora lançado 20 meses antes, o seguinte sairia apenas um ano depois. Um eventual show burocrático logo seria esquecido sem maiores consequências. Mas em “Like a Hurricane” ele puxou as cordas de sua guitarra com tanta força e paixão que várias delas arrebentaram e a pele se rasgou. Enquanto ele executava um dos grandes clássicos do rock, acompanhado do Crazy Horse, seus mais clássicos cúmplices, o sangue saía dos dedos como se viesse da alma. E me mostrou, a poucos metros, que a arte, por mais generosa, é uma musa plena de caprichos e exigências de comprometimento, para quem a inconsequência é uma risível impossibilidade.

Na época do terceiro Rock In Rio, quando ele veio ao Brasil pela primeira vez, eu morava em São Paulo e costumava colaborar com a Bizz. Da mesma maneira que para boa parte dos jornalistas musicais da minha idade, “escrever na Bizz” era um negócio muito especial para mim, que cresci lendo, aprendi pra cacete e fui fortemente influenciado por uma certa “consciência” pós-punk da revista, especialmente em seus primeiros anos. Então, apesar de não sinalizar isso em momento nenhum, muito menos me oferecer ou pedir, é claro que eu tava a fim de ser convocado para a cobertura do festival. MUITO a fim. Mas não rolou. Paciência. Comprei meu ingresso, na Renner do Beiramar Shopping (R$ 30!), e fui felizão como público.

“A arte é uma musa plena de caprichos e exigências de comprometimento, para quem a inconsequência é uma risível impossibilidade”

No seguinte, quando acordei, a primeira coisa (e provavelmente a última) que consegui pensar sobre o que tinha visto na madrugada anterior foi “que sorte a minha não ter que escrever sobre o show do Neil Young ontem”. Antes de ver o show, me pareceria uma tarefa dos sonhos. Depois de ver, parecia impossível descrever com alguma sobriedade o que foi aquilo, explicar para os leitores como foi, o que aconteceu. O texto da Bizz, por exemplo, dizia algo como “descrever o que foi aquilo é para um Nelson Rodrigues, não para amadores como nós. A gente pode descrever, dizer que músicas foram tocadas e tal, mas não vai dar a medida”. Tem inteiro e direitinho aqui. Já o Matias foi pra outro lado para conseguir.

Mas não é só. Também eu certamente não queria racionalizar, reduzir tudo aquilo a palavras e pensamentos com um mínimo de objetividade. Até hoje, ainda não quero, nunca tentei. Fiquei felicíssimo de poder manter para mim o mistério do que foi, antes de tudo, uma epifania sensorial. Deve ser por isso que, a cada vez, me emociono igual. A cada vez que perco um show que tava a fim pacas de ver (e olha que eu perco show a rodo), lembro do Neil Young e aparece um sorriso na minha cara. Parece meio ridículo, mas desde então eu nunca mais tive o lance de PRECISAR ir nesse ou naquele show. Já fui em vários outros excelentes, mas a impressão é que, de uma certa forma, a missão já foi cumprida.

Os textos do Tomate e do Matias e mais o do Scream & Yell, que encontrei agora,  informam os horários, a ordem em que as músicas foram tocadas e que elas se estendiam e chegavam a 13 minutos, a 17 minutos, essas coisas. Não sei nada disso, não teria como saber na hora. Se me disserem que durou seis horas eu acredito, se me disserem que foram quarenta minutos eu acredito também. Mas, claro, lembro de algumas coisas.

Lembro de chegar na Cidade do Rock quando tocavam os Engenheiros. Pensei: “quero ver o Neil Young da grade, vou já pra briga”. Felizmente a Liana tava comigo e disse “nah, vamos depois, vai ser tranquilo”. Quase sempre ela tá certa, então concordei. Ela tava certa. Era o menor público de todo o festival, umas 150 mil pessoas no total. Tocou o Dave Matthews e, quando terminou a Sheryl Crow, era hora da aproximação. A Liana quase sempre tá certa, mas eu não podia esperar que fosse tanto. À medida que todo mundo ia embora depois da Sheryl, comecei a ficar puto e gritar “porra, vocês estão malucos, é o Neil Young que vai tocar agora”.

Lembro que, durante a tarde, encontrei pela Cidade do Rock o Marcelo Peixoto e perguntei pelo Domingos. Não tinha visto. “Só o que faltava ele não ter vindo”, pensei. Lembro que, quase na hora do show, encontrei o Pablo e, lá na grade, encontrei o Andrey Freitas e vimos tudo aquilo juntos. Lembro que depois do show a Fabiana trouxe, finalmente, o Domingos e nenhum de nós conseguiu falar coisa alguma. Só pudemos dividir um abraço.

Lembro do começo inacreditável, já com “Sedan Delivery”. Lembro de “Hey Hey My My” e “Rockin’ in the Free World” mais lentas. Lembro de “Cortez the Killer” transformar-se, a princípio hesitante, em “Like a Hurricane”. Enquanto Neil cantava “that perfect feeling when time just slips away between us and our foggy dreams” em meio às microfonias de guitarra e som quase celestial do teclado, a sensação de irrealidade e sonho, acentuada pela visão do sangue, era tão forte que só a intensidade dela própria impedia o momento de também esvanecer-se, como se depois eu não fosse saber se aquilo aconteceu mesmo.

Mas aconteceu. Lembro também que há exatos 10 anos, em 20 de janeiro de 2001, Neil Young sangrou na minha frente para fazer o show da minha vida. E isso eu nunca vou esquecer.

O melhor de 2010

January 7th, 2011

De novo, mas agora direito, né?

http://www.mediafire.com/?wfijuci743yyzwe

1. Teenage Fanclub – Baby Lee
2. Amanda Applewood – Pretend (We’re In Love)
3. Elf Power – Stranger in the Window
4. Neil Young – Angry World
5. Tanlines – Real Life (World Cup Remix)
6. Vampire Weekend – Cousins
7. Holger – Beaver
8. Crystal Castles feat. Robert Smith – Not in Love
9. El Guincho – Bombay
10. Cee Lo Green – Fuck You
11. Harlem – Friendly Ghost
12. Wavves – Post Acid
13. Dr. Dog – Shadow People
14. Kate Nash – Do Wah Doo
15. Matt & Kim – AM/FM Sound
16. Dirty Gold – California Sunrise
17. Tame Impala – Solitude Is Bliss
18. Robyn – Dancing on My Own
19. Dum Dum Girls – Jail La La
20. The Divine Comedy – At the Indie Disco

Os 15 discos e 20 músicas de 2010

January 3rd, 2011

Os 15 discos

1. Neil Young – Le Noise

A um minuto e cinqüenta segundos da primeira faixa, “Walk With Me”, a voz e a guitarra se confundem, quase se tornando um só som. O momento epitomiza não só o disco, mas a carreira inteira de Neil Young, como se todos os clássicos que ele fez na vida fossem tentativa e preparação para chegar a isso: cantor, voz, músico, canção, guitarra, compositor, tudo uma coisa só. É essa plenitude é o grande trunfo de Le Noise.

Para chegar a ela, todas as partes cederam. Não é um disco de canções (apesar delas estarem lá), é uma paisagem sonora, mas mesmo a separação entre elétrico e acústico é sutilíssima, assim como os efeitos de timbragem e repetição, provavelmente cria do produtor Daniel Lanois, que tornam tudo ainda mais onírico e irreal. É como se todos os componentes da música de Young tivesse se desmaterializado em nome dessa unidade quase etérea.

Ao mesmo tempo em que volta à simplicidade de um disco de blues antigo, brinca com escalas médio-orientais, ele olha para sua carreira e biografia. As letras, sejamos francos, são a parte que precisamos perdoar. O descritivismo cru e sem poesia dá saudade da beleza evocativa que Young já não parece mais ser capaz de criar. Por outro lado, a majestade simples e quase mágica que Le Noise transpira também nos lembra de que nem Neil Young nem a música de guitarras estão esgotados ainda.

2. Sheepdogs – Learn & Burn
3. Titus Andronicus – The Monitor
4. Elf Power – Elf Power
5. Chromeo – Business Casual
6. Grinderman – 2


7. Holger – Sunga

“Já tentou abraçar o mundo todo de uma vez só?”. Não é simples e, na verdade, o Holger não consegue. Aqui e ali, o olho fica maior do que a barriga e faltam ganchos melódicos para a fusão de indie rock, axé, afro, psicodelia, new wave, modernices, pós-punk e mais um monte de coisa ser tão contagiante como deveria. Na verdade, Sunga nem teria como corresponder a sua promessa.

Mas o encanto da tentativa é fascinante, como o de observar uma criança descobrir o mundo a seu redor, testar sem medo os seus limites, o tamanho dos braços, o equilíbrio. Esse período irrepetível, em que até os tombos e eventuais machucados têm graça, já seria suficiente para o disco merecer a torcida.

E aí vêm os gols. Quando acertam, como em “Toothless Turtle” (essa podia até ser do INXS na época em que era fodão), “No Brakes”, “Let’em Shine Below”, “Beaver”, “She Dances” e “Eagle”, é caso pra júbilo. E pra escolher Sunga como o disco brasileiro mais legal de 2010.

8. Harlem – Hippies
9. The National – High Violet
10. Avey Tare – Down There
11. Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy
12. Tame Impala – Innerspeaker
13. Ariel Pink’s Haunted Graffiti – Before Today
14. LCD Soundsystem – This Is Happening
15. MGMT – Congratulations

As 20 músicas

1. Teenage Fanclub – Baby Lee
2. Amanda Applewood – Pretend (We’re In Love)

Na verdade, poderia ser o contrário, as duas são fácil a melhor música do ano. Sobre “Pretend (We’re In Love)” a gente já falou aqui  no Tico-tico. E “Baby Lee” é daquelas músicas pop gloriosas, nada menos do que se espera do Teenage Fanclub, que sempre é muito. Tão boa, mas tão boa, que fez Shadows, o disco novo, soar fraquinho em comparação e ficar de fora da nossa lista. Acontece. Tem aqui o link pra baixar a música.

3. Elf Power – Stranger in the Window
4. Neil Young – Angry World
5. Tanlines – Real Life (World Cup Remix)
6. Vampire Weekend – Cousins
7. Holger – Beaver
8. Crystal Castles feat. Robert Smith – Not in Love
9. El Guincho – Bombay
10. Cee Lo Green – Fuck You
11. Harlem – Friendly Ghost
12. Wavves – Post Acid
13. Dr. Dog – Shadow People
14. Kate Nash – Do Wah Doo
15. Matt & Kim – AM/FM Sound
16. Dirty Gold – California Sunrise
17. Tame Impala – Solitude Is Bliss
18. Robyn – Dancing on My Own
19. Dum Dum Girls – Jail La La
20. The Divine Comedy – At the Indie Disco